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EUA NO BRASIL

Estados Unidos envia primeira autoridade para inspecionar o golpe institucional no Brasil

Nota divulgada há pouco pelo Departamento de Estados dos Estados Unidos informa que na próxima semana chegará ao Brasil Mari Carmen Aponte, secretária para o hemisfério ocidental, a nova responsável pelas Américas. Será a primeira autoridade americana a visitar o Brasil, após o golpe institucional da direita.

André Acier

Natal | @AcierAndy

segunda-feira 30 de maio de 2016| Edição do dia

Na semana passada, os governos dos Estados Unidos e da Alemanha reconheceram o governo golpista de Temer pela primeira vez, através de seus portavozes Michael Fitzpatrick e Martin Shäfer. Foi a primeira vez que o governo americano rejeitou claramente a noção de que o processo de impeachment que afastou Dilma Rousseff da presidência seja um golpe. Até agora, a posição dos EUA vinha sendo de cautela, mas sempre reiterando que o processo contra a presidente está respeitando as normas democráticas.

Segundo o comunicado, Carmen Aponte terá encontros com “o setor privado, representantes da indústria e do comércio, acadêmicos e lideranças não-governamentais” para discutir a cooperação EUA-Brasil. Em Brasília, sublinham que “visitará inclusive o Ministro das Relações Exteriores”, para discutir “a cooperação econômica EUA-Brasil no comércio, aviação, infraestrutura, energia renovável e mudanças climáticas”.

Aponte foi embaixadora dos Estados Unidos em El Salvador de 2010 a 2015, e é executiva do Oriental Group, uma grande empresa de serviços bancários e financeiros em Porto Rico, além da consultora de companhia de telecomunicações hispânica.

Aponte é a primeira autoridade americana a vir inspecionar o Brasil depois de consumado o golpe institucional que colocou Temer na presidência interina. De fato, as crises iniciais do governo Temer, concentradas em apenas algumas semanas, deixam em dúvida os imperialistas sobre sua capacidade de estabilizar o país e os negócios capitalistas, principalmente depois da exoneração de seu braço direito, Romero Jucá. Mas também apresenta oportunidades aos mercados. A visita do Departamento responde ao chamado feito pelo jornal The New York Times, que convocou o país a aproveitar as novas oportunidades: “A mudança no cenário político abriu as portas para uma nova geração de líderes que busca promover um curso distinto para a América Latina. Isto oferece uma oportunidade para os Estados Unidos reiniciar as relações com vários vizinhos que historicamente consideraram Washington como imperial, negligente ou ambos”.

O Departamento de Estado norteamericano foi um colaborador “precioso” nas investigações da Lava Jato contra empresas brasileiras. Protegeu cada um dos monopólios estrangeiros vinculados à produção de navios-sonda para a Petrobrás de qualquer investigação da Lava Jato conduzida por Sérgio Moro, treinado e instruído pelo próprio Departamento de Estado da administração Obama. Dedicado a fazer o capital estrangeiro como da Exxon Mobil e da Chevron entrar pelos poros rompidos da estatal, são diversos os vazamentos de documentos que indicam o interesse dos Estados Unidos em utilizar a Lava Jato para privatizar a Petrobrás. Não à toa visitará “inclusive” o novo ministro do Itamaraty, José Serra, que junto a Dilma entregou o pré-sal à Shell e outras empresas .

Mesmo o governo Temer não sendo o pivô ideal para avançar os ataques ao orçamento público, a flexibilização das leis trabalhistas e a abertura ao mercado, já que não possui a legitimidade do voto, os chefes do capital estrangeiro buscam aproveitar tudo o que o governo golpista pode arrancar, reservando-se a defesa de eleições gerais caso seja necessário desviar processos de massas, como disseram distintos jornais das finanças.

É a continuidade do caminho que se aprofundou ao longo de 2015, marcado por fatos como a abertura do “novo diálogo americano” defendido por Obama na Cúpula do Panamá, o “degelo” entre Cuba e Estados Unidos (que favorece o processo de restauração capitalista na Ilha), a adesão do México, do Peru e do Chile ao Tratado Transpacífico (TPP), as reuniões de Obama com o direitista Mauricio Macri na Argentina. Os EUA tentam adaptar-se às condições de sua hegemonia em declínio, mas buscando recuperar terreno econômico, financeiro e político. Obama leva em conta o equilíbrio de forças na América Latina e da crescente presença da China (e, em menor medida, Rússia), para explorar a decadência do chavismo e dos governos ditos “progressistas”, bem como aproveitar a relativa recuperação econômica ianque, em contraste com o período de estagnação que entrou na América Latina.

Contra este “novo diálogo americano”, preparado pelo PT que fortaleceu a direita no Brasil assimilando seus mesmos métodos corruptos de governo capitalista, atacando trabalhadores e impedindo-os de organizar sua resistência, é preciso levantar uma saída independente de classe e antiimperialista dos trabalhadores, como discutimos aqui.




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