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Estamos vivendo uma quarta revolução industrial?

Rauni Dias, metalúrgico de Campinas

Estamos vivendo uma quarta revolução industrial?

Rauni Dias, metalúrgico de Campinas

Big data, internet das coisas, machine learning, robótica e automatização aplicados à produção estão nos levando a uma quarta revolução industrial?

Para muitos pode parecer uma polêmica distante e puramente ufanista, mas dentro do meio econômico-empresarial trata-se de um tema real e que, independentemente do tamanho do entusiasmo, tem consequências práticas no dia a dia do trabalho, tanto nas cadeias produtivas quanto no setor de serviços.

A idealização deste novo conceito de organização e tecnologia industrial tem como expoente a Alemanha, que vem buscando liderar as inovações nesse sentido desde 2011, com forte participação das universidades e centros de pesquisas junto ao meio empresarial. O entusiasmo da patronal em torno do conceito de “quarta revolução industrial” vem acompanhado de um forte discurso ideológico, inflado pelos superotimistas da tecnologia que chegam a cogitar a possibilidade próxima do “fim do trabalho”. Mas essa não é uma propaganda nova, assim como muitos dos elementos tecnológicos inseridos na ideia da “Indústria 4.0”. Ao contrário, seja no mundo imaginário da ficção científica, seja no discurso econômico da automatização total do trabalho, a ideia de que o desenvolvimento da tecnologia proporcionado pelo capitalismo seria capaz de libertar a humanidade do trabalho manual já existe desde a década de 80 do século passado. Para tanto, é comum utilizarem alguns exemplos excepcionais que, em realidade, são exceções no modo como uma ou outra fábrica localizada em países imperialistas atingiram um alto grau de automatização, eliminando a presença da intervenção humana no processo produtivo. Trata-se, normalmente, de fábricas-modelo de grande empresas multinacionais.

O objetivo de eliminar o trabalho humano do ramo industrial é antes de mais nada uma mera propaganda ideológica, estando muito longe de ser uma hipótese científica, pois desconsidera por completo a própria dinâmica de competição no capitalismo, que necessita da exploração do trabalho humano para sua perpetuação. Além disso, ignora o fato de que enquanto a tecnologia elimina postos de trabalho em alguns países centrais, o trabalho assalariado se alastra pelo mundo, crescendo vertiginosamente nas últimas décadas nos países periféricos, como por exemplo, a China.
A tendência demonstrada pela realidade das últimas décadas aponta o aumento significativo da classe trabalhadora ao redor do mundo, e não o contrário. Assim, o argumento de que as novas tecnologias aliadas à robotização da produção estão revolucionando a produtividade no mundo e o próprio modo de produção capitalista a ponto de produzir uma quarta revolução industrial é, no mínimo, questionável. Embora as recentes inovações tecnológicas estejam, sim, aumentando a produtividade, na prática, seu papel histórico por hora tem sido apenas o de recompor parcialmente a produtividade em escala mundial, como explica Paula Bach em seu artigo “¿Revolución de la robótica o estancamiento de la productividad?”. Não à toa os recentes artigos e propagandas do relativamente novo conceito de quarta revolução industrial são marcados, muitas vezes, por ideias abstratas e vagas. No entanto, seria até ingenuidade acreditarmos que uma campanha dessa magnitude não irá afetar o dia a dia da classe trabalhadora e a dinâmica de competição entre os grandes monopólios imperialistas.
Este artigo não tem a pretensão de desmistificar a embalagem ideológica da automatização total e o suposto fim do trabalho humano, pois para tal objetivo existe o excelente texto de Paula Bach “¿Fin del trabajo o fetichismo de la robótica?”]. Nosso objetivo aqui é tentar especular, a partir de algumas experiências práticas no meio industrial, como realmente tais tecnologias poderiam ser e vêm sendo aplicadas, e em que medida podem impactar o cotidiano da exploração do trabalho dentro das fábricas.

Mas afinal, o que seria a "Quarta Revolução Industrial", ou a também chamada de "Indústria 4.0"?

Apesar da grande quantidade de artigos sobre o tema serem vagos e abstratos, um ponto é recorrente entre todos eles, a suposta quarta revolução industrial não será fruto de uma nova tecnologia ou ciência revolucionária, como foi a eletricidade, o vapor ou a eletrônica, mas, sim, a soma e a combinação de inúmeras tecnologias que já estão presentes e já vêm sendo utilizadas ao longo dos últimos anos. Abusar de tais tecnologias de forma integrada e generalizada seria possível e necessário nesse momento, devido ao seu barateamento e a uma maior facilidade de manipulação. Dentre tais tecnologias, destacam-se a robótica e a automatização eletrônica, que já vêm sendo amplamente aplicadas aos processos produtivos há pelo menos uma década, o big data, ou seja, uma enorme quantidade de informações coletadas, centralizadas e armazenadas na nuvem em tempo real, a internet das coisas, talvez a mais comum e cotidiana na vida das pessoas, como a comunicação entre dispositivos eletrônicos em geral e, particularmente, o bluetooth e wi-fi, e, por fim, os logaritmos de processamentos de dados inteligentes ou machine learning, que são softwares capazes de processar dados para tomar decisões automáticas e aprender no processo.
A Indústria 4.0 seria, então, de forma vaga, ou, melhor dizendo, como normalmente é apresentada, uma fábrica capaz de coletar automaticamente informações precisas sobre si mesma, da maneira como foram produzidas, onde, em quanto tempo, para quem e por quem; calcula também a quantidade de estoque de matéria-prima, quanto é necessário produzir, quantos novos pedidos haverá no futuro, em quanto tempo é preciso produzir e qual é o preço dos insumos no mercado; ou em quanto tempo determinada máquina ficou parada, por qual motivo, quem estava operando, quantas peças defeituosas ela produziu, em que turno, em que hora, etc. Tais informações são armazenadas, cruzadas e processadas automaticamente para que uma decisão seja tomada e apresentada a um gestor. De maneira automática, pode-se alterar a velocidade de uma esteira ou de um robô, criar novas metas, lançar novas ordens de serviço, etc. Isso tudo no plano ideal, claro, pois, a aplicação com exatidão depende de inúmeros fatores práticos, econômicos e até mesmo geopolíticos.

Mas como a Indústria 4.0 está sendo implantada na prática?
Na teoria, os conceitos da Indústria 4.0 podem ser aplicados em todos os setores econômicos, seja na loja-modelo sem vendedores da Amazon, no call center que atende os clientes com gravações e menus discados, nas fábricas de produtos seriados de larga escala com linhas automatizadas e até mesmo na promessa de caminhões sem motoristas nos Estados Unidos. Contudo, a aplicação dessas tecnologias é completamente desigual entre os distintos ramos da economia capitalista e até mesmo dentro de um mesmo ramo de produção. Os ritmos também variam de modo drástico, sobretudo, geograficamente, dependendo do grau de desenvolvimento econômico e técnico dos países, assim como a qualidade e quantidade de mão de obra qualificada e semiqualificada disponível. Podemos, todavia, dizer com certeza que a aplicação total dessas tecnologias de tal forma generalizada a ponto de se tornarem tão comuns como a própria internet, por exemplo, está longe de ser para amanhã. Existem processos mais difíceis e complexos de se controlar. Existem ramos em que as mudanças no processo produtivo são mais custosas e necessitam de investimentos muito mais elevados do que em outros. Assim como também existem empresas melhores preparadas para aplicar essas tecnologias do que outras, dependendo de seu tamanho, origem nacional e quantidade de capital de giro disponível. Existem também situações em que simplesmente não é economicamente interessante sua aplicação. A força com que o discurso vem sendo reproduzido, porém, aponta para uma tendência clara de competição entre grandes monopólios capitalistas, como uma espécie de corrida para ver quem consegue se reestruturar mais rapidamente e de forma mais eficiente, para ganhar vantagens sobre seus competidores.
Para utilizarmos um exemplo concreto: a robotização já vêm sendo aplicada há uma década e o número de robôs industriais (por “robôs” entende-se máquinas articuladas de movimento programável) cresceu 72% em todo o mundo, totalizando 69 robôs industriais para cada 10 mil trabalhadores. Entretanto, a distribuição desse montante ao redor do globo é extremamente desigual. De acordo com dados de 2012 do Banco Merrill Lynch, o Japão está no topo do ranking, com 310.508 robôs operacionais, os Estados Unidos estão em segundo lugar, com 168.623, e a Alemanha em terceiro, com 161.988 – enquanto isso, o Brasil possuía apenas 7.512.
Na prática, além de máquinas automatizadas e robôs controlados por computadores, o principal e mais importante aspecto da Indústria 4.0 que vem ganhando forma é o controle preciso e científico sobre a produção a fim de aumentar a produtividade. Utilizando sensores, câmeras, dados informatizados etc. em cada uma das etapas do processo de fabricação, informatizando o acesso dos operadores das máquinas por meio, por exemplo, de perfis de usuários, e centralizando as informações coletadas, é possível saber tudo o que está acontecendo em tempo real em uma fábrica através da internet e, ao mesmo tempo, resumir todos os dados coletados em um painel eletrônico, com gráficos e estatísticas da produção. É possível, ainda, instalar um alarme visual caso a linha esteja parada, que também informa automaticamente um gestor em seu celular. Outra funcionalidade é a informatização processada de dados referente a estoque, pedido, estimativas de tempo, controle de entradas e saídas de materiais. São recursos relativamente simples e já estão disponíveis em muitas fábricas de empresas multinacionais, ou seja, as possibilidades são realmente vastas. Um verdadeiro cardápio para todos os gostos da gestão da patronal.

Na Indústria 4.0, onde está o real aumento do lucro?
Este é com certeza o ponto mais mascarado e mais importante de todo o conceito de “quarta revolução industrial”. Longe de buscar o fim do trabalho humano, toda nova tecnologia aplicada no capitalismo tem como finalidade aumentar a produtividade, ou seja, intensificar e otimizar a exploração do trabalho.
A primeira vantagem que a Indústria 4.0 oferece, e que é a mais visível, é otimizar a produção, diminuindo perdas e excessos, planejando entrada e saída de material e calculando os tempos dos processos de forma precisa e automática. Em outras palavras, ajustar a produção e aparar as rebarbas. Mas esta, nem de longe, é a finalidade mais lucrativa.
A outra finalidade do controle do processo produtivo é controlar o trabalho em si, ou seja, controlar o trabalho humano. Não apenas o seu ritmo, criando uma fábrica vigilante de coerção automatizada, com metas e supervisão eletrônica com câmeras e sensores, mas também para poder dizer quando o trabalho é “essencial” e quando ele é “desnecessário”, dependendo da demanda de produção, tornando o trabalhador ainda mais descartável e vulnerável às necessidades efêmeras do lucro. Esta é a principal fonte de lucro da chamada Quarta Revolução Industrial. Este é o sonho almejado.
Se utilizarmos da comparação histórica para entendermos o papel da Indústria 4.0 do ponto de vista da renovação das forças produtivas orientada para a obtenção do lucro, este novo conceito de indústria está mais próximo do fordismo e do taylorismo do que da máquina a vapor e da eletricidade. Isso significa que a suposta quarta revolução industrial tem suas vantagens na reorganização da produção e não por carregar uma tecnologia de fato revolucionária.

Indústria 4.0: a “Fábrica Inteligente” ou a fábrica vigilante?
Ao longo da história, inúmeras tecnologias foram aplicadas na economia capitalista a fim de aumentar a produtividade e, consequentemente, a extração do lucro. Introduzir uma nova máquina capaz de produzir o dobro que a anterior no mesmo tempo faz duplicar também o trabalho extraído do seu operador no mesmo tempo. Existem, porém, outras formas de aumentar a exploração do trabalho sem necessariamente alterar o maquinário. É possível modificar a organização de um processo produtivo e a disposição dos trabalhadores nas linhas e até mesmo utilizando de apelos subjetivos. Metas progressivas, assédio moral, ameaça de desemprego e competição entre os próprios trabalhadores também são métodos científicos do capitalismo para aumentar a exploração do trabalho. Um dos grandes exemplos históricos é o fordismo, que dispôs os trabalhadores de tal forma que fosse possível controlar a intensidade da exploração do trabalho simplesmente controlando a velocidade de uma esteira, retirando também, ainda mais, a autonomia dos trabalhadores sobre seu próprio trabalho. A Indústria 4.0, ainda que não cumpra o mesmo papel histórico que o fordismo, pode funcionar de forma muito semelhante.
Resumindo, na Fábrica Inteligente, os robôs e computadores não apenas ditam o ritmo do trabalho, mas passam também a vigiar o trabalhador e talvez, em breve, passarão a usar jaleco branco e carregarão cronômetros nas mãos.

O que a “Fábrica Inteligente” irá mudar nas relações de trabalho?
Além da eliminação de postos de trabalho por robôs, barateamento da mão de obra e maior competição no mercado de trabalho, algo que já viemos experimentando nas últimas décadas, uma nova implicação seria ameaçar uma camada de trabalhadores do setor administrativo e de auxiliares da gestão, como a própria supervisão, por exemplo. Com a automatização da coleta e o processamento de dados, a informatização e programas inteligentes de computador, seria possível enxugar ou, no mínimo, modificar o trabalho atribuído a esse setor médio das empresas, tornando uma mão de obra menos exigida e mais descartável.
Outra implicação está relacionada à otimização máxima do controle da produção e do trabalho, pois depende também de tornar as relações de trabalho mais flexíveis. Decidir que determinada quantia de trabalho não é necessária por determinado período de tempo só é eficiente se o capitalista em questão tem a capacidade de descartar essa quantia de trabalho excedente, ou seja, dispensar trabalhadores. Entretanto se, em determinado período, é necessário mais trabalho do que o habitual, também é igualmente necessário que jornadas mais longas, com horas-extras, por exemplo, possam ser exigidas irrestritamente.
O jargão em voga de “modernizar” as relações de trabalho e as próprias leis trabalhistas está também associado a essa necessidade de flexibilizar o trabalho. Tornar o trabalho flexível é sinônimo de torná-lo mais rotativo, efêmero, volátil e descartável. O que os políticos capitalistas chamam de “moderno” nada mais é do que diminuir os direitos trabalhistas, atacando a estabilidade e a remuneração dos postos de trabalho.
Vale lembrar aqui que recentemente foi aprovada no Brasil a nova Reforma Trabalhista, que legalizou o trabalho intermitente e tem facilitado as negociações de demissões em favor da patronal, além de tonar mais corriqueira a prática de horas-extras. Dessa maneira, o retrocesso das leis trabalhistas cabe como uma luva no que há de mais “moderno” no modo de produção capitalista.

Por que fazer a “quarta revolução industrial” agora?
Investir em tecnologia para aumentar produtividade é uma necessidade inerente dos capitalistas para sobreviver e se sobressair na competitividade que existe entre si. Nenhum centavo seria gasto por nenhum empresário para tornar sua produção mais eficaz se não houvesse o risco de ser devorado por um monopólio competidor.
Por esse motivo, em meio à crise capitalista, momento em que a competição é mais aguda, fazendo com que grandes empresas cheguem à falência e empresas ainda maiores comprem suas rivais menores, torna-se questão de vida ou morte investir em tecnologia, ou seja, em formas alternativas de recompor suas taxas de lucro, aumentando a exploração do trabalho.
A largada da corrida pela “Fábrica Inteligente” é, antes de mais nada, uma competição para definir o futuro das grandes multinacionais imperialistas em meio à estagnação econômica que assola o mundo desde a crise de 2008.

A Indústria 4.0 é o futuro?
Ao longo de todo este artigo, tentou-se evidenciar que as nem tão revolucionárias tecnologias derivadas do conceito da assim chamada, entusiasticamente, Quarta Revolução Industrial não estão a serviço de criar um futuro melhor. Estão, isso sim, orientadas para um futuro com jornadas de trabalhos mais extenuantes, maior adoecimento devido ao trabalho e maior opressão por parte da patronal. Este pode ser um futuro possível, mas nem de longe é o melhor futuro para os trabalhadores,tampouco é o único possível.
A tecnologia é uma ferramenta capaz de curar doenças e ao mesmo tempo produzir armas bélicas, pode ser usada para escravizar tanto quanto para libertar. O futuro não é determinado apenas pela vontade dos capitalistas e suas empresas transnacionais. Os trabalhadores podem se rebelar contra a escravidão nas fábricas, contra seus capatazes escondidos atrás dos controles dos robôs. A classe trabalhadora pode impedir o plano de qualquer burguês e traçar seu próprio futuro, assim como redefinir o uso de todo tipo de técnica e conhecimento, pode controlar e mudar o funcionamento de qualquer fábrica, a depender de sua luta e sua organização.
A implantação das fábricas vigilantes dependerá, antes de tudo, da correlação de forças entre a burguesia e a classe operária. A Indústria 4.0 pode ser o futuro do capitalismo. Mas está na mãos dos trabalhadores permitir, ou não, que o capitalismo tenha um futuro.

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Rauni Dias, metalúrgico de Campinas

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