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Estudantes do Colégio Loyola protestam contra anulação de prova com texto crítico a Bolsonaro

sexta-feira 11 de outubro| Edição do dia

Estudantes do colégio Loyola se manifestaram contra a anulação de uma prova aplicada nessa segunda-feira (7) aos educandos do 2º ano do Ensino Médio. Num eco do projeto Escola sem Partido de Bolsonaro, um grupo de pais, indignados com o fato de o exame trazer questões baseadas em textos do escritor Gregório Duvivier e do cientista político Mathias Alencastro.

Os estudantes do colégio, numa demonstração da politização da juventude em contraposição com o reacionarismo de parcela dos pais, divulgaram também uma carta com 410 assinaturas em que defendem a utilização do texto em questão e a pluralidade de ideias.

“Algumas famílias da comunidade Loyola parecem ver na pluralidade uma ameaça à qualidade de ensino, tão prezada pela instituição, e aos valores pessoais dos estudantes, aparentemente frágeis e manipuláveis. Esse tipo de pensamento, retrógrado e conservador, foi uma alavanca para o episódio que ocorreu no começo da semana”, diz o documento.

De forma madura os alunos denunciam a completa falsidade da acusação de doutrinação pela aplicação da questão, numa verdadeira aula ao grupo de pais e sua paranoia reacionária:

“O texto apresentado ia de acordo às diretrizes da disciplina de Língua Portuguesa, que, ao longo de todo o ano letivo, trabalhou, em sala de aula, os diferentes gêneros textuais, como artigos de opinião, crônicas e resenhas. No terceiro trimestre, inclusive, as aulas foram destinadas aos textos humorísticos e aos recursos utilizados pelos autores para o desenvolvimento do humor. Ademais, é importante destacar que, das quatro questões referentes ao texto, uma é relacionada à colocação pronominal, e as outras três à estrutura característica dos textos de humor. Portanto, nenhuma das questões da avaliação exige posicionamento político dos alunos. Não há teor ideológico em nenhum dos exercícios propostos”, afirma a carta.

A perseguição a esquerda que Bolsonaro fomenta, legitima que um grupo de pais, que compactua com suas ideias, aja da mesma forma censora que o presidente. A censura por parte dos pais ecoa não só as diversas censuras cometidas por Bolsonaro, mas principalmente o projeto Escola Sem Partido, carro-chefe do presidente para perseguir os professores e impor a sua ideologia sob as escolas.

Assim como a juventude que nas universidades vem sendo linha de frente contra Bolsonaro e seu reacionarismo, os alunos do colégio Loyola dão mais uma mostra de que a nova geração não permitirá ataques à liberdade na educação e a imposição da agenda reacionária de Bolsonaro e sua base.

Leia a íntegra da carta:

“Promover educação de excelência, inspirada nos valores cristãos e inacianos,contribuindo para a formação de cidadãos competentes, conscientes, compassivos, criativos e comprometidos.”

Eis a missão da Rede Jesuíta de Educação. Ao longo de nossas trajetórias de formação no Colégio Loyola, sempre escutamos que esses valores deveriam ser nossos guias: o caminho rumo a uma educação humana e consciente, que vai de acordo com os princípios jesuítas e com a noção de cidadania global. Uma formação integral, que nos prepara, sim, para o mercado de trabalho, mas que também desenvolve em nós a empatia, o discernimento e o senso de responsabilidade social, formando cidadãos ativos que exercem a liderança inaciana no cotidiano.

Para atingir tais objetivos, o Colégio Loyola nos proporcionou o acesso a um amplo número de atividades voltadas ao nosso desenvolvimento psicossocial, desde o Ensino Fundamental até a terceira série do Ensino Médio. Entre elas, destacam-se os voluntariados educativos, os retiros espirituais e os projetos de série, que visam, todos, promover o senso crítico e a sensibilidade inaciana. Isso, alinhado à presença de um corpo docente extremamente qualificado e diversificado, garante a formação de excelência, preconizada pela filosofia jesuíta.

Não obstante, esses valores aparentam não ser bem compreendidos por algumas famílias da comunidade Loyola, que parecem ver, na pluralidade, uma ameaça à qualidade de ensino, tão prezada pela instituição, e aos valores pessoais dos alunos, aparentemente frágeis e manipuláveis. Esse tipo de pensamento, retrógrado e conservador, foi uma alavanca para o episódio que ocorreu no começo da semana, envolvendo um dos docentes da instituição.

Na última segunda-feira, dia 7, os alunos da segunda série do Ensino Médio realizaram a penúltima avaliação da disciplina de Língua Portuguesa. O teste, que conta com sete questões de múltipla-escolha e três discursivas, foi alvo de críticas não apenas de algumas famílias, como de pessoas mal intencionadas, que disseram encontrar, em um dos textos presentes na avaliação, uma suposta tentativa de “doutrinação marxista”. Entretanto, esses indivíduos, que criticam essa suposta “massa de manobra”, estão claramente mal informados a respeito do episódio, e tentam perpetuar, de forma antiética e imoral, uma evidente perseguição político-partidária. Deve-se destacar, aqui, que o texto apresentado ia de acordo às diretrizes da disciplina de Língua Portuguesa, que, ao longo de todo o ano letivo, trabalhou, em sala de aula, os diferentes gêneros textuais, como artigos de opinião, crônicas e resenhas. No terceiro trimestre, inclusive, as aulas foram destinadas aos textos humorísticos e aos recursos utilizados pelos autores para o desenvolvimento do humor. Logo, o texto de Gregório Duvivier, selecionado pela professora, em nenhum momento visa à doutrinação dos estudantes, muito menos à propagação de ideologias político-partidárias. Ademais, é importante destacar que, das quatro questões referentes ao texto, uma é relacionada à colocação pronominal, e as outras três à estrutura característica dos textos de humor. Portanto, nenhuma das questões da avaliação exige posicionamento político dos alunos. Não há teor ideológico em nenhum dos exercícios propostos.

Dessa forma, as críticas feitas, tanto pelos pais, quanto por movimentos políticos nas redes sociais, são completamente infundadas. Não houve qualquer tipo de intenção de manipulação política na elaboração da avaliação, tanto por parte do docente, quanto por parte do Colégio. Além disso, a avaliação não foi destinada a crianças, como muitos pais insistiram, e sim a jovens de dezessete anos, que já possuem discernimento suficiente para compreender a pluralidade política de uma democracia. Essas críticas subestimam nossa autonomia e senso-crítico, e partem do pressuposto que um único texto, com menos de 30 linhas, seria capaz de moldar nossa opinião, supostamente ingênua e infundamentada. Em último lugar, urge destacar que a diversidade de ideias, tão cara ao Colégio, é característica fundamental do Estado Democrático de Direito, e, portanto, deve ser defendida. Nós, enquanto alunos e antigos alunos do Colégio Loyola, ressaltamos o nosso compromisso com a pluralidade de ensino, com a autonomia dos professores e com a defesa da liberdade de expressão.

Dessa forma, repudiamos os ataques direcionados ao corpo docente do Colégio, assim como a propagação de informações equivocadas a respeito do ocorrido. Contestamos, também, o posicionamento adotado pelo Colégio ao anular a avaliação e, assim, ameaçar a autonomia dos professores em sala de aula. Esperamos, enquanto parte da comunidade Loyola, que a autoridade dos professores seja respeitada e que os princípios inacianos, tão caros à instituição, continuem sendo defendidos, independentemente do contexto político no qual o Brasil se encontra".




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