Internacional

ENTREVISTA COM GUILLAUME VADOT

“Estava filmando... Queria jogar com a polícia? Agora nós vamos jogar contigo”

Entrevista a Guillaume Vadot, jovem professor da Sorbone, que foi agredido e ameaçado pela polícia por filmar o abuso a uma mulher negra. Métodos de repressão e racismo da polícia francesa.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

quarta-feira 12 de outubro| Edição do dia

Na noite do dia 22 de setembro, Guillaume saía da estação de trem de Saint Denis com uma amiga, quando escutaram gritos muito fortes de dor e medo.

“Aceleramos o passo para ver o que estava acontecendo, e vimos uma mulher negra de uns 30 e poucos anos gritando porque a polícia a mantinha detida com algemas muito apertadas. Ela gritava para que pudessem afrouxar um pouco as algemas, a atmosfera era muito tensa, de muita violência. Nesse momento comecei a filmar com o meu celular, para tratar de por um limite à ação da polícia”.

Isso desencadeou uma violenta ação policial...

Comecei a filmar, mas em poucos segundos os policiais vieram e me obrigaram a interromper a filmagem, em seguida me colocaram dentro do cerco, onde havia um efetivo de cerca de 35 policiais. Em dois me colocaram os braços pra trás e pra cima com uma torção, uma manobra que provoca muita dor e te impede de respirar. Depois me pressionaram contra uma porta, um ponto cego onde a câmera da estação não chega a captar.

Ali me disseram: “Estava filmando... Queria jogar com a polícia? Agora nós vamos jogar contigo”. E começaram a dizer que iam me matar, que iam me violar. Me diziam: “Porque você faz isso? Estamos em guerra contra o Estado Islâmico, o que você vai fazer quando eles estiverem na sua casa? Vai chupar eles?”. Me disseram isso dois dos policiais que me seguravam pelo braço. O outro me dizia que eu era um puto, um homossexual, que iam me violar, que eu não tinha nada que filmar a polícia, repetidamente. E isso me dizia um enquanto me apertava até o ânus.

Alguns minutos depois abriram a minha mochila, e quando viram que moro em um edifício que fica perto da estação disseram: “Ah, você mora aqui? Nós iremos encapuzados até a sua casa, arrombaremos sua porta, vamos te violar e vamos te matar na sua casa”. Depois disso, viram meu crachá e disseram: “Você é professor, vamos até a Sorbonne para violar e aniquilar todos os seus colegas, porque vocês estão com o Estado Islâmico. O que vão fazer quando o Estado Islâmico for até a Sorbonne?”

Nesse momento eu via a minha amiga gritando, junto com outras pessoas. E um dos policiais me disse que iam me acertar com o Taser, a pistola elétrica. E assim fizeram.

Como reagiram as pessoas que passavam na estação naquele momento?

Nesse momento já haviam se juntado cerca de 40 pessoas ao redor, viram a mulher gritando, me viram, e as pessoas conhecem já a violência policial. Em julho teve o caso de Adama Traore, um jovem que foi assassinado pela polícia em uma batida pra identificação, e depois houve outro caso. Na França são cerca de 15 assassinatos pela polícia a cada ano, nas estatísticas oficiais, o que podemos concluir que são ainda mais, e sempre negros e árabes.

Os policiais voltam a me ameaçar, a gritar, pegam meu celular e apagam as fotos e o vídeo que eu tinha gravado, e dentro da lixeira do celular, voltam a apagar e, inclusive, me perguntam se eu tenho Icloud para se assegurarem que não estaria salvo em outra parte, e eu respondo que não. Nesse momento o comandante da operação ordena a dispersão e, então, me deixam com todas as coisas nas mãos e saem.

Na noite em que o seu relato foi publicado no diário digital Revolution Permanent, rapidamente começou a viralizar a denúncia...

Quando voltei pra minha casa escrevi o relato do que havia me acontecido, sem revelar a minha identidade, por segurança, pois tinham me ameaçado. Mas descrevi os fatos e publiquei no Revolution Permanent. Em poucas horas esse relato começou a viralizar com cerca de centenas de milhares de compartilhamentos e comentários.

Na manhã seguinte alguns companheiros de trabalho que tinham lido o relato me perguntaram se eu era o agredido e me incentivaram para que denunciasse. Então fui ao médico e ao advogado, mas durante todo o fim de semana o caso foi se multiplicando nas redes. Preparamos a denúncia com o advogado e na segunda-feira saímos com uma coletiva de imprensa, revelando a minha identidade e relatando os fatos. Esta coletiva foi algo enorme, e creio que foi o caso de violência policial mais veiculado na mídia em anos.

Seu caso teve grande repercussão na mídia, contabilizando mais de 50 matérias nos principais veículos nacionais, em poucos dias. Para além da repercussão nas redes, porque este caso teve tanto impacto?

Isso deve ser visto tendo em conta a racialização do impacto nos meios, e desde o ponto de vista de classe dos meios. O relato viralizou desta forma porque sou um professor, branco, da Sorbonne. Existem dezenas de mortos pela polícia que não chegaram à mídia. O que tem de excepcional neste caso é o fato de que ocorreu com um professor branco, e por isso a repercussão.

Vivemos num período no qual as violências policiais se tornaram uma questão cotidiana e isso gera muita indignação. Há uns três ou quatro anos muita gente pensaria que o relato era inverossímil, mas agora não, é muito possível, ainda mais depois da repressão às mobilizações contra a reforma trabalhista, o assassinato de Adama Traore e outros casos, todos no marco do Estado de Emergência.

O que é bastante significativo é que 24 horas depois da coletiva de imprensa, começaram a chegar no meu e-mail, celular, facebook, novos relatos, não só do dia 22 de setembro, também de outros casos. Histórias de jovens agredidos pela polícia de Saint Denis, histórias de pessoas humilhadas, controles de identidade racistas, etc. Estes relatos são muito importantes, e pode ser que esse caso contribua para que se rompa o silêncio para protestar contra a violência policial e racista.

A violência policial tem se intensificado nos últimos meses na França, com a instauração do Estado de emergência, a repressão às mobilizações, nos bairros... O seu caso é parte disso?

Sim. O que estamos vendo é a extensão de uma metodologia de repressão que vem dos métodos de dominação colonial da França na África. Esta metodologia já está presente nos bairros populares onde vivem negros e árabes, mas agora está se estendendo a outros setores como trabalhadores sindicalistas combativos, militantes, mobilizações da juventude. É uma militarização que está se ampliando, esse é o Estado de Emergência. Primeiro foi utilizado contra a Revolução na Argélia, depois em 1995 se utilizou para as revoltas nos subúrbios e agora por todo o país.

Ao redor do seu caso tem se organizado uma confluência de vários setores que denunciam a polícia e suas ações: estudantes, trabalhadores, associações contra o racismo...

Meu caso é um ponto de confluência porque sou um militante da esquerda francesa, sou docente da universidade e sou habitante de Saint Denis, uma das cidades com maior concentração de imigrantes na França. Esta conjunção faz com que o meu caso possibilite começar a construir uma frente entre diferentes setores que estão fazendo experiência com o giro bonapartista e repressivo do Estado Francês.

Neste marco, meu caso e sua propagação midiática abre a possibilidade de criar uma frente, algo que em tempos normais seria muito difícil de alcançar, porque existe uma tradição de divisão, uma tradição onde as grandes direções sindicais não se preocupam com o sofrimento das pessoas nos bairros devido a violência policial, tratando como um tema alheio. O que termina marginalizando ainda mais os habitantes dos bairros populares, em sua maioria imigrantes, com os mesmos termos dos grandes meios de comunicação, que os tratam como se fossem “vândalos”.

Mas agora, pela primeira vez existe um setor do sindicalismo que está tratando de resistir a essa nova onda de repressão, cuja figura mais representativa é o Mickaël Wamen, trabalhador da Goodyear. Ele faz parte de um grupo de 9 trabalhadores que foram condenados a 8 meses de prisão por sua luta contra o fechamento da fábrica. E por outro lado existem coletivos e associações de negros e negras, árabes e dos bairros que denunciam o racismo e a violência policial. Pela primeira vez, contra este Estado de Emergência aparece a possibilidade de começar a confluir diferentes setores, algo que para o movimento de trabalhadores é também uma demonstração antiburocrática.

Uma primeira experiência prática aconteceu no último 6 de outubro, com um ato massivo denunciando a violência policial e o racismo. Qual foi a importância desse encontro?

O ato foi organizado pelo Comitê de Mobilização dos estudantes da faculdade Paris 1, um dos centros de mobilização mais fortes que permaneceu depois da primavera passada. Os estudantes decidiram realizar esse encontro depois do assassinato de Adama Traoré e depois da ofensiva islamofóbica com a proibição do burkini neste verão, para tratar de relacionar esses casos com a repressão à juventude. Mas depois do que ocorreu comigo, este encontro foi organizado em uma escala superior, unindo todos os setores. Estivemos na mesma sala com a irmã de Adama Traoré, a irmã de outra vítima da polícia que se chama Amal Bentounsi, e recebemos também uma saudação de Mickaël Wamen, da Goodyear, que não pôde comparecer. Também esteve presente o porta-voz da CGT (Central Sindical) Info-Com e, por último, Siham Assbague, uma das figuras mais conhecidas da luta política contra o racismo. E conseguimos fazer um ato com mais de 600 estudantes, com uma tribuna nos alto-falantes, que foi realmente histórica dentro da universidade.

A mensagem comum foi a de que construir uma frente, mesmo com todas as diferenças, é importante para se organizar ações em comum e ter uma mesma voz contra a violência policial e o racismo. Isso é novo, e permite pensar a articulação de forças sociais necessárias para derrotar a política de “segurança” do Estado de Emergência e a ofensiva de repressão do governo francês.

Tradução: Thaís Oyola




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