Juventude

JUVENTUDE FRANCESA

Estudantes e secundaristas exijamos a gratuidade do ensino superior na França!

Ao mesmo tempo que há várias semanas, estudantes e alunos do ensino médio tenham se juntado à revolta geral contra o governo, somando suas reivindicações contra o aumento das mensalidades das universidades às demandas do movimento dos coletes amarelos; o discurso de Macron exibido na televisão (TF1- TV FRANCE UN) nem mesmo mencionou esta demanda dos estudantes.

sábado 15 de dezembro de 2018| Edição do dia

A universidade “made in Macron”: seleção e aumento das taxas de inscrição

Depois da parcoursup (organização online responsável pela orientação jurídica dos futuros alunos do ensino superior, N.T.) e da generalização da seleção social na entrada e durante todo o curso acadêmico imposto por Macron na última primavera, apesar de uma forte mobilização dos estudantes o governo francês anunciou mais um passo na destruição da universidade pública.

Desde o início do próximo ano letivo, os estudantes estrangeiros de fora da união europeia serão obrigados a pagar 2.700 euros por um ano de bacharelado, e 3.700 por um mestrado ou doutorado. Ao mesmo tempo, um relatório do tribunal de contas veio confirmar o que todos já sabiam: É apenas o primeiro passo, racista, no questionamento total do princípio da quase gratuidade da universidade francesa.

De fato, a manobra é tão frequente que não surpreende mais ninguém.

A estratégia do governo é dispersar os ataques, impondo-os a “conta-gotas”, a fim de combater brutalmente todas as possibilidades de resistência: Estudantes estrangeiros hoje, e todos os outros amanhã! Lembremos também as recomendações de Gary Bobo, assessor ultraliberal de Macron, e seu relatório que afirmava explicitamente que era necessário “ ir devagar, mas começar imediatamente com as taxas de inscrição”, sugerindo como valor inicial entre 4.000 e 8.000 euros!

Na realidade, o que está emergindo é a conclusão da política neoliberal conduzida nos últimos vinte anos por vários governos. Desde o processo de Bolonha, a burguesia francesa deseja retornar ao compromisso no qual se originou a “Universidade de 68”.

O motivo de todo este ataque é acima de tudo econômico: os patrões não precisam mais de tantos técnicos seniores como antes, especialmente porque as patronais estão cada vez mais relutantes em arcar com o custo de tal educação pública, ou estariam pagando mais indiretamente. Daí um processo duplo: primeiro, uma des-massificação do ensino superior, que só pode ser relativa, mas que é expressa pelo aumento da seleção em cada nível (após o BAC, após a licença e após o M1, ou seja, após o final do ensino médio, da entrada na graduação e no mestrado, N.T.), destina-se a reduzir os custos da folha de pagamento e de infraestrutura das universidades, mas também e especialmente, para reduzir o número de desempregados com diploma de ensino superior que são a base material que desafiam profundamente o sistema.

Por outro lado, vemos uma tendência à uma des-democratização do ensino público superior por meio da livre entrada dos investimentos do capital industrial e comercial na direção das universidades, em seu ensino e em seus diplomas.

Em todos esses aspectos, a universidade francesa é hoje alvo de reformas destinadas a adequar seu funcionamento e sua utilidade à evolução do capitalismo. A esse respeito, não é uma mudança qualitativa no papel da universidade: ela permanece subserviente às necessidades dos capitalistas, embora estes tenham mudado.

A crise dos capitalistas não será paga pelos estudantes e pelos filhos da classe trabalhadora!

A universidade modelo do sonho dos capitalistas, seria uma universidade seletiva e paga, cujos cursos e diplomas seriam ajustados ano a ano de acordo com as necessidades da economia. Por trás desse modelo, a ideia de que a universidade não é um lugar de emancipação, mas apenas um lugar onde se investe em um diploma que supostamente traria trabalho, por um treinamento destinado não apenas a desenvolver habilidades, mas também para formar uma certa subjetividade capaz de responder as necessidades dos patrões.

Esta universidade é a universidade que Macron está colocando em prática: ao introduzir a seleção de graduação já no primeiro ano, esta é antes de mais nada, uma seleção social que é colocada em prática, impedindo qualquer pessoa das classes populares e desfavorecidas de terem acesso à educação. A lei ORE também introduziu a ideia de que um curso superior poderia ser fechado caso a inserção profissional dos estudantes diplomados for muito fraca.

Com o aumento das inscrições e mensalidades, o que está em jogo é a ideia de que cabe aos estudantes pagarem para preencher o déficit da universidade e compensarem a falta de recursos conscientemente orquestrados pelos vários governos. Nessa lógica, estudar não é mais um direito, mas sim um privilégio dado apenas aos mais favorecidos. Os alunos se tornam clientes, que podem reivindicar um serviço com base no preço que pagam para acessar um treinamento de qualidade. Para todos os outros, são oferecidas soluções de “segunda classe”: formações “lixo” precárias, cursos profissionalizantes, etc. Em outras palavras, o fim definitivo da universidade como instituição de serviço público.

Exijamos a gratuidade do ensino superior como única forma de combater a seleção social na universidade!

É a hora de voltar à ofensiva num momento em que centenas de escolas estão bloqueadas, quando milhares de estudantes se reúnem todos os dias em Assembleias Gerais, quando já rejeitamos massivamente o Parcoursup e a lei ORE e enquanto Macron está mais do que nunca isolado e fragilizado.

Não devemos apenas lutar pela retirada dos planos para aumentar os subsídios, mas também para exigir a admissão total gratuita de todos os cursos e instituições de ensino superior. O que temos hoje não é suficiente: os cursos e escolas de maior prestigio já estão fechados para os filhos das classes populares. Os filhos privilegiados estudam em grande parte em instituições privadas e pagas, e os estudantes do ensino médio que não têm a sorte de nascer nas “boas famílias” são encontrados em escolas “latas de lixo” e em universidades de segunda classe. Nós devemos rechaçar este estado de privilégios. Acabar com a seleção social na universidade não será possível sem exigir a gratuidade total de todas as formações e todos os estabelecimentos do ensino superior.

Para isso, devemos primeiro responder à “crise” do financiamento do ensino superior. Durante 10 anos na França, o governo manteve os orçamentos universitários congelados, enquanto o número de alunos aumentou em 10%. Daí a retórica sobre a crise e a necessidade de reduzir os gastos, mas também para recorrer ao financiamento privado: essa é apenas uma maneira, “pelas beiradas”, de realizar contrarreformas que permitam um maior controle da pesquisa e da geração de conhecimento pelo capital industrial e comercial.

No entanto, o discurso dos déficits orçamentários é apenas uma cortina de fumaça destinada a fazer com que as pessoas se esqueçam o quanto a economia francesa é rica.

Assim, um quarto dos lucros das 40 maiores empresas com ações negociadas na bolsa de valores de Paris (CAC40) poderia dobrar o orçamento para o ensino superior. A riqueza das três maiores fortunas da França permitiria financiar as universidades por seis anos! Enquanto as universidades decaem e se fecham aos filhos das classes populares, são esses os mesmos jovens que permitem que os acionistas do CAC40 enriqueçam, tendo que trabalhar aos 18 anos por falta de estudos.

A questão não é, portanto, uma impossibilidade econômica para o governo financiar o ensino superior: é acima de tudo, o desejo de descarregar o custo do ensino superior nas costas dos estudantes e de suas famílias, enquanto reduz o acesso a faculdade.

Atualmente, centenas de milhares de coletes amarelos lutam há várias semanas contra o aumento do custo de vida e contra a precariedade, e lutam pela renúncia de Macron, o presidente dos ricos. Enquanto ele foi forçado a falar para tentar neutralizar a raiva popular, nenhuma palavra foi dita para atender às nossas exigências. É o momento de ampliar a mobilização e nos apoiar em torno de um programa claro, que passe, entre outros, pela exigência da gratuidade total do ensino superior e pela revogação da lei ORE.

Crédito da foto de capa: Jean-Philippe Ksiazek / AFP




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