Internacional

CONFLITOS ALEMANHA-EUA

Europa se distancia não só de Trump mas também dos EUA

Uma nova época das relações entre EUA e Alemanha. A desconstrução da arquitetura transatlântica e o aumento da desordem mundial.

Juan Chingo

Paris | @JuanChingoFT

domingo 25 de junho| Edição do dia

Na semana passada, o Senado dos EUA aprovou por uma esmagadora maioria a ampliação das sanções contra a Rússia, um país que os senadores consideram que contribui para a desestabilização da Síria e da Ucrânia e que interfere nos processos eleitorais de países terceiros. Adotando uma linha dura, principalmente para fazer Moscou pagar sua suposta interferência através de ataques cibernéticos na campanha presidencial de 2016, esta extensão das sanções – que serão codificadas na lei e portanto mais difíceis de serem anuladas – busca limitar a capacidade de Trump para aliviar, suspender ou anular as sanções existentes em busca de uma relação mais estreita com a Rússia. As mesmas poderiam ser amplamente aprovadas também pela Câmara de Representantes.

O gasoduto Nord Stream 2 no centro da disputa

As capitais europeias se preocupam com o impacto que a iniciativa possa ter sobre as empresas que participam do gasoduto Nord Stream 2, que busca transportar gás russo através das águas do Mar Báltico até a Alemanha e outros países europeus. Dessa maneira, este projeto chamado de gasoduto Molotov-Ribbentropp pela Polônia, desvia o gás da Sibéria dos oleodutos existentes na terra: a conexão de Yamal através da Bielorrússia e Polônia; e a chamada conexão da Irmandade através da Ucrânia ao sudeste da Europa. Geopoliticamente, o Nord Stream 2 cria um arranjo especial com a Alemanha enquanto ameaçava os interesses de segurança e econômicos da Europa Oriental e Central, e deixa assim a Ucrânia a mercê da chantagem do Kremlin. O mesmo construirá, através da Gazprom, e associado com outras cinco grandes empresas que financiam a metade do projeto de 9,5 milhões de euros: a francesa Engie, a anglo-holandesa Shell, a austríaca OMV e as alemãs Uniper e Wintershall (BASF).

Nesta disputa que divide os países europeus, um novo ator imprevisto acaba de entrar em cena: os Estados Unidos. É que o texto aprovado permite não só que se imponham “novas sanções a setores chave da economia da Rússia”, mas que a seção 233 se refere expressamente ao desenvolvimento de oleodutos. Ainda que não cite expressamente o controvertido Nord Stream 2, sim que especifica que o presidente possa impor sanções a empresas que invistam na construção de oleodutos para a exportação de energia. As sanções dirigidas a empresas que operam no setor de energia são, em todo caso, um instrumento opcional e depende se a Casa Branca opte por utilizá-lo. “Se o Departamento do Tesouro usa esta provisão de uma maneira agressiva, poderia ameaçar com sanções a qualquer companhia que invista na Nord Stream 2”, explicam o think thank Atlantic Council.

Inacreditavelmente, os senadores estado-unidenses põem como fundamento… a ameaça a segurança energética do Velho Continente. Eles julgam que “o governo dos Estados Unidos deve priorizar o apoio às exportações de energia dos Estados Unidos para criar empregos e fortalecer a política exterior dos Estados Unidos”, ao mesmo tempo também “ajudar os aliados dos Estados Unidos”. O mesmo jornal afirma que com Nord Stream 2, sabem que as exportações estado-unidenses de gás de xisto, que começaram modestamente em 2017, sofrerão gravemente a competição do gás russo. É uma forma dos Estados Unidos de “promover seu próprio gás”, disse Isabelle Kocher, executiva da companhia francesa Engie. As companhias estado-unidenses tentam exportar gás natural líquido (GNL) para a Europa, depois que a administração de Barack Obama aprovou elevar as restrições. Desde o ponto de vista estratégico norte-americano, o fluxo de gás líquido barato na Europa rompe o monopólio da russa Gazprom e obriga a baixar os preços da mesma maneira que o petróleo de xisto estado-unidense está rompendo o domínio da OPEP nos preços do petróleo, mudando a relação de forças e a dependência com os grandes centros de produção de matérias-primas energéticas a nível internacional. Tanto a Lituânia como a Polônia abriram terminais portuários para receber o gás líquido. O gás da Gazprom é muto mais barato porém em términos estratégicos a GNL voltou a ser suficientemente barato para alterar por completo o equilíbrio de poder, apesar da necessidade de liquefazê-lo, transportá-lo em barcos congelados e depois se tornar regaseificado.

A brutal resposta da Alemanha e Áustria

De forma conjunta e em nome da União Europeia (UE), Alemanha e Áustria se uniram numa brutal resposta à iniciativa do Senado norte-americano: “Não podemos aceitar a ameaça de impor sanções ilegais e extraterritoriais às companhias europeias que participam nos esforços para expandir o fornecimento energético!”, assegura o ministro do Exterior alemão e o chanceler austríaco em um duro comunicado em conjunto. Sigmar Gabriel e Christian Kern agregam em seu comunicado que “a emenda pretende proteger seus empregos na indústria estado-unidense do gás e petróleo”. “As sanções políticas não devem estar de nenhuma maneira vinculadas a interesses econômicos”, e adiciona, para continuar ameaçando para uma maior deterioração das relações transatlânticas: “Ameaçar com imposição de sanções a empresas da Alemanha, Áustria e de outros países europeus em relação a seus negócios nos Estados Unidos se participam ou financiam projetos de gás natural que impliquem a Rússia, como o Nord Stream 2, impacta novamente as relações euro-americanas de forma negativa”. Estas declarações, apesar de sua habitual cautela, foram apoiadas pela chanceler alemã Angela Merkel, cujo porta-voz disse que compartilhava “o mesmo nível de preocupação” expresso com “a mesma veemência”.

Uma nova época das relações entre EUA e Alemanha

Este é o último choque diplomático, em meio a um clima de crescente tensão entre Washington e Berlim. A chanceler alemã, Angela Merkel, rompeu recentemente seu tradicional tom moderado para declarar que a Europa já não pode contar com o aliado estado-unidense até agora, também no momento que Trump decide abandonar o Acordo de Paris sobre a mudança climática. Numa frase que fez época e pronunciada em um ato de campanha de seu partido em Munique, a democrata-cristã havia afirmado que “os tempos em que podíamos contar completamente com os outros está terminando. Assim temos experimentado nesses últimos dias”. Porém esse último que estamos comentando é revelador pois mostra um salto de enfrentamento entre Europa e os EUA. Em fins de maio Merkel acusava essencialmente a Trump e sua administração, colocando-se de fato no mesmo campo dos oponentes de Trump em Washington DC, ou seja, em particular ao lado do Congresso em muitos casos. Mas este golpe do setor antirrusso do “establishment” norte-americano golpeia, sobretudo, seus proclamados aliados europeus. Já não é somente Trump a quem os alemães denunciam, mas a Washington de conjunto. É um salto na divisão transatlântica que toma um caráter verdadeiramente estrutural e de círculo vicioso, já que ao mesmo tempo reforça a politica antieuropeia de Trump. Há meses Washington não poupa críticas a Berlim, por causa do superávit comercial alemão, que desequilibra a balança comercial entre ambos os países e por vez o que Trump considera uma insuficiente contribuição alemã à OTAN.

Dito de outra maneira, a ação bipartidária do Senado dos Estados Unidos e a aguda resposta do governo alemão manifestam que os conflitos entre Estados Unidos e Alemanha não estão intensificando simplesmente como resultado do mandato de Donald Trump, mas que tem raízes mais profundas. Devemos notar que desde o choque da reunião do G7 onde Merkel saiu com náuseas em relação ao comportamento do presidente norte-americano, o governo alemão tem trabalhado sistematicamente para expandir suas relações políticas e econômicas mundiais. Depois que o primeiro ministro chinês Li Keqiang e o primeiro ministro indiano Narendra Modi visitaram Berlim no início de junho, Merkel visitou Argentina e México, ao mesmo tempo que o governo organizou uma importante conferência sobre a África em Berlim nesses últimos dias.

Por sua parte, Sigmar Gabriel criticou a ação, respaldada pelos EUA, da Arábia Saudita contra o Qatar, que está dirigida sobretudo ao Irã. Em uma declaração, Gabriel defendeu o emirato e advertiu contra uma “Trumpificação” das relações na região. Os “últimos acordos gigantescos de armas entre o presidente estado-unidense Trump e as monarquias do Golfo” intensificaram “o perigo de uma nova corrida armamentista”. Esta era “uma politica completamente equivocada, e certamente não a política da Alemanha”. Esta oposição da Alemanha aos EUA e a Trump vem se intensificando desde o triunfo de Macron na França, a restruturação do eixo franco-alemão e a discussão da construção de um Exército Europeu.

Até a uma desordem mundial

Como vínhamos afirmando desde a ascensão de Trump, claramente está em marcha uma mudança na política mundial com vastas implicações. As relações e instituições mundiais que durante décadas estabeleceram o marco para o desenvolvimento da economia mundial capitalista e sua política estão rachando. O intento de Trump nas reuniões do G7 e da OTAN de assegurar melhores condições econômicas para os Estados Unidos em relação aos seus sócios europeus, em especial a Alemanha, têm o tiro saído pela culatra pelo visto. Já nem sequer a perspectiva de que a tensão bilateral possa ofuscar a reunião do G20 do próximo mês em Hamburgo parece estar freando a veterana chanceler alemã, a política mais poderosa da Europa. E pelo contrário, apesar do protecionismo declarado de Trump, esta quer fazer avançar a liberalização dos intercâmbios comerciais no G20.

Alguns estrategistas norte-americanos de política exterior qualificam estes acontecimentos como um retrocesso histórico para Washington. Jacob Heilbrunn, editor do The National Interest, disse que: “Cada administração americana desde 1945 tem tentado trabalhar estreitamente com a Alemanha e a OTAN”, mas que os EUA sob o mandato de Trump estão “empurrando Merkel a criar uma superpotência alemã”5. E agrega: “Agora que a França elegeu Emanuel Macron presidente, Merkel está pondo novamente para funcionar um eixo franco-alemão que persiga um caminho comum econômico e militar. Isso assinalará uma diminuição significativa no prestígio e na influência estado-unidense no estrangeiro. Imaginemos, por exemplo, que Merkel decida desafiar o avanço de Trump para sancionar e isolar o Irã restabelecendo relações comerciais com a Coreia do Norte, incluindo a venda de armas.

No entanto ainda não estamos aqui. Porém a aproximação de Trump na Europa e em outras partes têm se baseado na ideia de que ele pode desafiar as regras do jogo e extrair o que ele quer. O problema é que está animando a Alemanha a se converter na superpotência da Europa e inevitavelmente perseguirá aquilo que considere de seu interesse. Depois de tudo, foi a nação que inventou o término “realpolitik”. A probabilidade E é real mas como já dissemos, e diferente desta estratégia, para nós Trump só acelera tendências na relação transatlântica que vêm desde a crise de 2008 e se incrementaram durante a presidência Obama, ainda que este, diferente de Trump, soube cobrir os interesses norte-americanos com uma relação particular com Merkel, inclusive em momentos onde foi contrário aos interesses geoeconômicos da Alemanha como é o caso das controvertidas sanções a Moscou.

Mas o que está claro é que esta estratégia se acelera ainda: o que estamos vendo é a desconstrução da arquitetura transatlântica. É isso que avança no ritmo da oposição e da inconsistência anti-Trump em Washington, assim como as ofensivas do trumpismo e as dificuldades da Alemanha para afirmar sua liderança europeia no marco da potência da influência norte-americana na Europa e na Alemanha depois de mais de dois terços do século. O vazio que cria a desconstrução dessa influência não pode ser preenchido facilmente, mais ainda no marco de desordem exacerbada que caracterizam Washington, como consequência da divisão da elite e dos setores do poder. Nem a Alemanha, nem a UE estão a altura de preencher este vazio. Neste marco a desordem norte-americana só pode aumentar a desordem mundial.




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