Gênero e sexualidade

CULTURA DO ESTUPRO

Ex-vocalista de banda argentina declara que “Existem mulheres que precisam ser estupradas”.

quinta-feira 11 de agosto| Edição do dia

Tradução adaptada do artigo em espanhol de: Andrea D’atri
Disponível em: http://www.laizquierdadiario.com/Y-tu-cabeza-esta-llena-de-ratas

A banda Bersuit Vergarabat surgiu em 1987 na Argentina. Considerada uma das mais expressivas do rock nacional, a banda foi censurada pelo governo de Carlos Menem (1989-1999), lotando estádios e vendendo milhões de discos. A banda sofre a separação de seu vocalista em 2009.

Desde seu primeiro álbum, a banda se caracterizou por suas mensagens contra o menemismo e críticas à inúmeros políticos. As letras de suas canções não foram apenas censuradas, mas em muitos casos, os canais de televisão que transmitiam os videoclipes da banda foram processados e tiveram que pagar multas pelos ataques contra os políticos da época e pelas críticas feitas à sociedade argentina da década de 1990. Embora, houvesse censura, a banda não deixou de existir e sua popularidade aumentou a níveis massivos e se converteram em um dos grupos mais importantes do rock argentino e um dos principais da America latina.

Durante uma conversa com estudantes de jornalismo na Argentina, o ex-vocalista da banda Bersuit Vergarabat, Gustavo Cordera, fez as seguintes declarações:

“É uma aberração da lei que você não possa transar com uma pirralha de 16 anos com fogo na ‘buceta’, se ela quiser transar com você. Existem mulheres que precisam ser estupradas para fazer sexo, porque são histéricas e sentem culpa por não poderem fazer sexo livremente”.

As declarações do cantor foram publicadas via Facebook por um aluno que estava presente no evento. A súbita imobilidade dos alunos frente as declarações não esperadas transformou-se em nojo e repugnância . Assim que a denúncia viralizou nas redes sociais, o nojo e a repugnância se converteram em repúdio e rechaço social.

Gustavo Cordera, o músico transgressor e rebelde completou: “se eu tenho algo bom para lhe dar, eu posso desvirginar você como ninguém nesse planeta. Se você vier me falar sobre como se sente, eu entenderei, mas se vier me falar de direitos, eu não vou escutar, porque não acredito nas leis dos homens, acredito nas leis da natureza”.

Jonatan Dalinger, o aluno que publicou as barbaridades proferidas por Gustavo Cordera, publicou em sua página de Facebook: “Hoje tive a ‘oportunidade’ de passar uma hora com o ex-líder de uma das bandas mais expressivas do rock nacional (...) E confirmei o que sempre soube sobre Gustavo Cordera: sua soberbia, arrogância e ares de superioridade”.

Depois da revolta, o estabelecimento de ensino que realizou a palestra, TEA Arte, emitiu um comunicado através do Facebook, onde afirmou que o conteúdo das palestras não devem ser difundidos. “Os alunos conhecem essa regra e pedimos que a respeitem. Isso não significa que a instituição apóie as declarações dos entrevistados”, afirmou.

“Quando falamos em estupro, não falamos de sexo, mas sim de violência.”

A fundadora do grupo de mulheres Pan y Rosas (Pão e Rosas) na Argentina, Andrea D’atri discorre da seguinte maneira em seu artigo publicado na página La Izquierda Diario:

Desde tempos remotos onde se originou a propriedade privada, encontramos depoimentos da prática masculina do estupro de mulheres. As histórias antigas revelam cenas de raptos de mulheres e sua submissão sexual em terras longínquas. A antropóloga Rita Segato destaca que trata-se de “uma extensão da questão da soberania territorial, uma vez que, como território, a mulher e, mais especificadamente, o acesso sexual a ela, é um patrimônio, um bem pelo qual os homens competem entre si”.

A história de nosso continente mestiço é um claro exemplo disso. O estupro das mulheres nativas era uma prerrogativa dos homens “conquistadores”, como também a pose das terras “descobertas”, seja na América espanhola ou na lusitana. Se somarmos esse fato a questões étnicas e religiosas, é necessário lembrarmos que os estupros cometidos por tropas de ocupação, contra mulheres do território ocupado, também têm o propósito de exterminar através da reprodução mestiça esse grupo identificado como “o inimigo”.

A partir desse ponto de vista, o estupro é um crime contra a propriedade, um “assunto entre homens”, que disputam o domínio sobre suas mulheres/territórios.

Com o desenvolvimento do capitalismo – e mais tardiamente que o homem – a mulher se transformou em cidadã. A cidadania deu às mulheres direitos e capacidades das quais, anteriormente, carecia, inclusive o consentimento. Aquilo que apenas o patriarca poderia decidir – o pai, enquanto solteira; o marido, depois de casada -, agora está em suas mãos. A partir desse enfoque, a violência sexual é problema da mulher. Vestir-se de tal maneira, andar por certos lugares em certos horários, ter ou não determinadas condutas são fatores que tornam a mulher a única responsável pela violência sexual da qual está exposta e pode tornar-se vítima.

Na interpretação patriarcal, as mulheres teriam a capacidade de provocar, ainda que involuntariamente, o desejo masculino. Mas ainda pior, é o fato de que a essa “capacidade inata” é somada ao poder (esse sim voluntário) de negar a satisfação desse desejo provocado impensadamente. Seguindo nesse pensamento, a repulsa das mulheres, a negativa de satisfazer esse desejo masculino é considerada uma estratégia de sedução.

Sobre esse ponto de vista, D’atri comenta:“Para que um “não” seja interpretado como um “sim” basta um piscar de olhos, que transforma o desejo masculino em abuso, em estupro, uma ação não consentida sobre o corpo da mulher. Ou seja, uma violência sexual."

“A repulsa das mulheres é considerada um estratégia de sedução”

De acordo com uma pesquisa realizada em vários países, são denunciados entre 10 a 20 estupros, porém menos de 10% dos autores são condenados.

Já no Brasil, de acordo com as estatísticas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Mas como apenas 30% a 35% dos casos são registrados, é possível que esse número seja ainda mais assustador, de “1 estupro por minuto”, afirma Samira Bueno, cientista social e diretora executiva da FBSP. A cientista também comenta que mulheres de diferentes classes e etnias são violentadas, “embora as negras sejam as principais vitimas letais”.

A impunidade é enorme, pois a cultura patriarcal condena a vítima. E para o estupro encontra-se milhares de justificativas baseadas em uma suposta natureza masculina, da qual a mulher provocou e que de uma maneira ou de outra também “aproveitou”.

Felizmente, podemos contar com companheiras de nossa luta e mobilização que vem crescendo, especialmente com a organização pão-e-rosas. O movimento #NiUnaMenos (Nem uma a Menos) que repercutiu em toda America Latina representa a consciência de milhares de pessoas que hoje não permitem a violência contra a mulher trabalhadora ou de qualquer outra classe. Não permitiremos mais o abuso contra o gênero e não deixaremos impune os que o fazem; nem mesmo Gustavo Cordera e sua “cabeça cheia de ratos”, como diz em sua versão em espanhol da música de Cazuza “o tempo não para”.




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