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Estado Espanhol: A crise que se aproxima e as chaves para construir a esquerda que necessitamos

Santiago Lupe

Estado Espanhol: A crise que se aproxima e as chaves para construir a esquerda que necessitamos

Santiago Lupe

O pior do primeiro surto de coronavírus da pandemia ficou para trás. Deixa para o futuro uma queda econômica histórica que agrava a crise do regime e promete ser parteira de novas convulsões sociais. A esquerda revolucionária deve preparar-se desde agora para o novo cenário que a crise do coronavírus deixa.

O seguinte texto foi traduzido do original de 14 de junho de 2020, do suplemento teórico espanhol Contrapunto, publicação irmã do Semanário Ideias de Esquerda.

Estamos a uma semana da entrada na chamada “nova normalidade”. Ficam para trás as fases e as piores semanas da crise sanitária. Pela frente a pior queda econômica desde o pós-guerra, a incerteza sobre o possível novo surto de outono e um regime que aprofunda sua crise. Tudo em um marco internacional muito mais agitado que o de 2008, com a globalização neoliberal enfraquecida e um mundo convulsionado por uma nova onda de luta de classes iniciada antes da pandemia, e que tem sua continuidade na rebelião juvenil contra o racismo nos EUA. Analisamos a seguir estas chaves da situação e os desafios da esquerda revolucionária no cenário pós-pandemia.

Uma crise muito mais profunda que a de 2008

Nos últimos dias, instituições como o Banco da Espanha ou a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) têm concordado que a queda da economia espanhola em 2020 será uma das maiores da UE (União Europeia) e dos países do G20, e muito pior que a de 2008 e 2014.

O pior está por vir. Ainda mais se no outono um possível novo surto leva a um novo confinamento ou outras medidas restritivas.

O PIB pode se contrair até 15%, uma cifra que quase quadruplica em relação ao pior ano da crise anterior, 2009, quando chegou a 3,8%. O desemprego alcançará 23,6% no fim do ano e seguirá subindo até 24,7% em 2021. Uma escalada que na crise anterior se deu em três anos – chegando a 22,6% em 2011 –, seria alcançada em 6 meses. O crescimento da dívida pode chegar a 118% se não houver um novo surto e até 129% se houver. Uma subida entre 20 e 30 pontos, quando em 2009 foram 13 e só em 2012 – o ano do resgate – chegou aos 17.

As frias estatísticas dão conta de que os padecimentos que se aproximam contra a classe trabalhadora e os setores populares prometem superar com folga os da ofensiva anterior. As “filas da fome” em bairros populares são um prenúncio do cenário ao qual nos querem condenar. O milhão de demissões acumuladas desde março, os mais de 3 milhões de suspensões que podem terminar em fechamentos ou dispensas, e os mais de 500 mil autônomos quebrados, são parte também desse sinistro cenário.

O efeito verão pode servir de certo paliativo conjuntural, porém nenhum especialista se atreve a garanti-lo. Se for possível mobilizar uma parte do mercado interno entre quem conserva empregos e contratações, e uma parte do turismo estrangeiro com a abertura das fronteiras, a queda poderia ser suavizada temporalmente. Porém, todos concordam que o respiro será passageiro. Para outubro organismos como o Colégio de Gestores Administrativos preveem uma onda que quebras e não pagamentos. O pior está por vir. Mais ainda se no outono o possível retorno leva ao confinamento ou outras medidas restritivas.

Os Estados põem em marcha planos de resgate aos capitalistas sem precedentes

Até agora tem havido uma forte intervenção dos Estados para conter e dosar o desastre. Em certa medida isso evitou que as consequências da crise se expressem com toda sua contundência. Os governos de distintos membros da UE e até a administração Trump, implementaram políticas para a contenção parcial do desemprego em massa, a onda de quebras e empobrecimento extremo de amplas camadas da população.

Mais de 2 bilhões de dinheiro público injetado para o resgate do capitalismo europeu.

A reação dos Estados não foi a mesma que em 2008. Por um lado, se discute uma mobilização de recursos sem precedentes para salvar a chamada “economia real”. Um resgate de setores como o turismo, automobilístico e aviação, equivalente ao realizado na crise anterior sobre o sistema financeiro, ainda que as quantias desembolsadas possam superar com folga as anteriores.

Estas medidas de resgate direto vieram acompanhadas desta vez da implementação de políticas para conter a queda de receita de milhões – a qual abriria uma situação explosiva socialmente - e uma onda ainda maior de quebras e fechamentos de empresas. Além das rendas mínimas, subsídios a autônomos e outras ajudas de urgência ao pagamento de abonos e alimentação, os ERTEs, ou suspensões, se constituíram como uma das peças chaves da política de contenção da catástrofe por parte dos Estados europeus.

São medidas que não evitam em absoluto que o peso da crise caia sobre as costas da classe trabalhadora e setores populares. Só o “salário mínimo vital”, a estrela do governo “progressista”, deixa de fora 8 dos 10 milhões de pessoas que vivem em risco de pobreza e exclusão social. Seu fim é o mesmo que os endossos e ajudas diretas às empresas, um resgate e socialização das perdas disfarçada de medidas sociais.

O exemplo mais claro é o dos ERTEs que, além de que seguem sem chegar a meio milhão de trabalhadores que não conseguiram acesso ao benefício, supõe que o Estado assuma os salários e cotizações que corresponderiam à empresa. Ou as “ajudas” de moradia, que levam a um endividamento das famílias para que nem os grandes proprietários nem os bancos deixem de receber aluguéis e hipotecas.

A UE vai dispor de mais de meio trilhão de euros – dos quais 100 bilhões são para financiamento dos ERTEs -, 240 bilhões do MEDE, 100 bilhões de créditos para as empresas por parte do Banco Europeu de Investimento e o Banco Central Europeu ampliou seu programa de compra de dívida pública a 1 bilhão e 350 milhões. Mais de 2 trilhões de euros de dinheiro público injetado para o resgate o capitalismo europeu.

Ao Estado Espanhol corresponderiam 77 bilhões em ajudas não reembolsadas –ainda que condicionadas a subsidiar setores empresariais concretos-, 88 milhões em empréstimos e 15 milhões para o pagamento de ERTEs. Até o momento o governo já confirmou que auxiliarão no pagamento dos ERTEs, porém, o mecanismo principal e mais imediato de que se está fazendo uso é do aumento do endividamento.

Um resgate que será pago novamente pela classe trabalhadora e setores populares

Ainda que as quantidades implementadas sejam estratosféricas e sem precedentes, é pouco provável que se possa sustentar por tempo indefinido, ainda mais se a crise não termina com o controle da pandemia no verão e ela retorna no outono e inverno boreal, como alertam muitos especialistas sanitários.

Se tomamos o Estado espanhol como exemplo, a lista de gastos que há adiante, somente nos próximos meses, é muito maior que o pacote prometido pela UE. Somente nos ERTEs, até 30 de junho, a fatura se eleva aos 12 bilhões, já por cima do total de fundos que lhe corresponderia do programa europeu. O governo quer aprovar uma prorrogação até setembro, o que suporia uma quantidade muito similar –só 15% dos trabalhadores suspensos retomaram as atividades- e a patronal está pedindo que o estenda até dezembro.

O Banco da Espanha advertiu que quando houver algum respiro será necessário fazer um exercício de “consolidação fiscal” e contrarreformas previdenciárias e trabalhistas.

Para isso, teríamos de incluir a queda na arrecadação de impostos devido ao aumento do desemprego ou da atividade, o fato da previdência estar à beira de números vermelhos - 2019 terminou com apenas 2 bilhões - o crescimento do fatura de desemprego, gastos com saúde ... e, é claro, o resgate bilionário de empresas e instituições financeiras quando a tempestade de inadimplência e falências do outono estourar.

O maior gasto anunciado até agora foram os 100 bilhões de euros em avais públicos para créditos empresariais. Os bancos estão utilizando para refinanciar parte de sua dívida –e garantir assim que em caso de morosidade 80% das perdas serão cobertas pelo Estado- ou para facilitar créditos a empresas tão “necessitadas” como o Barcelona FC ou o Real Madrid que pediram 200 milhões para pagar seus jogadores. Todo um resgate preventivo dos mesmos que ainda devem 42 bilhões de 2012 apesar de levar um lustro com benefícios históricos.

Em nenhum caso estão buscando os recursos para custear tudo isso entre as grandes empresas e fortunas, estas somente “põem a mão”. As propostas do governo “progressista” para fazer com que “os que mais tem” contribuam se destacam por sua ausência ou sua impotência. Assim foi com o fracassado projeto de “impostos aos ricos” de Unidas Podemos. Não seguiu adiante, porém, se tivessem feito, propunham arrecadar 11 bilhões, uma quantidade que equivale a um pagamento das aposentadorias, ou seja, uma gota em um oceano. Ocorre algo semelhante com a chamada “taxa COVID” agora em discussão, que cobraria entre 0,1 ou 0,2% algumas operações da bolsa de valores. Se fosse levado adiante arrecadaria 2,5 bilhões, menos que o que se necessita para financiar a “renda mínimo vital”.

O governo “progressista”, como fizeram Zapatero e Rajoy na crise anterior, espera tirar dinheiro do aumento da dívida pública e de um novo resgate europeu. Uma receita que tem suas contrapartidas em forma de ajustes e contrarreformas sociais. O Banco da Espanha advertiu que quando haja algum respiro será necessário fazer um exercício de “consolidação fiscal” –o novo eufemismo para não dizer recortes- e reformas estruturais em matéria de pensões e reforma trabalhista.

Na crise anterior estes ajustes não vieram imediatamente. Foi em 2010, quase dois anos depois da queda e quando esta havia chegado a uma situação de “estabilidade”. Então Zapatero iniciou a ofensiva e a crise se reabriu com outros 3 ciclos de queda do PIB e uma nova escalada de desemprego até os 5 milhões de desempregados.

Pablo Iglesias reconhecia recentemente em um ato virtual do Podemos que “a crise social vai se agravar, vêm momentos muito difíceis”. Não se referia unicamente a piora dos índices econômicos, mas sim que seu governo “progressista”, como fizeram historicamente todos os governos do PSOE, terá que pôr a frente de aplicar o ajuste que necessita o capitalismo espanhol para sobreviver às custas dos trabalhadores e setores populares.

O governo “progressista” e a burocracia sindical como freio da resposta social à crise

O próprio choque da pandemia e o confinamento foram fatores chaves que operam na relativamente baixa resposta social a esta catástrofe sanitária, econômica e social. Três meses de medo do contágio, uma “inassistência” que desorganiza – sem a juventude nas aulas e tampouco uma parte importante das e dos trabalhadores em seus locais de trabalho - e, sobretudo nas primeiras semanas, um espírito de “unidade nacional” ao que se somou até a direita e que atuou também contra aqueles que se obrigatoriamente tinham que ir a seus postos de trabalho, deram mais e maiores respostas que se viu até agora.

A isso também se soma o próprio golpe da crise, que como em outras muitas ocasiões na história, tem o efeito imediato conservador de não querer perder o emprego – aqueles que ainda o conservam – e buscar soluções imediatas aos grandes problemas individuais ocorridos.

A estes elementos deve-se somar o fato de que seja um governo “progressista” o que aplica o novo resgate. Se tanto o Unidas Podemos como seus agentes no movimento operário e diversos movimentos sociais estão trabalhando para algo, é para pôr obstáculo à emergência de uma resposta social desde a classe trabalhadora e setores populares empobrecidos.

A CEOE, junto à burocracia sindical, bendisseram a flexibilização e ampliação dos ERTEs, que as ajudas de moradia se convertessem em créditos para as famílias, que o “salário mínimo vital” ficasse por baixo do SMI e deixasse de fora a um milhão de trabalhadores estrangeiros, que a paralisação de atividades não essenciais repercutisse integralmente nos trabalhadores que deverão devolver todas as horas...

As diferenças com 2008 existem, porém estas não são uma senha de identidade do governo do PSOE e Unidas Podemos, mas sim que são compartilhadas por governos da direita como o de Macron na França, Conte na Itália e até Trump nos EUA, que deu cheques de 1.200 euros a 70 milhões de norte-americanos e um subsídio para desempregados de 600 euros semanais a outros 21.

Apesar disso, a campanha da direita e a extrema direita contra o governo não cessou, chegando a acusações ridículas como a de “social comunista”. Uma ofensiva que fortalece a ilusão, bem alentada desde o próprio executivo e aqueles que o respaldam, de que estamos diante de um governo de “esquerdas” que pretende resgatar “aos de baixo”. O “mal menorismo” que justificava em janeiro o investimento e co-governo com os sociais liberais, toma hoje a forma de fazer “panelinha” com um governo que não se pode afirmar que não esteja legislando ao gosto da patronal e “deixando a milhões para trás”.

As primeiras respostas à crise em um marco internacional convulso

Apesar destas tendências à passivização, fomos testemunhas das primeiras respostas da classe trabalhadora. O vimos nos primeiros dias da quarentena, com as ações em fábricas como a Mercedez, Balay ou Airbus paralisando a produção diante da falta de medidas de segurança. E como nos referíamos antes, o estávamos vendo nestes dias com a mobilização dos trabalhadores da Nissan, seus subcontratos ou na Alcoa contra s fechamentos. Ou a as sanitárias que saem às portas dos hospitais e centros de saúde para exigir que se revertam os cortes e privatizações, que se reforcem as unidades e se elimine a precariedade no setor.

Não sabemos como serão os prazos e os ritmos, porém, o que não deixa dúvidas é que os setores operários e populares se rebelarão contra o grande sofrimento ao qual são conduzidos amplos setores das massas.

Também em setores da juventude, sobretudo de origem imigrante, se deram algumas respostas, como as manifestações em solidariedade com o movimento Black Lives Matter dos EUA e o racismo institucional do Estado Espanhol. Estas foram muito menos massivas que as que ocorreram em outros países como França e Reino Unido, algo que não se pode separar do fato de que a esquerda reformista e afim ao governo as questionará como inoportunas.

Apesar disso, são exemplos que demonstram que os obstáculos no sentido da passivização não são absolutos, e que a esquerda política e sindical poderia tomá-los como ponto de apoio para romper com eles. O mal-estar que se acumula entre quem esteve trabalhando na primeira linha durante a pandemia, e que o fazem em condições de extrema precariedade, as gerações as quais a crise anterior condenou a um futuro de pobreza laboral... pode converter-se na faísca que incendeie as enormes forças sociais da classe trabalhadora para lutar por uma saída da crise a nosso favor.

Mais ainda se nos baseamos no convulsivo cenário internacional. Diferente de 2008, essa crise começa ligada ao ciclo da luta de classes que começou em 2019 com a França dos coletes amarelos e a greve do transporte contra a reforma das aposentadorias, as jornadas de Hong Kong ou Catalunha, o processo revolucionário chileno, a resistência ao golpe na Bolívia e a onda de mobilizações no norte da África e muitos países árabes. E quando ainda não se tinha atingido os 100 dias de pandemia, vemos uma rebelião da juventude contra o racismo que está golpeando o coração da principal potência imperialista mundial.

Em 2008 passaram pouco mais de 2 anos até que se deram os primeiros processos, a chamada primavera árabe do começo de 2011. Não sabemos como serão os prazos e os ritmos, porém o que não deixa dúvida é que os setores operários e populares se rebelarão contra o grande sofrimento ao qual são conduzidos amplos setores das massas.

A responsabilidade da esquerda política e social que se reivindica anticapitalista para não entregar a oposição à direita

A burocracia sindical está firmemente comprometida com a política governamental. Deixaram passar o milhão de demissões desde março, o não recebimento dos ERTEs por meio milhão e deixa isoladas as lutas que vem desatando diante de fechamentos como os da Nissan e Alcoa.

Em alguns movimentos sociais e na esquerda sindical vem sendo apresentadas críticas políticas governamentais, pelas suas limitações e de acobertamento de resgate aos empresários. Porém segue muito presente a concepção de que frente à direita há que se somar forças com quem hoje está no governo. Inclusive respaldam acriticamente algumas das propostas com as quais quer se apresentar como um governo de “esquerda” apesar de não ter impacto relevante nem em resolver a crise e nem em fazer que seja paga pelos capitalistas, como é o caso da taxa COVID que grupos como Anticapitalistas tomaram como demanda principal.

Entretanto, esta localização “mal menorista” como um tipo de “setor crítico” do bloco governamental, só está conseguindo é que o terreno da oposição ao governo fique livre para a direita, que segue se fortalecendo com seus discursos de demagogia social e xenofóbica.

Todavia esta esquerda política e social está longe de se propor a articular uma oposição de esquerda, tanto desde as ruas como desde as Cortes com as posições que tem grupos como a CUP ou Anticapitalistas no Parlamento europeu ou o andaluz, para lutar contra as medidas governamentais e por um programa para fazer com que a crise seja paga pelos capitalistas.

Hoje a situação permitiria dar passos concretos nessa direção. Por exemplo, colocando de pé uma grande campanha de solidariedade com Nissan e Alcoa, que oponha ao programa da burocracia de lutar por indenizações pelas demissões ou contra ajudas às patronais que querem pôr em marcha, a luta por uma nacionalização sem indenização e sob controle dos trabalhadores da empresa matriz e terceirizadas, que se expresse em mobilizações e se fortaleça desde as instituições com projetos de lei com este conteúdo.

O mesmo poderíamos dizer com respeito à saúde. A luta de seus trabalhadores e trabalhadoras poderia ser um suporte desde qual tentar desenvolver um grande movimento pela reversão das privatizações, os cortes e a nacionalização de toda a saúde privada; ou com os trabalhadores mais precários, impulsionando sua organização e coordenação como se propõe desde as seções da CGT na Telepizza.

O regime de 78 chega a esta nova crise sem resolver seu lado

Uma das consequências de longo alcance da crise anterior foi a abertura do que denominamos como crises orgânicas nas principais democracias capitalistas. No caso ibérico, o Regime de 78 entrou nela a partir de 2011 e chega ao momento atual sem tê-la resolvido. A precariedade da reestabilização do regime vinha dando mostras sobretudo na instabilidade no governo “progressista” e na falta de um novo consenso capaz de fechar definitivamente a crise de representação, territorial e institucional.

Na conjuntura, o governo do PSOE e Unidas Podemos parece estar buscando, e talvez conseguindo, uma melhor estabilidade parlamentar. Seu acordo com o PNV e a direita de Cs pode fazê-lo menos dependente do apoio do independentismo catalão do ERC. No entanto, o nível de polarização estimulado pela direita e a extrema direita não cessa e põe em evidência que a luta prévia entre os distintos projetos para restaurar o regime não só diminuem com a crise, mas que na verdade a agrava.

A restauração “progressista” que pretendia encarnar o bloco do investimento parece coisa do passado. A situação não dá margem nem para reformas redistributivas – não daremos este status às medidas de contenção – nem tampouco para relaxar ou reverter as tendências recentralizadoras que desde 2010 estiveram por trás da emergência da crise catalã. De fato, os novos sócios do governo apontam a uma moderação conservadora do próprio governo com políticas econômicas em total sintonia com os demais governos europeus, um sistema autônomo limitado e maior capacidade de intervenção do Estado central.

Apesar desta “moderação”, o outro projeto de restauração segue sem aceitar a mais mínima concessão e está disposto a destronar ou desgastar ao máximo ao governo para tomar a batuta da redefinição ou restauração do regime e do plano de saída da crise. Representam um setor nada desprezível do Estado e o establishment, conformado não só pela direita política, mas também por uma parte significativa da Judicatura, as forças e corpos de segurança e com simpatias na Zarzuela. Sua posição mais beligerante diante do independentismo os localiza como ala mais firme na defesa da recentralização. Quando os recursos prometem ser cada vez mais escassos e em um país onde uma grande parte dos grandes negócios estão ligados às relações com o Estado – turismo, construção, obras públicas...- esta não é uma discussão só de identidade. No programa de reformas estruturais confiam mais em si mesmo que em um governo vice presidido por Unidas Podemos, para que as medidas de ajuste e as contrarreformas sejam levadas de forma decidida e sem pedir contrapartida alguma, por mínima que seja, às empresas –como a taxa COVID ou outras medidas do tipo.

A guerra entre estes dois setores de cima aumenta fissuras preexistentes. A territorial, e em particular a catalã – ainda que em um claro retrocesso do movimento democrático fruto da repressão à política vacilante de suas direções - pode voltar a viver novos episódios em um marco social e econômico muito mais crítico que a relativa recuperação em que se desenvolveu o grosso do processo. A disputa pelo financiamento autônomo ordinário e extraordinário ou novos episódios da guerra judicial contra o independentismo, como a anunciada destituição de Torra no outono, tornam complicado o retorno da normalidade autonomista com a que anseiam tanto ERCP e DECAT, como o PSOE e Unidas Podemos.

Inclusive instituições como a Coroa ou a Guarda Civil se veem enlameados nesta guerra interna. A direita pretendia empregar uma parte do judiciário e a Benemérita para montar um processo contra o governo pelo 8M, e este respondeu de forma contundente desde a Procuradoria Geral do Estado desativando a causa, limpando o “herói do 10” Pérez dos Cobos e abrindo investigações nada menos que ao Rei emérito. Parece que no imediato isso deixou a direita na defensiva, há que se ver por quanto tempo. Porém o custo para estas instituições do regime se medirá nos próximos meses ou anos.

Depois de tentar “ressignificar” a Guarda Civil e as Forças Armadas com sua utilização durante o Estado de Alarme, agora o governo para se defender tem que deixar correr a ideia de que uma parte da mesma são um bueiro com pressões destituíntes. Depois de se reconciliar com a Coroa à qual até os ministros do Podemos e o PCE lhe renderam homenagem, têm que embrenhar no Supremo para dar um toque ao bloco da direita que lhes recorde que o Estado também são eles.

O principal ponto a favor do regime e suas distintas alas é ainda a debilidade de uma resposta por baixo. A relativa passividade social faz que estas lutas por cima tenham no imediato danos controlados. Porém isso não evita que a deterioração avance e que, a inexistência um novo consenso por cima com legitimidade por baixo, faça uma estruturação institucional nascida da Transição uma entidade frágil na qual uma mudança significativa no terreno da luta de classes possa fazer rachar ou desmoronar.

Preparar para a crise histórica que voltará a ser parteira de revoluções

A crise do Regime de 78 recorda a do Regime da Restauração. Aquela também foi lenta e longa. Mas de um governo por ano é a média desde as perdas das colônias em 1988 e a marcha ao exílio de Alfonso XIII em 1931. Não faltaram as estabilizações precárias. A última por vi autoritária com a ditadura de Primo de Rivera, imposta para salvar a Coroa de sua responsabilidade no desastre militar de Annual e sufocar a ameaça que vinha desde abaixo: um movimento operário que estremeceu as elites governantes durante o chamado triênio Bolchevique.

Porém, a decomposição dos de cima, expressão de uma lenta decadência da outrora grande potência imperial espanhola, a perfurou até o ponto que quando os ventos da crise de 29 cruzaram o atlântico, colapsou a peseta e se disparou o desemprego, bastaram umas eleições municipais e manifestações massivas nas grandes cidades para que se desmoronasse e a classe dirigente se visse obrigada a mudar o casaco tricolor. Começava assim a Revolução Espanhola.

Estamos ainda longe de um 14 de abril de 1931, porém, a única maneira de evitar que o regime ganhe uma nova sobrevida e nos imponha um retrocesso em nossas condições de vida e trabalho só comparável ao pós-Guerra, é tentar preparar-se para acontecimentos dessa magnitude.

A extrema direita já está fazendo isso. O discurso de Vox não apela somente aos muitos cafeeiros que votaram nas pesadas eleições. As constantes apelações na tribuna a conflitos como Nissan, Alcoa, ou o não pagamento dos ERTEs e o hálito de ódio ao estrangeiro entre os mais golpeados pela crise, pretende “semear” suas ideias entre setores populares e de classes médias arruinadas, e poder capitalizar o desgaste do governo para favorecer uma restauração na chave mais autoritária e reacionária possível.

A esquerda reformista cumpre seu tradicional papel de “médico de cabeceira” do Estado capitalista. Hoje desde o governo junto aos sociais liberais, convertidos nos abandeirados da Constituição de um Regime que afunda, semeando a desmoralização, passivização e desorganização para “defender a democracia”, não faz senão calçar o caminho para a direita ao mesmo tempo que passam as mesmas políticas que Casado aprovaria se estivesse na Moncloa.

A construção de uma esquerda revolucionária é uma tarefa que se torna urgente. Necessitamos por de pé uma esquerda que supere a que tem sido tradição histórica da esquerda no Estado Espanhol. Que rompa com toda ilusão em que é possível resolver todas as grandes demandas democráticas e sociais desde a gestão do Estado capitalista. Esta foi a hipótese do Podemos, que assumiram y ainda compartilham em grande medida as e os companheiros de Anticapitalistas, e que vemos fracassar não só no governo “progressista”, mas em inumeráveis experiências de governos reformistas do século XX, incluindo os do biênio progressista ou a Frente Popular.

Também na ilusão etapista de que uma primeira fase, em especial para conquistar direitos democráticos, cabe estabelecer alianças com setores democráticos da burguesia. Esta tem sido a hipótese da “unidade popular” da CUP e a esquerda independentista. Porém, a aliança com a burguesia independentista catalã não fez mais que constatar em 2017 que serviu de obstáculo para que o movimento democrático catalão pudesse desenvolver uma mobilização até o final contra o Estado, empalmando com a classe trabalhadora catalã e do resto do Estado sob um programa de transformação social.

Por uma esquerda à altura de uma crise histórica

Desde a CRT (Corrente Revolucionária de Trabalhadores, organização irmã do MRT na Espanha) consideramos que estas “ilusões” que tem sido hegemônicas na esquerda no ciclo de lutas e crises anterior, devem ser superadas, sob o risco de terminar replicando-as em um nível ainda mais dramático. Nesse sentido propomos a outros grupos que são parte de nossa mesma tradição marxista revolucionária, abrir a discussão sobre a possibilidade de construir um partido unificado da esquerda revolucionária, que poderia fortalecer um polo que lute por outra esquerda.

Necessitamos de uma esquerda que retome a perspectiva de que crises como a atual podem ser parteiras de novas revoluções.

Uma esquerda que aproveite as fissuras entre os de cima levantando um programa que as atinja, que lute por demandas democráticas como o direito a autodeterminação ou um referendo sobre a caduca instituição monárquica. Que seja feito se opondo a toda tentativa de restauração deste regime, venha pela direita ou pela esquerda, encorajando a organização e a mobilização independente da classe operária por processos constituintes verdadeiramente livres e soberanos impostos sobre as ruínas desta democracia para ricos.

Uma esquerda que una este programa contra o regime a um programa operário e anticapitalista que dê uma saída de conjunto para a grave crise econômica e social. Que lute por medidas como a proibição de demissões, divisão das horas de trabalho sem redução salarial e a ocupação e nacionalização sem indenização e sob controle de seus trabalhadores daquelas empresas que fechem; pela nacionalização dos bancos, impostos às grandes fortunas e benefícios empresariais, para cobrir todas as necessidades sociais e sanitárias, para anular as dívidas dos autônomos arruinados e permitir sua sobrevivência; pela regularização de todos os trabalhadores estrangeiros e o fim da “lei de estrangeria” e os CIEs; ou pela expropriação das moradias dos grandes proprietários, entre outras medidas urgentes.

Definitivamente, necessitamos de uma esquerda que retome a perspectiva de que crises como a atual podem ser parteiras de novas revoluções. Momentos históricos nos quais as massas podem intervir para o domínio do seu destino. A existência ou não de organizações revolucionárias armadas com um programa e estratégia assim, com peso e influência na classe trabalhadora e setores oprimidos, é um elemento definidor para poder impor governos dos trabalhadores e trabalhadoras, e evitar derrotas ou desvios que nos impeçam de conquistar uma vida que valha a pena ser vivida plenamente.

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