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#striketober | Estados Unidos: dez mil trabalhadores da fábrica John Deere entram em greve

Essa é uma das empresas de máquinas agrícolas mais importantes do mundo. Milhares de trabalhadores entram em greve, parte da onda de lutas dos trabalhadores no imperialismo norte-americano que já conta com outras inúmeras mobilizações operárias pelo país.

Caio Rosa Estudante de Relações Internacionais na UnB

sexta-feira 15 de outubro | Edição do dia

Mais de 10.000 trabalhadores em Iowa, Illinois e Kansas estão oficialmente em greve depois da administração da Deere and Co., empresa por trás dos equipamentos agrícolas John Deere, não conseguir chegar a um novo acordo com a United Auto Workers (UAW), após a base rejeitar o último acordo.

No domingo passado, mais de 90% dos membros votaram um sonoro NÃO ao acordo provisório anterior do sindicato com a administração. A Deere prevê que o lucro de 2021 chegará a 150% de seu maior lucro líquido anterior, mas no negócio original ela ofereceu apenas aumentos salariais de 11% a 12% espalhados por 6 anos, ou menos de 2% ao ano.

Os trabalhadores estão fartos não apenas da Deere, mas também da liderança da UAW. De acordo com o Des Moines Register, membros de um local vaiaram um representante do UAW International e gritaram com ele por aceitar um aumento de 31% em seu próprio salário em 2018, enquanto os trabalhadores que ele representa ficam com as sobras. Em outro salão sindical, um trabalhador criticou outro líder sindical por não ter levado o sindicato à greve em setembro, quando originalmente aprovou uma autorização de greve: “Você não nos ouviu”, disse ele. "Você está nos ouvindo agora? Você nos ouve agora? Como você pode ficar lá em cima em seu cavalo e não nos ouvir? Isso não é o que somos. Nós merecemos mais. ’”

A greve chega em um momento particularmente oportuno para os trabalhadores: é o meio da safra de milho e soja, safras que respondem por mais da metade de todas as terras agrícolas dos Estados Unidos, quando há grande demanda por equipamentos e peças.

Essa greve dos trabalhadores da Deere, além de uma série de grandes paralisações enfrentadas recentemente pelo setor privado nos Estados Unidos, mostra como os trabalhadores estão insatisfeitos com seus salários e condições de trabalho. Os trabalhadores da Frito-Lay, Nabisco e Kellogg entraram em greve para pressionar suas empresas a oferecer mais.

Na indústria cinematográfica, cerca de 60.000 trabalhadores votaram pela greve contra os estúdios, enquanto outras 21.000 enfermeiras e outros trabalhadores da saúde também se levantaram contra a Kaiser Permanente, uma empresa privada de medicina.

Até mesmo a imprensa burguesa, com esse artigo no The Guardian, com ninguém mais e ninguém menos que o ex-Secretário do Trabalho dos Estados Unidos -Robert Reich - teve de reconhecer que os EUA estão vivendo uma “greve geral não-oficial”.

É importante ver que estão ocorrendo várias lutas operárias no país mais rico do mundo e diante do governo democrata de Joe Biden, articulador do desvio de uma possível saída disruptiva e ainda mais radical da luta negra do BLM para as urnas do regime imperialista estadunidense. Contudo, esse mesmo Black Lives Matter fez ressurgir uma renovada onda de greves e mobilização dos trabalhadores por todo o país - a luta negra reacendeu a luta operária, cuja minoria negra é aquela quem com mais força batalha contra o velho, contagiando seus irmãos de classe branco e de demais grupos étnicos. Trata-se de um importante exemplo para os trabalhadores em todo mundo, mostrando a incrível capacidade de recomposição operária.

Leia mais: No governo do imperialista Biden, inúmeras greves acontecem nos EUA

É possível ver o quanto histórica essa onda de greves é, se pensamos que essa será a primeira greve contra a Deere desde 1986 - em pleno governo Reagan. Hoje, os trabalhadores estão encorajados. “É a primeira vez em uma década que tenho orgulho de fazer parte desse sindicato”, disse um dos funcionários entrevistados. "Para os nossos membros, meus irmãos e irmãs, porque estão todos unidos, todos têm o mesmo objetivo e estão todos prontos para lutar uns pelos outros."

Ainda está por se ver como isso impactará a luta de classes a nível internacional, mas uma recomposição operária no principal país imperialista do mundo é um importante indicador diante de um momento internacional marcado pela atuação dos movimentos sociais e populares, bem como das rebeliões que não se transformam em revoluções. Isso se dá justamente pela falta do sujeito revolucionário proletário se colocando de forma independente na luta de classes.

Como diz Trótski no caso da França de 1930, em contraponto à linha ultraesquerdista da Internacional Comunista de Stálin (que temiam as recomposições parciais da indústria como “contrarrevoluções econômicas” que prejudicariam as massas):

“Há que dizer com toda clareza que para a classe operária francesa – que nos dois últimos anos renovou sua composição em duas ocasiões, durante e depois da guerra, ao ingressar em suas fileiras grandes contingentes de jovens, mulheres e estrangeiros que ainda não assimilou por completo – um desenvolvimento maior da reativação industrial criaria uma escola extraordinária, lhe permitiria aglutinar suas forças, mostraria aos setores mais atrasados a importância do papel que cumprem na estrutura capitalista e assim elevaria o nível de consciência do conjunto da classe a novas alturas. Dois ou três anos, talvez um só, de luta econômica ampla e triunfante rejuvenesceriam o proletariado. Depois de uma reanimação econômica bem aproveitada, uma crise conjuntural poderia dar um grande impulso à autêntica radicalização política das massas” (O “Terceiro Período” dos Erros da Internacional Comunista).

Com a parcial recuperação diante da pandemia da COVID-19, de forma similar à França dos 30, ainda que em outras proporções, diversas vitórias sindicais da classe trabalhadora estadunidense podem levar à uma verdadeira radicalização das massas - talvez, até mesmo diante desse mesmo Biden que desvio a radicalíssima luta negra.

A questão fundamental aos revolucionários, agora, está em batalhar pelo reagrupamento da vanguarda socialista a nível internacional, a partir do princípio da independência de classe e das principais lições da luta de classes do último período, com um programa operário e socialista, baseado na luta de classes e na auto-organização, a fim de construir um partido revolucionário da classe operária à altura das futuras rebeliões e convulsões sociais para dirigi-las rumo à ruptura com o capitalismo.


Artigo baseado no original publicado no La Izquierda Diario




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