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ELEIÇÕES 24M

Estado Espanhol: Pontos-chave do 24M e a crise de representação

terça-feira 26 de maio de 2015| Edição do dia

Essa queda teve como contra partida o ascenso do Podemos e, ainda que bem abaixo, do Ciudadanos. As eleições municipais e regionais do último domingo servem de teste para analisar diversas questões chaves da situação politica espanhola e os caminhos da esquerda anticapitalista.

Em que ponto está a crise do bipartidarismo?

Séria, duradoura e já se reflete nas instituições. O rechaço aos partidos políticos do regime de 78 continua sendo um dos elementos mais importantes dessa crise. São milhões desde 2011 até agora que vem “a casta” como os responsáveis pelas políticas de ajuste e os beneficiários das negociatas entre o poder político e os grandes empresários, construtores e banqueiros. Essa crise de representação avançou muito, até um ponto em que nenhum dos dois partidos que se revezaram no governo durante quase três décadas, o PP e o PSOE, são capazes de o continuar fazendo sozinhos. Entretanto as eleições européias fizeram soar todos os alarmes e nestes últimos 12 meses podemos dizer que eles trabalharam conscientemente para frear o naufrágio. O PSOE substituiu Rubalcaba, dirigente do partido desde os tempos de Felipe Gonzáles, pelo jovem Pedro Sanchéz e toda uma operação de marketing político renovadora. O PP passou a uma ofensiva entre o alarde dos pírricos sintomas de recuperação econômica e um certo giro reacionário, apostando em algumas de de suas figuras mais direitistas, como Esperanza Aguirre em Madrid ou Rita Barberá em Valência.

O certo é que em termos gerais, ambos os partidos se mantiveram e até se recuperaram um pouco comparado com as eleições europeias. O PSOE passou de 23% para 25% e o PP de 26% para 27%. No entanto essa pequena recuperação não evita a perda de instituições chaves e sobretudo permitem um mapa municipal e regional de difícil governabilidade. Nenhuma cidade importante e nenhum parlamento regional tem uma força política com maioria absoluta. Tudo necessitará passar por pactos – na posse, pontuais, na legislatura ou inclusive formar governos – entre os partidos da “casta” e os “emergentes”

Quem pode perder mais posições é o PP, que ja havia conseguido ter boa parte do mapa espanhol com suas cores. Pode sair do governo de Madrid e de Valência – Capitais historicamente suas - , de Castilla-La Mancha (governada por sua secretária geral) e Extremadura. Mas o PSOE também se viu ultrapassado por candidaturas ciudadanas como “Barcelona em Común” ou “Zaragoza em Común”
Os que conseguiram se salvar dessa “queima do que é velho” são os partidos das burguesias periféricas. No caso do PNV, não só conseguiu se manter como cresceu e conquistou uma posição emblemática com a prefeitura de San Sebastián, que foi arrebatada por Bildu. A CiU perde uma posição central, a prefeitura de Barcelona, mas manteve o já baixo resultado das eleições europeias de 21%

E os partidos emergentes?

Os novos fenômenos políticos surgidos tanto a esquerda quento a direita se consolidaram, com um peso especial nas principais capitais. Esse crescimento expressa, no caso do Podemos e das candidaturas cidadãs, o giro a esquerda de milhões de jovens e trabalhadores que veem nestas formações uma alternativa contra os ajustes e a casta política.

É um crescimento que se dá dentro do esquema de um “quatripartidarismo” que já haviam mostrado as eleições andaluzas de março e também eram previstas pelas pesquisas. Está longe do melhor momento vivido pelo partido de Pablo Iglesias, em janeiro de 2014, quando surgia como primeira força política rondando os 30%
Nestas eleições o Podemos lançou candidaturas somente nas eleições regionais. Somente em Aragón, Asturias e Madrid chegou perto de 20% enquanto no resto ficou entre 8 e 13%, em sintonia com o que havia acontecido na Andalucía. Também em comunidades como o País Basco, a esquerda nacionalista conserva sua hegemonia com EH-Bildu, que se manteve na eleições municipais entre os 18% de Navarra e os 29% de Guipuzcoa, números que demonstram um limite importante para um Podemos que vem nos ultimos dias somando-se ao discurso contra a esquerda nacionalista e o ETA, que foram um dos pilares do consenso de 78. Estes problemas, junto a vitória do PP na capital sobre a candidatura ciudadana apoiada pelo Podemos, explicam o semblante sério de Iglesias na noite eleitoral.

O competidor a direita, Ciudadanos, triplica o resultado das eleições europeias mas está longe do que seria a terceira força estatal, com um milhão e meio nas eleições municipais, em torno de 6,5%

Sem dúvida houve um avanço em comparação com as eleições europeias e que também se traduz na conquista de prefeituras importantes como a de Madrid ou Barcelona por parte das candidaturas cidadãs. Ainda assim, essas mesmas conquistas não podem ser feitas sozinhas. Serão imprescindíveis os pactos com os partidos da “casta”, essencialmente o PSOE e o PSC ou mesmo o Ciudadanos. Mas, sobretudo, põe em questão o plano de chegar ao palácio da Moncloa nas eleições gerais do fim do ano para formar um “governo decente” com Pablo Iglesias como presidente.

O teto eleitoral que expressam as eleições e a lei eleitoral – que favorece as províncias menores, justamente aquelas onde o Podemos obtém resultados piores – tornam muito difícil que o Podemos se torne a primeira força no parlamento ou mesmo que fique a frente do PSOE.

O início de uma segunda Transição?

Esses resultados confirmam, de conjunto, a dinâmica apresentada há um ano nas eleições europeias. A crise do PP e do PSOE veio para ficar mas não está em um ponto similar, por exemplo, ao de seus pares gregos da Nova Democracia e PASOK. Os projetos emergentes, especialmente o Podemos, estão sendo capazes de canalizar eleitoralmente boa parte do descontentamento social e da crise de representação que se abriu depois do 15M. De fato os melhores resultados do Podemos e as candidaturas cidadãs tiveram lugar nas cidades onde o movimento dos indignados e as mobilizações posteriores tiveram mais força.

Todavia não conseguem atrair o voto dos milhões que permanecem se abstendo das votações. Algumas pesquisas dos últimos meses decompunham sociologicamente o voto nas novas formações e ressaltavam que muitos dos setores mais golpeados pela crise não se incorporavam aos eleitores do “novo”. Seguramente o giro ao centro e a moderação aplicada no discurso e no programa de seus dirigentes favorecem que isso não mude. De fato as abstenções no marco de 35% foram ligeiramente superior a das eleições municipais de 2011, exceto em cidades como Madrid ou Barcelona, os lugares onde essas candidaturas obtiveram seus melhores resultados.

Alguns analistas passaram a se perguntar se as eleições deste domingo poderiam constituir o início de uma segunda transição. Este é o projeto dos dirigentes do Podemos e eles explicam isso de forma cada vez mais aberta: Uma tentativa de restauração do regime em crise através de uma “regeneração democrática” limitada e algumas políticas redistributivas. Na preparação para isso, estão optando por uma moderação acelerada e vários gestos a diversos agentes do regime e do poder econômico. Isso pode estar por trás de ter chegado em um teto eleitoral tão cedo e tão baixo, se comparamos com suas pretensões iniciais. E ambos elementos – moderação e crescimento limitado – vão configurando os limites, cada vez mais estreitos, de um processo de mudança que se vê condenado a realizar-se em comum acordo com a mesma casta política objeto do ataque discursivo de Iglesias e sua equipe.

Nas próximas semanas seguramente veremos, em nível municipal e regional, diversos “ensaios” desta linha de acordo e formação para um novo consenso. Certamente serão limitados ao mínimo possível – Garantir governos do Podemos, candidaturas cidadãs ou do PSOE onde possam derrotar a direita – mas serão a base do “governo da mudança” de 2016, que até o momento terá que contar tanto com o novo quanto com o velho, e que deixará ainda mais que em 78 as principais reivindicações democráticas e sociais apenas no discurso.

Uma “mudança” tão pouco “mudança” dificilmente pode dar uma saída duradoura a crise do regime de 78, como a que este supôs para a crise da ditadura. As debilidades das tentativas de uma segunda Transição deixam a porta aberta aos setores populares que hoje se iludem com o crescimento do podemos e as candidaturas cidadãs para realizar uma experiência com essas direções. Isso também representa um desafio para toda a esquerda anticapitalista, aos setores do ativismo social, operário e da juventude, para propormos uma organização que ponha ênfase na construção da organização e mobilização social independente destes projetos – amanhã governos- e com os trabalhadores a frente, para lutar por uma saída verdadeiramente revolucionária e que rompa com o regime de 78, por um governo dos trabalhadores e do povo.




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