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Evangélicos reagem a nome para Educação e Bolsonaro promete ministro da "Escola sem Partido"

O atual diretor de Articulação e Inovação do instituto Ayrton Senna, Mozart Neves, foi anunciado como ministro da educação de Bolsonaro. No entanto, horas depois, a equipe de Bolsonaro emitiu uma nota desconversando. Deputados da Frente Evangélica entraram na sala do ex-capitão contrários a nomeação. Foi a vez da Igreja cobrar os serviços prestados na campanha de Bolsonaro.

quarta-feira 21 de novembro| Edição do dia

A oficialização da nomeação de Mozart iria ocorrer nesta quinta-feira (22). A escolha aconteceu após reunião de Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna, com a equipe de Bolsonaro. No entanto, na nota publicada, nada havia sido definido nessa reunião.

A Frente Evangélica, com seus deputados representantes dos principais líderes das Igrejas Evangélicas, empresários do evangelho como os pastores Silas Malafaia, Marcos Feliciano e outros, intercederam diretamente na escolha do Ministro da Educação. Mozart seria um "moderado" por não se identificar com o projeto Escola sem Partido e não se opor ao mito da "ideologia de gênero".

Bolsonaro os atendeu, desconversou a nomeação como sinal de que o próximo nome estaria de melhor agrado às pautas dos Evangélicos. Certamente que o futuro presidente compartilhe com o Escola sem Partido e seu projeto que legaliza a perseguição de professores e alunos que propusessem discussões críticas em sala de aula, ou ainda se atrevessem a cumprir o dever da escola em ensinar sobre gênero e sexualidade. Não atoa tanta Fake News sobre o kitgay e outras lendas da extrema-direita.

O Instituto Ayrton Senna também desmentiu a nomeação horas depois. Porém, não diminui o fato de que a Igreja Evangélica mostrou que pode cumprir um papel determinante na escolha do próximo governo, cobrou o seu "dízimo" pelo tempo de TV oferecido na Record do pastor Edir Macedo e a pregação de Fake News sobre ideologia de gênero e a pretensa idoneidade de Bolsonaro. Assim como Moro foi recompensado com um superministério da Justiça, a Igreja Evangélica exigiu o direito de selecionar um importante ministério do governo.

É notável a influência que esse poder "invisível", que o PT nos seus anos de governo se ajoelhou, impedindo que se avançasse a legalização do aborto. Eles que sempre foram responsáveis pelas centenas de mulheres mortas em abortos clandestinos, passam almejar maior poder no Executivo, explicitamente interferindo nesse poder.

Até mesmo a Constituição de 1988, antidemocrática que é, desautoriza esse papel das Igrejas com o direito a laicidade do Estado. O mesmo vale para as escolas, onde eles querem enfiar o ensino religioso. E ainda levantam a bandeira do Escola sem Partido como se fossem os árbitros da neutralidade.

Essa atitude ofensiva dos Evangélicos mostra, por outro lado, como Bolsonaro é fruto de um aprofundamento da crise de Estado, onde poderes sem voto da burguesia, principalmente o Judiciário no atual contexto, o Exército, e agora as Igrejas, começam a exercer maior protagonismo, passando por cima do direito ao sufrágio universal (tal como foi o golpe institucional e a prisão de Lula).

Bolsonaro será representante direto dessas Igrejas para perseguir moralmente a juventude e os professores, atuar contra uma educação crítica. Mas também para sucatear o ensino público e para que ele esteja cada vez mais restrito a formação de precária desses jovens. A nomeação de Mozart não foi contestada pelo que ele realmente representava.

Mozart era um moderado?

A escolha de Mozart ia no mesmo sentido das propostas nefastas que Bolsonaro e sua equipe de extrema direita já apresentaram, como a Ensino a Distância até mesmo no ensino fundamental.

O instituto Ayrton Senna, e também o Todos Pela Educação, são iniciativas de um setor do empresariado nacional e internacional, patrocinados por grandes marcas como Unilever e P&G, voltadas à promoção do ensino "não formal", privado, que promove educação precária voltada ao mercado de trabalho.

São grandes entusiastas do ensino a distância, promovendo esse tipo de ensino via grandes redes de ensino privado, como a Estácio. Essas fundações não são mais que mecanismos que esses "empresários da educação" usam para disputar os fundos públicos como Fundef e Fundeb para promover seus projetos aparentemente "sem fins lucrativos".

Ou seja, Mozart foi escolhido como ministro da Educação para dar mais espaço para os grandes empresários da educação privada, que através dessas ONGs e também por iniciativa dos governos sugam o dinheiro que poderia ser investido na rede pública.

Mozart Neves Ramos é professor, químico e escritor. Embora não se diga vinculado a nenhum partido, foi secretário de educação de Pernambuco no governo do então PMDB/DEM, de Jarbas Vasconcelos e Mendonça Filho. Segundo o Estadão neste período, entre 2003 e 2006, ele e Fernando Haddad (PT), então Ministro da Educação de Lula, se aproximaram. Mozart Neves também integrou o Conselho Nacional de Educação, ligado ao MEC, entre 2005 e 2014.

Vemos que não é nenhum progressista. O futuro ministro da Educação de Bolsonaro deverá combinar o perfil empresarial de Mozart com o moralismo repressivo e anti-científico das Igrejas. Bolsonaro também aponta seu rifle para o ensino superior com cobrança de mensalidade e perseguição dos centros acadêmicos.

EDITORIAL: Por que Bolsonaro precisa atacar os professores para impor seu projeto autoritário e ajustador?

Assim, precisamos levantar a consigna que articule a denúncia de Bolsonaro como continuidade do golpismo, contra o “Escola sem Partido” e toda forma de assédio e censura contra os professores, contra as intervenções do judiciário e da polícia nas Universidades (demanda democrática) com a intensão clara de Bolsonaro atacar a previdência, os trabalhadores, os serviços e o patrimônio público (demanda econômica). Dar peso apenas à primeira, acaba por desarmar os trabalhadores pelas batalhas decisivas que se darão no plano da luta econômica e pelas condições de trabalho e vida. Dar peso apenas para a segunda, é cair num sindicalismo economicista incapaz de dar uma saída política para os professores e o conjunto dos trabalhadores, já que separa o significado do golpe institucional - e de Bolsonaro e suas políticas repressivas como a continuação violenta do golpe - das consequências econômicas, como os planos de ajustes, a reforma da previdência e as privatizações.




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