Educação

EDUCAÇÃO EM SP

Estupro, esfaqueamento e até assassinato: paremos tudo para debater a violência entre os muros das escolas da Rede Municipal de São Paulo

No último sábado (28) uma professora da Rede Municipal de Ensino, da EMEF Dama Entre Rios Verdes, localizada em Itaim Paulista na Zona Leste de São Paulo, foi estuprada no estacionamento da escola durante a reposição da greve. Em menos de duas semanas presenciamos também o esfaqueamento de um professor e o assassinato de uma criança de apenas 10 anos, tudo entre os muros de nossas escolas. Num momento de ataques ímpares à Educação e ao trabalho dos professores, para onde pretendem levar a Escola pública?

quarta-feira 2 de outubro| Edição do dia

Foto: Ronny Santos/Folhapress (fonte: https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2019/09/professora-e-estuprada-em-estacionamento-de-escola-municipal.shtml)

No último sábado (28) uma professora da Rede Municipal de Ensino, da EMEF Dama Entre Rios Verdes, localizada em Itaim Paulista na Zona Leste de São Paulo, foi estuprada no estacionamento da escola durante a reposição da greve. O caso mobilizou toda a comunidade escolar – pais, estudantes, professores e funcionários, além de representantes sindicais e da Prefeitura, que se reuniram ontem, segunda-feira, num ato e numa mesa de discussão sobre o ocorrido na Escola que teve também as atividades paralisadas.

Foto: Débora Freitas. CBN (fonte: http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/276418/policia-tenta-identificar-homem-que-estuprou-profe.htm)

Nós do Movimento Nossa Classe Educação, agrupação de professores e trabalhadores em educação de vários estados e que atuamos também no município de São Paulo, nos solidarizamos com a professora vítima dessa brutal ação, que é em primeiro lugar reflexo de uma sociedade machista que escancara suas contradições através da violência contra a mulher e da cultura do estupro, mas também um reflexo da desestrutura que assola a escola pública. E reforçamos: esse caso coloca na ordem do dia uma discussão mais que latente, sendo necessário parar tudo e discutir à fundo o problema da violência, em todas as suas faces, porque isso é parte do cotidiano dentro das nossas Escolas.

Em 2018, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil “superou” recordes no que toca a questão da violência sexual, tendo registrado 180 casos de estupro por dia, ou seja, no último ano a cada 8 minutos uma mulher foi vítima de violência sexual no nosso país e essa brutal realidade, infelizmente, passa cotidianamente pelas vidas das mulheres, jovens e crianças, que fazem parte da Escola. Sendo inclusive, que mais de 60% das mulheres que sofrem violência sexual são meninas e adolescentes de até 14 anos e quase 51% são negras, um perfil muito similar ao da juventude que frequenta a escola pública. Isso se tratando dos casos em que a vítimas chegam a denunciar, o que acontece em apenas 7,5% dos casos, segundo a pesquisa nacional de vitimização.

E ainda assim, na outra face da mesma moeda, nós professores e trabalhadores da educação nos últimos anos viemos nos enfrentando com infinitas tentativas, em diversos Estados e Municípios, de aprovarem o Projeto Escola sem Partido – um projeto, defendido por movimentos como o MBL e setores religiosos e conservadores, inclusive por Bolsonaro e Doria, e que entre outras coisas criminaliza o debate de gênero e sexualidade nas escolas de todo país, ignorando a realidade de desigualdade de gênero e da violência contra a mulher em todas as suas matizes, seja psicológica, física ou sexual.

Inclusive, recentemente vimos Doria, pelo Governo do Estado de SP, recolher cadernos de ciências de estudantes do 8º ano da rede estadual de ensino, por alegar que o material fazia “apologia à ideologia de gênero”, quando na verdade discutia dentro do conteúdo da disciplina questões sobre o sexo biológico e identidade de gênero, um debate totalmente pertinente frente à realidade da nossa sociedade onde a identidade de gênero, principalmente da juventude, se expressa de forma plural e mais, frente ao enraizado preconceito que também faz do Brasil um lugar pouco seguro para população LGBT, que junto à outros setores oprimidos, como as mulheres, negros e indígenas, tem até o direito à vida ameaçado.

Uma realidade cotidiana de violência - nossas escolas foram palco de esfaqueamento e de um assassinato

No último dia 19 recebemos também a notícia de que um professor no CEU Aricanduva, zona Leste de São Paulo, foi esfaqueado no corredor da escola por um estudante de 14 anos, que em seguida também se feriu. O professor foi internado em estado grave e precisou passar por uma cirurgia após o ocorrido.
Depois, no sábado dia 28, uma menina de apenas 9 anos foi assassinada por um adolescente de 12 anos no CEU Anhanguera, em Perus, durante uma festa da escola quando estava acompanhada da família. No primeiro momento que a mãe a deixou na fila de um brinquedo e foi pegar pipoca a menina desapareceu e foi encontrada morta e amarrada à uma árvore.

Na ocasião do esfaqueamento, Bruno Covas, Prefeito de São Paulo, afirmou ao G1 que a Rede Municipal de Ensino tenta prevenir casos de agressão nas escolas, mas nós professores e trabalhadores que diariamente deixam tudo de si para fazer a Escola funcionar, numa estrutura sucateada e em condições de trabalho cada vez mais degradadas pela desvalorização de nosso trabalho, sabemos que isso não passa de verborragia. Pelo contrário, estamos adoecendo e sendo violentados no chão da escola diariamente, professores, estudantes e funcionários, à mercê da política de Estado que não só desvaloriza a Educação pública oferecida aos filhos da classe trabalhadora, como também tenta subjugar o trabalho docente e jogar os estudantes e a população contra nós, nos chamando de doutrinadores, por exemplo, para justificar intervenções ideológicas, que atendam interesses específicos, dentro de nossas escolas.

Somos mais que professores e trabalhadores de educação, muitas vezes nos vemos cumprindo o papel de psicólogos, médicos, mães e pais, de jovens e crianças tratados como números pelo Estado, substituindo até o papel do Estado, que negligencia à boa parte de nossos alunos direitos constitucionais, como moradia, saúde e educação. Sem qualquer tipo de atendimento psicológico, vemos a juventude imersa numa onda de depressão e de crescentes casos de suicídio, não esquecemos a atrocidade de que foi palco a Escola Raul Brasil em Suzano este ano. A categoria de professores e trabalhadores em educação em São Paulo, vivem a realidade de 62 afastamentos ao dia por transtornos mentais, totalizando só em 2018, mais de 22mil afastamentos por transtornos mentais, segundo dados da Folha de SP.

Dizemos não à demissão das e dos vigilantes de 197 unidades escolares como quer fazer Covas. Mais Polícia na periferia não significa mais segurança!

Essa semana o Secretário de Educação informou que a Prefeitura irá encerrar o contrato de algumas empresas que realizam o serviço de vigilância nas escolas, deixando 197 Unidades Escolares sem esse serviço durante à noite e aos finais de semana, o que vai gerar a demissão de centenas de funcionários que já atuam em condições precárias através da terceirização, já que a Prefeitura adota recorrentemente esse tipo de contratação, além de implicar diretamente no fechamento dos portões das escolas para as comunidades que costumam usar espaços como a quadra, por exemplo, principalmente nas regiões mais pobres onde existe pouca ou nenhuma opção de lazer.

Em contraponto dizem que os Guardas Civis passarão a realizar esse serviço em todas as 197 UES que ficarão descobertas pelo fim do contrato dos seguranças.
Todo mundo que vive e trabalha na periferia sabe que a relação da Polícia com as comunidades periféricas não é em nada tranquila, muito pelo contrário, permeada de violência e choques, entre o controle que quer exercer o Estado e a realidade de profunda desestrutura da vida do povo pobre. E mais, que a juventude negra é vítima inclusive de violência policial e de uma realidade de genocídio, que faz vítimas como a menina Àgatha Félix, de apenas 8 anos, morta no Rio semana passada.

E mais, essa ofensiva da Prefeitura de São Paulo, não passa por fora de uma iniciativa de Bolsonaro e Weintraub de avançar com a militarização das escolas em todo o país, com o presidente afirmando que as escolas não tem que aceitar e que tem que ser imposto. Essa forma de vigilância nas escolas, via Guarda Civil é, além de uma ofensiva contra a periferia, também uma abertura para mais policiamento em nossas escolas, que com a crescente escalada de reacionarismo que vive nosso país, não pode ser vista com bons olhos, porque pode vir à ser inclusive uma porta de entrada para mais repressão a liberdade de expressão da juventude e à liberdade de cátedra dos professores, já perseguidos pela fissura que provocou o Escola sem Partido, transformando parte dos pais e dos alunos em vigilantes.

Por tudo isso, dizemos não à demissão dos trabalhadores da vigilância de nossas escolas, assim como não naturalizamos as precárias condições em que trabalham hoje, sob o regime de terceirização que escraviza, humilha e divide a nossa classe. É fundamental que esse serviço, assim como os demais terceirizados pela Prefeitura, passem a serem contratados pela via de concursos e que os trabalhadores e trabalhadoras que já exercem essas funções sejam efetivados. Assim como dizemos não a qualquer iniciativa da Prefeitura de São Paulo de abrir as portas das nossas escolas para mais policiamento e por consequência mais repressão à juventude, aos professores e à periferia.

E exigimos que o SINPEEM e os demais sindicatos que hoje reúnem o funcionalismo, organizem a categoria para enfrentar com nossos métodos de luta esse problema. É inaceitável que a postura do sindicato seja vacilante no que toca o combate à violência que degrada ainda mais o trabalho docente e a educação que defendemos como direito elementar de toda população. É preciso botar de pé uma campanha real que envolva toda a comunidade escolar no combate à violência dentro de nossas escolas, seja ela psicológica, física, sexual, racial ou em qualquer forma em que expresse, e também em defesa do trabalho docente que vem sendo profundamente atacado, seja por Covas, Doria, Bolsonaro ou outros governos estaduais e municipais. E essa saída passa por não deixar margem para militarização de nossas escolas ou para um avanço da terceirização em nossa rede, não aceitamos pagar por essa crise com as nossas vidas.




Tópicos relacionados

Crise na Educação   /    Educação   /    São Paulo   /    Educação   /    São Paulo (capital)

Comentários

Comentar