Juventude

Estudante: por que se opor à reforma do Ensino Médio do MEC?

Julia Rodrigues

Estudante da EACH USP

quinta-feira 22 de setembro| Edição do dia

A Medida provisória apresentada nessa quinta-feira, 22, pelo governo golpista, que prevê a reforma do ensino médio se apresenta como uma crise para uma geração de jovens, tanto daqueles que estão na universidade fazendo cursos de licenciatura e pretendem ser professores, tanto para os que têm o sonho de entrar numa universidade e quiçá um dia serem professores.

A reforma do ensino médio imposta pela Medida Provisória entra em vigor imediatamente após sua edição pelo Poder Executivo, porém para virar lei precisa ser analisada por uma comissão especial do Congresso, e depois aprovada na Câmara e no Senado. Os golpistas querem passar a proposta até o final do ano, os prazos ainda não estão definidos. O que se sabe até agora são os retrocessos que essa reforma representa para a educação pública.

O conteúdo obrigatório comum será reduzido e restringido ao 1º ano do ensino médio, e a partir da metade do 2º ano o aluno poderá optar por cinco áreas de interesse: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional. As matérias de sociologia, filosofia, artes e educação física deixam de ser obrigatórias e fica a cargo das escolas e das redes de ensino decidir se vão ofertar essas matérias. Ou seja, a intenção é tornar o ensino essencialmente técnico, para formar mão-de-obra barata e precarizada.

Ao remover da grade curricular obrigatória as matérias de sociologia e filosofia, retira-se completamente as matérias que permitem aos estudantes construírem refletiram quanto à realidade que os cerca. Além disso, as universidades vão continuar formando sociólogos e filósofos, que não conseguirão dar aulas, pois serão atribuídas menos matérias aos professores de humanas. Será formada uma geração de jovens com diploma e sem emprego, jovens universitários que sonham em ser professores de história, sociologia e filosofia e não irão conseguir.

Nas universidades, os cursos de licenciatura são constantemente atacados, a todo momento faltam professores para as disciplinas de educação e programas como o PIBID (de Iniciação à Docência) têm tido suas vagas cortadas. Isto porque a intenção é criar duas ramificações na educação. De um lado o ensino técnico-profissionalizante, destinado à parcela da juventude sem condições financeiras, sem preocupação com formação de seus professores, e de outro os cursos de bacharelado, opção daqueles que hoje conseguem passar no filtro social do vestibular. Ou seja, para além do vestibular, soma-se a pressão para que toda a juventude que não tem condições financeiras escolha o ensino técnico, o mais acessível, que cabe nos sonhos do jovem da escola pública, dos filhos da classe trabalhadora que tem a aposentadoria ameaçada.

Crise para uma geração que está na universidade, que gostaria de ser professor de história, sociologia, filosofia, uma geração com diploma e sem emprego. Com formação e sem trabalho, submetendo-se a vagas precárias.

Essa reforma vem à tona num período de crise econômica e política, no qual a crise de representatividade dos partidos tradicionais abre amplo espaço para que os ataques à juventude e aos trabalhadores e trabalhadoras sigam tramitando nas esferas mais altas do poder em vias de serem implementados.

Não podemos deixar de relacionar mais esse ataque ao Projeto Escola sem Partido, que retira dos professores a autonomia de ensino e pretende minar a visão crítica dos alunos, bem como a reforma trabalhista, cuja intenção é retirar uma série de direitos, fruto de conquistas históricas, alcançados a duras penas nas lutas contra a direita conservadora e reacionária. A ofensiva neoliberal e reacionária que o governo vem intensificando quer esmagar os vestígios de junho de 2013, acabar com os questionamentos que se expressaram combativamente nas ocupações das escolas e nos atuais atos pelo Fora Temer.

O governo golpista e seus ministros escolhidos a dedo para aplicar os cortes e ajustes, estão se aproveitando do cenário de instabilidade econômica para testar a juventude e os trabalhadores. As principais centrais sindicais do país, CUT e CTB, há muito tempo deixaram de organizar os trabalhadores e suas lideranças se adaptaram completamente à paralisia do PT, sendo coniventes com os ataques que já vinham sendo realizados por esse partido. A UNE, principal entidade estudantil do país, liderada pelo PCdoB e PT, cuja presidente é Karina Vitral (PCdoB) e a vice-presidente Moara Correa (PT), não bastasse a inércia no que tange lutar pelo direito dos estudantes, na maioria das vezes senta para negociar com os burocratas do governo sem dialogar com a base dos estudantes.

A crise, somada à paralisia e ao imobilismo das principais entidades do país, cuja função principal é organizar a juventude e os trabalhadores, propicia o cenário político ideal para que Temer teste a correlação de forças contra os setores da população que mais sofrem com as mazelas do capitalismo, e assim, imponha uma conjuntura ainda mais conservadora e reacionária. Chega de paralisia das entidades estudantis como UNE que influencia milhares de estudantes. Chega de paralisia da CUT e CTB que dirige os sindicatos de professores. Façamos como os secundaristas e questionemos esse enorme ataque aos estudantes e professores. Aliança da juventude com os professores para combater o governo que quer colocar em cheque a educação.




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