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Estados Unidos passa de “guerra contra o terrorismo” para se preparar para um conflito entre potências

Um documento apresentado pelo Secretário de Defesa define novas hipóteses de conflito no próximo período. Nesta nota analisamos as mudanças e suas implicações.

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

segunda-feira 29 de janeiro| Edição do dia

“A competição estratégica interestatal, não o terrorismo, é agora a principal preocupação da segurança nacional dos Estados Unidos”. Este é o centro do documento sobre Estratégia de Defesa Nacional apresentado publicamente no dia 19 de janeiro pelo secretário de Defesa, o retirado general quatro estrelas, Jim Mattis. Provavelmente é a mudança mais significativa até agora da presidência de Trump.

O documento, de 11 páginas em sua versão pública e com mais ou menos 50 em sua versão classificada para o Congresso, é a primeira elaboração deste tipo produzida pelo Pentágono (sede do departamento de Defesa dos Estados Unidos) na última década. Em colaboração com a Estratégia de Segurança Nacional anunciada pelo presidente norte-americano a meados de dezembro, a China e a Rússia são o centro das preocupações estratégicas dos Estados Unidos.

Se definem três conflitos: o “Indo Pacífico” (China); Europa (Rússia) e o Oriente Médio (Irã), onde supostamente se concentrarão os recursos. A África e a América do Sul apenas merecem uma menção secundária.

A novidade não são os nomes próprios das ameaças ao domínio norte-americano, e sim sua reorganização: China, Rússia, Coréia do Norte, Irã e por último, o terrorismo. A China ascendeu para o posto mais alto do pódio. É que diferentemente da Rússia, cujo papel geopolítico sobre-estendido se explica pela velha herança da União Soviética, a China possui projeção internacional (e militar), anunciada no congresso do PCCh de outubro passado, tendo uma estreita relação com a potência de sua economia.

O governo de Trump, ou mais precisamente a ala militar que tem um peso decisivo e dá caráter bonapartista à administração, fundamenta este giro com dois tipos de argumentos investidos com a força dos fatos.

O primeiro, de caráter objetivo, tem a ver com a definição de uma ordem internacional debilitada, volátil e hostil ao domínio norte-americano. Entre todos os perigos, o mais importante é o retorno da competição a longo prazo com as chamadas “potências revisionistas” (ou seja, China e Rússia em primeiro lugar, em seguida potências de menor escala como o Irã) que devem seu nome justamente a sua tentativa de “revisar” a ordem estabelecida com o triunfo dos Estados Unidos na pós Guerra Fria. Não o aceitam, mas também não têm força suficiente para mudar pela raiz. Portanto, vão pelas laterais, modificando por exemplo, cenários regionais nos quais os Estados Unidos perderam influência. A “pax russa” na Síria seria um exemplo. Em sua acumulação, estas mudanças nos cenários não-centrais, poderiam produzir giros significativos na situação internacional de conjunto.

O segundo argumento é de caráter subjetivo, por chama-lo de alguma maneira. Tem a ver com a auto-percepção do próprio imperialismo norte-americano e seu lugar no mundo, uma sorte de reconhecimento da decadência hegemônica norte-americana, ainda que quem esteja hoje no posto de mando, não seja a ala “declinacionista”, e sim os partidários do “American First”. Segundo o general Mattis, os Estados Unidos estão saindo de um “período de atrofia estratégica” em que também viu se erodir sua vantagem militar competitiva.

Enquanto que o plano externo foi repudiado pela China e pela Rússia, este giro foi bem recebido no plano doméstico. Em particular pela ala “realista” da burocracia estatal, que o percebe como uma moderação frente ao aventureirismo de Trump, e que nas divisões da Casa Branca parece se alinhar com o setor militar do governo contra o “clã” familiar do presidente.

Isso não quer dizer que esteja isento de críticas. A mais reiterada é que não constitui uma “estratégia”, e somente uma lista de problemas que só constatam que se deteriorou a liderança norte-americana no mundo. E também a capacidade de combate, já que o documento se propõe como objetivo ter os meios de comunicação para combater em uma guerra e dissuadir a outros que tentem lançar uma segunda “guerra oportunista”. Um standard tendo em conta que o objetivo sempre foi ter a capacidade de lutar duas guerras ao mesmo tempo.

A mensagem do Pentágono para o Congresso e a burocracia civil do estado é que a “guerra contra o terrorismo” perdeu sua capacidade articuladora e deve reorientar a preparação do aparato militar para uma guerra entre nações, em particular entre “grandes potências”. Não deve se confundir este norte estratégico a longo prazo com que a guerra entre grandes potências esteja logo na esquina.

O próprio Pentágono aclarou que se trata de uma tarefa preparatória, não imediata, tendo em conta que na última década e meia o exército norte-americano só combateu na “guerra contra o terrorismo”, uma guerra por definição assimétrica, com atores não estatais ou semi-estatais (como os talibã ou o regime de Saddam Hussein).

O objetivo concreto da Estratégia de Defesa parece ser reconhecer os novos atores nacionais e recompor as hierarquias de prioridades em função destas ameaças, o que estaria em consonância com o tom nacionalista da administração de Trump (“As boas cercas fazem os bons vizinhos”, declarou um funcionário do Pentágono). Mas dando prioridade aos aliados e às instituições internacionais que permitiram o exercício da hegemonia norte-americana desde a segunda pós-guerra (como a OTAN), o que iria contra as tendências unilaterais e das ameaças por twitter do presidente.

Merece um parágrafo específico a hostilidade manifestada em relação a Rússia, tanto no documento do Pentágono, como no de Segurança Nacional, que mostra a efetividade que teve o “Russiagate” para reorientar a política de Trump em relação ao regime de Putin. Ainda que alguns apontem que o fato de ter subido a categoria da Rússia de “estado canalha” a “potência revisionista” deixa margem de manobra para negociações.

Na verdade, passar a uma etapa “pós 11S”, ou seja, deslocar o Oriente Médio e o mundo muçulmano como centro de gravitação para responder aos novos desafios estratégicos dos Estados Unidos, em particular a emergência da China, não é em si mesmo uma novidade. Em sua segunda presidência, Barack Obama tentou dar esse passo. Declarou o famoso “pivô” em relação a região do Pacífico, mas terminou seu mandato bombardeando novamente Iraque, de onde tinha retirado o grosso das tropas, intervindo indiretamente na Síria (contra o ISIS), Iêmen, Líbia e Somália, além de que depois de 16 anos, ainda há uma importante presença militar norte-americana no Afeganistão e os talibã controlam grande parte do território. Ainda hoje segue sendo mais fácil falar do que fazer.

A situação na Síria é a amostra mais concreta de que a “guerra contra o terrorismo”, que os Estados Unidos pensaram que poderiam capitalizar para recompor sua hegemonia, se contaminou com a rivalidade entre potências de distintos rangos. O combate contra o ISIS beneficiou a Rússia, que junto com o Irã e Hezbollah, interviu de maneira decisiva na última etapa da guerra civil para sustentar o regime de Assad. E são os que pensam em cobrar o crédito de ter derrotado a barbárie do Estado Islâmico.

Depois da desastrosa intervenção na Líbia, a política norte-americana iniciada por Obama e continuada na essência por Trump, foi intervir, através das milícias curdas de Rojava, em uma aliança tática incômoda que permanentemente gerou fricções com a Turquia, um aliado dos Estados Unidos e membro da OTAN. Estas fricções adquiriram ponto de ebulição com os bombardeios que a Turquia lançou contra as milícias curdas na província de Afrin, no noroeste da Síria. No labirinto da guerra civil com vários bandos na Síria, a Turquia luta sua própria guerra contra o movimento curdo, o que implicou que esteja dos dois lados do mostrador na “coalizão anti ISIS”.

Agora o governo de Trump está diante de um dilema. O secretário do Estado norte-americano, Rex Tillerson, anunciou a decisão de intervir no desenho da pós-guerra síria, com o objetivo de remover Assad e exigir a retirada das milícias iranianas. Mas seus (únicos?) aliados na Síria, os curdos, estão sendo bombardeados por um de seus aliados, a Turquia, que segue sendo a última esperança que os Estados Unidos tem de impedir que a Rússia e o Irã sejam os que ditem os termos definitivos da “pax síria” na conferência a finais de janeiro que se realizará no resort de Sochi no Mar Negro.

Por isso sua oposição aos bombardeios turcos é tímida frente ao reconhecimento do direito da Turquia a defender a integridade territorial e a soberania estatal do independentismo curdo.

Ainda que o significado pleno desta mudança de paradigma militar seja vista com o tempo, as consequências mais tangíveis e imediatas da nova Estratégia de Defesa serão domésticas: incidir para que o Congresso aprove a subida do pressuposto militar (a Casa Branca já propôs uma subida de 54 milhões de dólares); modernizar o arsenal convencional e nuclear para aumentar a “letalidade” e ampliar os negócios que faz o Pentágono com empresas militares, tecnológicas, etc., para manter a preeminência inquestionada do poderio militar norte-americano, que segue sendo a principal vantagem comparativa. Enquanto que o gasto militar dos Estados Unidos é de mais ou menos 588 mil milhões de dólares anuais, o da China (segundo a nível internacional) é de 162 mil milhões e o da Rússia, 44 mil milhões.

Esta enorme transferência de recursos em relação ao aparato militar para fortalecer a maquinaria de guerra imperialista – e com ela a oposição dominante da burguesia norte-americana – se soma aos recortes impositivos às corporações, até agora a principal conquista do governo de Trump, e de 1%. O horizonte do “conflito entre potências”, o militarismo e as tendências ao bonapartismo são sinais de que em tempos convulsivos as classes dominantes não duvidarão em recorrer a “soluções de força”. Para enfrentar essa perspectiva os trabalhadores e oprimidos do mundo devem se preparar.

Tradução: Lara Flaviana




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