Política

SOBRE O 13/3

Esse impeachment é de quem?

É a pergunta que não quer calar. Conversando com aqueles que me entregaram o panfleto do dia 13 descobri que… eles são pagos para isso e não defendem o impeachment! Quem tá no sol todos os dias construindo essa manifestação sequer concorda com ela!

Flávia Toledo

São Paulo

terça-feira 8 de março de 2016| Edição do dia

Faz alguns dias, eu estava indo ao Parque do Ibirapuera encontrar alguns amigos em um sábado ensolarado. Andava pela calçada quando um rapaz me estendeu um panfleto, que peguei e segui lendo. Eram 5 motivos para defender o impeachment de Dilma, com a hashtag que Kim Kataguiri tinha lançado dias antes: #EsseImpeachmentÉMeu.

Voltei. Confesso que não me soou coerente a imagem. Eram um rapaz, um senhor e uma moça por volta dos 40 anos, negros, claramente cansados, com bonés puídos e debaixo de um baita sol panfletando o chamado para o dia 13/03, ato pró impeachment. Não fez sentido. Na minha cabeça, essa galera que defende o impeachment não fica debaixo do sol se esgueirando entre carros pra panfletar.
Voltei e perguntei se eles eram do MBL. Responderam com um contundente “não”, apenas estavam trabalhando pra eles. Me contaram que tinham sido contratados pra panfletar, eles e outros vários. Eles ficavam sempre ali no parque. Perguntei se eles ao menos defendiam o impeachment. Novamente, um sonoro “não”.

Falei muito pouco depois disso, deixei que falassem tudo o que quisessem. O senhor mais velho, mais falante, logo mandou o papo: “sou preto e trabalhador, não posso defender isso aí, não. Eles não tão do nosso lado. Qualquer um que venha perguntar eu vou dizer que não defendo, tô apenas fazendo o meu porque tenho comida pra botar na mesa. Trabalho sim pra eles, tô entregando o panfleto, mas não defendo o impeachment.” O rapaz ao lado fez questão de continuar: “Mas essa Dilma também não tá do nosso lado, não! Sou contra esse impeachment mas esse governo não dá mais!”

O senhor completou que o PT tinha traído os trabalhadores, que esse governo não ajudava em nada e não podia ser defendido, mas que de jeito nenhum estaria do lado do impeachment. A moça, quieta, apenas acenando em concordância com tudo o que falavam, fez um comentário só: “essa briga é deles, lá, a gente se vira como pode na situação que tá”.

Me atrasei um bocado pro meu compromisso aquele dia, mas pra mim ficou muito escancarado algo que já vínhamos dizendo há tempos. Não dá pra defender esse governo. Ele é um governo realmente traidor. Mas é inadmissível fazer qualquer coro com a direita reacionária que tenta a todo custo conseguir esse impeachment! É muito claro a quem esse impeachment interessa: àqueles que querem explorar e oprimir mais e mais os trabalhadores.

Existe um setor que tenta nos convencer do contrário. Essa campanha #EsseImpeachmentÉMeu vai exatamente nesse sentido, tentar tirar a impressão de que esse impeachment responde a interesses de uma elite. Uma impressão que é corretíssima. Porque eles não tão do nosso lado e nunca estarão.

Achei também muito irônico, já que Kim Kataguiri, Fernando Holliday, essa galera do MBL adoram nos chamar de militantes profissionais, dizer que recebemos dinheiro pra ir pra ato, fazem todo um alarde em volta do tal “pão com mortadela” que eles juram de pé junto que é a única coisa que faz a galera ir pra rua nos atos. E, de repente, vejo pessoas contratadas, com certeza ganhando uma miséria, pra passar horas debaixo do sol pra panfletar um chamado para o dia 13…

Pergunto: ué, esse impeachment não é de vocês? Por que não estão nas ruas panfletando? Construindo o ato? Convencendo as pessoas? Realmente é muito mais confortável fazer política na frente de um computador numa sala com ar condicionado, enquanto tem trabalhadores pobres e negros, aqueles mesmos que esse pessoal diz que têm as mesmas oportunidades e só não estão nas universidades públicas por falta de esforço, por exemplo, debaixo do sol pra disseminar uma ideia que sequer defendem. Porque pra alguns não se trata de escolha, é preciso colocar a comida na mesa.

É mais fácil simplesmente assinar o pedido do milheiro do panfleto, pago sabe-se lá com que dinheiro, e entregar para dezenas de panfleteiros, pagos sabe-se lá com que dinheiro, do que levantar da cadeira pra defender essa pauta absurda e reacionária.
Sejamos sinceros: esse impeachment não é nosso. Como me disseram, “isso é briga deles, lá”. É apenas uma briga por poder com regras que nós mal conhecemos e que não podemos interferir, de fato. É o imundo aproveitando que o mal lavado está sendo super mal visto por todos os ataques que fez pra tentar tomar o seu lugar e atacar ainda mais! É um jogo deturpadíssimo de interesses e nós acabamos no meio do fogo cruzado.

Não dá pra defender esse governo. Ok. Mas dar as mãos para quem quer nos derrubar é um erro grave. Defender esse impeachment é fazer coro com o que há de mais reacionário. Ir às ruas no dia 13/03 é comprar uma briga que só tem a nos prejudicar.

Quando ia saindo, o senhor mais velho me disse que qualquer dia que eu voltasse pro Parque ele estaria lá e poderíamos conversar mais. Disse que podia me ajudar no que fosse necessário, porque ele não defendia esse impeachment, não. E eu sei que ele pode ajudar. Porque enquanto eles se metem na briga deles, lá, a gente tem uma briga que pode travar aqui, da gente, contra eles. Da gente, que não tem medo de sair no sol pra defender alguma coisa.




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