Gênero e sexualidade

8M 2019

Estado Espanhol: Greve(s) de mulheres, feminista e geral

Este artigo foi originalmente publicado no Esquerda Diário do Estado Espanhol, em outubro de 2018. Reproduzimos pela relevância desse debate na atual convocação de luta e greve para o 8M de 2019. Nós, mulheres, entraremos em greve no próximo 8 de Março. Como? Esta é uma pergunta que abre profundos e necessários debates que expressam a disputa entre distintas estratégias de emancipação dentro do movimento feminista.

sexta-feira 1º de fevereiro| Edição do dia

TRADUÇÃOhttp://www.izquierdadiario.es/Huelga-s-de-mujeres-feminista-y-general

8M 2019

Greve(s) de mulheres, feminista e geral

Nós, mulheres, entraremos em greve no próximo 8 de Março. Como? Esta é uma pergunta que abre profundos e necessários debates que expressam a disputa entre distintas estratégias de emancipação dentro do movimento feminista.


Este artigo foi originalmente publicado nesta mídia em outubro de 2018. Novamente o publicamos para contribuir com os debates de preparação para a greve de mulheres no 8M.


Não estávamos em qualquer território. Era o município de Gijón, nas Astúrias, onde as mulheres mineradoras tiveram um papel protagonista nas greves desde a década de 1960, em meio ao regime franquista que se impunha a partir do estado de exceção. Nem a História, nem as grandes direções sindicais as reconhecem.


E estávamos ali, em Gijón, em centenas de mulheres feministas, organizadas e comprometidas. Algumas em coletivos feministas, em sindicatos ou partidos; outras, independentes. Jovens, estudantes, trabalhadoras, imigrantes, não-brancas, mães, solteiras, donas-de-casa, LGBTs. Todas tomando a decisão de protagonizar uma jornada histórica, mas não de forma espontânea. Organizadas, debatendo ideias.



E, por que não dizer, disputando ideias, pois debatemos diferentes estratégias de emancipação não apenas para que não sigam nos matando e violentando, ou para que não exista mais essa absurda disparidade trabalhista (e salarial) entre homens e mulheres, para que não nos sobrecarregue mais o trabalho doméstico, esta escravidão do lar que anda junto com a precariedade do trabalho à qual estamos submetidas. É também porque queremos parar tudo e demonstrar que a maioria das “mulheres na linha de frente” – as trabalhadoras, pobres, imigrantes, jovens – podemos acabar com as bases deste sistema patriarcal e sua aliança criminosa com o capitalismo.



Mas como fazê-lo? Os debates estão colocados, agora é o momento de promove-los em diferentes territórios, a partir de comissões organizadas. Como será e qual caráter deverá ter a próxima greve? Será mista ou não? Greve de mulheres e feminista, greve geral, ou ambas? Debater a relação com os sindicatos e outros setores sociais em luta, a hierarquia dos eixos da greve (do trabalho doméstico, greve trabalhista, estudantil e de consumo).


O debate, em resumo, se deu em torno de duas posições. Durante o Encontro, algumas vozes diziam que “as greves trabalhistas clássicas já não nos servem mais”, “as greves trabalhistas invisibilizam a pauta do trabalho doméstico que apenas nós, mulheres, realizamos”, “os sindicatos não servem para nada”.

Outras, por sua vez, colocavam como eixo apenas a greve trabalhista, dizendo que “a greve tem de ser laboral”, “os sindicatos devem convoca-la” ou “a greve tem de ser geral”. Nós intervíamos inter-relacionando a greve do trabalho doméstico – para visibilizar o trabalho não-remunerado dentro dos lares – com a greve trabalhista – para afetar os lucros dos capitalistas – e a greve estudantil, para parar tudo.



Greve trabalhista: a classe trabalhadora não é apenas masculina



Podemos afirmar que a greve trabalhista envolve uma grande maioria de mulheres. A classe trabalhadora não é somente masculina, apesar da intenção deste sistema de nos condenar ao confinamento dentro do lar e invisibilizar o trabalho feminino assalariado, considerando-o “complementar” ao “principal”: ao do chefe da casa. Nós, mulheres, representamos mais de 40% dos trabalhadores, ocupando nosso tempo em centros de produção e prestação de serviços, sendo remuneradas com salários menores e contratos precários: 3 a cada 4 empregos de meia jornada são destinados a mulheres. Este percentual é bastante elevado em serviços sociais e de limpeza: são 77,5%. Na educação, fica em 67,4%; no setor de serviços, 66,6%; e entre empregadas domésticas, 88,6%.

A greve em centros de produção e em todo tipo de postos de trabalho é fundamental para a maioria de nós, mulheres trabalhadoras, que há anos viemos lutando por reivindicações como a igualdade nas condições de trabalho, nos direitos e salários. Contra a discriminação, o assédio e a precarização do trabalho. Pela efetivação de todas as trabalhadoras, pelo fim da terceirização e das contratações temporárias. Que os “documentos” não sejam uma chantagem patronal sobre as trabalhadoras imigrantes. Contra os cortes na saúde, educação e serviços públicos, entre muitas outras.



Uma greve que não paute nosso “trabalho não-remunerado” não será uma greve total ou geral



Uma greve de mulheres não será total ou geral se não visibiliza explicitamente que esta grande maioria de mulheres assalariadas é a que, assim como as donas-de-casa sem remuneração por seu trabalho – muitas sendo obrigadas a deixar seus empregos para cuidar de suas famílias –, realiza o “outro” trabalho não-remunerado e não reconhecido. Contando, assim, com essa dupla jornada de trabalho que mantém o lucro dos capitalistas e torna a crise mais profunda e precária.

E ali estávamos, em Gijón, e me vinha à memória o que haviam nos contado de que nas Astúrias, quando a atividade mineira era amplamente masculinizada, as mulheres trabalhadoras ou esposas, companheiras e filhas dos mineiros tiveram um papel importantíssimo, tendo sofrido o mesmo nível de repressão que seus companheiros mineiros. As prisões estavam cheias de mulheres que haviam sido torturadas e assassinadas.



Ou seja, não apenas as trabalhadoras foram grandes protagonistas das lutas operárias, como também foram as “donas-de-casa”, constituindo com sua luta uma ponte entre o lar, os bairros e os centros de trabalho. Nas zonas de mineração nas Astúrias, “transformaram suas casas em locais de reunião, suas idas ao mercado em ocasiões para a agitação política, as portas das prisões em pontos de encontro em que pudessem organizar a assistência aos presos políticos, e as bocas dos poços de mineração em locais desde onde se podia transformar o conflito trabalhista dos homens em um conflito social de massas” (BLANCO CABRERO, Claudia, 2007). Centenas de conquistas operárias teriam sido impossíveis sem as “comissões de mulheres” que organizaram fundos de greve e creches para as famílias trabalhadoras.



Foram e são essas lutadoras cotidianas, que saíram e saem dos lares para lutar nos bairros, nas escolas, nos mercados contra essa carga pesada que é a escravidão do lar, cuidando de pessoas dependentes, dos filhos e filhas, cozinhando, lavando e limpando. Muitas vezes, para suas próprias famílias. Mas também para outras, sem contratos, algumas sendo pagas por hora, outras por salários “em espécie” (em troca de casa e comida). Algumas “nativas”, outras imigrantes, submetidas a um sistema que obrigou desde a geração de nossas avós – que vinham do Sul da Espanha, de Jaén ou Extremadura – a trabalhar nas fábricas têxteis da Catalunha ou como “criadas” no País Basco ou em Madri. Hoje, essas mulheres vêm de outros continentes para cuidar de idosos e crianças, limpar e cozinhar, sem contratos e sob a chantagem dos “documentos” legais.



A greve de mulheres precisa denunciar que seguimos sendo essa “grande fábrica invisível” reclusa nos lares, com a dupla jornada laboral, em nossos locais de trabalho e, ao sair, nas tarefas domésticas do lar, de forma totalmente gratuita para o capitalismo. A greve feminista também tem como desafio retomar reivindicações como: creches gratuitas garantidas pela patronal e pelo Estado nos locais de trabalho, 24 horas por dia. Moradia gratuita para pessoas dependentes. Se o Estado se responsabilizasse pela socialização destas tarefas domésticas, desaparecia o trabalho clandestino de milhões de mulheres, em sua maioria imigrante, sem absolutamente nenhum direito, permanentemente condenadas à discriminação, abusos de todo tipo e jornadas de exploração.



As “alianças” que temos que construir... para revolucionar tudo



Várias mulheres indagaram aos que não apoiam uma greve mista: “Como vou fazer, com dois filhos e dois cachorros, para entrar em greve se meu companheiro não entrar também?”. Outras vozes diziam: “Diremos a nossos companheiros de trabalho e estudo que furem a greve neste 8M e não paralisem?”.

Neste 8M, nós, mulheres, nos prepararemos para construir outra(s) greve(s) desde nossa posição social e trabalhista, outra jornada de greve geral de mulheres e parar tudo por nossas reivindicações, que são muitas. Sem o enorme exército de mulheres, vital para o funcionamento do sistema de reprodução social e econômico, não poderá funcionar o centro do sistema capitalista, o da produção e do trabalho assalariado que explora as mulheres e todo o conjunto da classe trabalhadora. 



No entanto, se até a greve de mulheres construirmos alianças com todos os setores da classe trabalhadora, será possível paralisar a totalidade dos serviços de transporte e telecomunicação pelas reivindicações das mulheres. Se nossos companheiros e a juventude apoiarem ativamente nossa greve de mulheres e feminista, questionando também o machismo dentro dos locais de trabalho e estudo, seremos capazes de golpear ainda mais fortemente o centro deste sistema patriarcal tão funcional ao sistema capitalista. Um sistema que se alimenta da divisão a partir de múltiplas opressões, de gênero, de raça, para sustentar os pilares do sistema de exploração. 



Longe de “fetichizar” a greve geral, este debate incorpora a ideia de que o movimento de mulheres necessita de múltiplas ações e iniciativas de mobilização. E que propostas como a greve de consumo e a greve do trabalho doméstico podem contribuir muito em trazer visibilidade à opressão patriarcal, além de que, junto à greve trabalhista e estudantil, é possível paralisar toda a produção capitalista, afetando seus lucros, paralisando o transporte, os bancos, as empresas e as telecomunicações, construindo piquetes, ocupando locais de trabalho e de estudo. Deste modo, colocaríamos em xeque o domínio capitalista da produção, mostrando o potencial das “mulheres na linha de frente” das demandas da maioria, das pobres, trabalhadoras, imigrantes, jovens, donas-de-casa, trabalhadoras precarizadas e do conjunto da classe trabalhadora e da juventude. Mostrando, assim, as possibilidades de se lutar por outro tipo de sociedade, sem exploração nem opressão.



Um movimento de mulheres independente dos partidos capitalistas do Regime de 78

E os sindicatos?



Milhares de mulheres expressaram sua raiva diante do chamado dos sindicatos majoritários a 2 horas de paralisação no último 8M, decidida por cima, como sempre, sem ter convocado uma assembleia sequer nos locais de trabalho para decidir qual greve e quais reivindicações as mulheres necessitavam. Apenas os sindicatos da esquerda sindical apoiaram a greve de mulheres, convocando 24 horas de paralisação.



Nós também podemos revolucionar os sindicatos, que abandonam os setores mais vulneráveis da classe trabalhadora, como as mulheres, a juventude e os imigrantes, impondo-lhes uma grande greve geral encabeçada pelas mulheres e pelo movimento feminista. Trata-se de revolucionar tudo, de retomar essa enorme tradição das mulheres trabalhadoras que lutaram organizadas nos sindicatos contra as direções burocráticas de maioria masculina, que sempre tentaram rejeitar nossas reivindicações trabalhistas. Sem estas mulheres sindicalistas, importantes conquistas não teriam sido possíveis, apesar da ação traidora das direções burocráticas.



E os partidos?



Durante o Encontro, se escutava vozes “contra todos os partidos”, por fora de uma distinção de classe e ideologia política. No entanto, uma grande maioria presente denunciou os partidos capitalistas do Regime que, assim como o PP e o Ciudadanos, confrontaram a greve de mulheres de 2018, e também a traição do partido social liberal PSOE, cujo governo se diz feminista – e poderíamos citar uma lista de outros partidos capitalistas autônomos. Diante das grandes manifestações contra os feminicídios, o PP, PSOE, Ciudadanos e Podemos se viram obrigados a implementar um Pacto de Estado, muito limitado em suas propostas e com grandes cortes no orçamento. 



Entretanto, muitas mulheres estão organizadas em partidos de esquerda – com diferentes estratégias políticas, muitas em disputa – que lutam contra este Regime, o sistema capitalista e seus partidos da ordem, com o propósito de construir uma alternativa anticapitalista ou revolucionária, também feminista e antipatriarcal, e impulsionando organizações de mulheres.



Nós, companheiras da agrupação Pan y Rosas, lutamos para que o movimento de mulheres e feminista se organize nas ruas, de forma independente dos partidos e das instituições do Regime. Por isso, tomamos parte em todos os espaços de auto-organização, das assembleias, dos Encontros, debates, atos, batalhando para colocar de pé um grande movimento em aliança com a classe trabalhadora. No último 8M, a força das mulheres demonstrou sua capacidade de encabeçar uma grande mobilização que pode canalizar o ódio de toda a juventude e do movimento estudantil.



E, se estamos falando de alianças, a grande tarefa é fazer com que a força das mulheres se some à luta pela previdência, contra a precarização, as demissões e os ataques, pelos direitos dos imigrantes, pelos direitos democráticos e contra as leis de mordaça, em soma à luta contra a repressão ao povo catalão e por todas as demandas sociais que questionem o Regime de 78, suas instituições e seus partidos. Esta potencial aliança do movimento de mulheres com o conjunto dos setores em luta da classe trabalhadora e da juventude pode fazer tremer o sistema patriarcal e capitalista, a começar pelo decadente Regime de 78, monárquico e reacionário. Impulsionar essa potencial aliança é uma tarefa urgente do movimento, para não o limitar a uma proposta que se restrinja apenas a “visibilizar” as opressões, mas que também aponte o caminho para acabar com elas.

Por isso, nós, esta grande maioria explorada com o peso de múltiplas opressões, entraremos em greve juntas, parando tudo. Nossa greve de mulheres trabalhadoras assalariadas, donas-de-casa, imigrantes, jovens, estudantes, será geral e feminista para que milhões levantem nossa bandeira de luta contra o sistema patriarcal e sua aliança criminosa com o capital. 




Referências:


BLANCO CABRERO, Claudia. Asturias, las mujeres y las huelgas, cap. 4 (pág. 189-244), “Del Hogar a la huelga”. Trabajo, género y movimiento obrero durante el franquismo. Ed. Catarata, Madri, 2007.




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