Opinião

CAMPINA GRANDE (PB)

Esquerda e movimentos sociais apoiam movimento da patronal dos transportes, grau zero de independência de classe

quarta-feira 30 de maio| Edição do dia

No dia 28 de junho um conjunto de organizações da esquerda da cidade decidiu apoiar de forma total o que denominam “greve” dos caminhoneiros - um movimento dirigido pela patronal dos transportes e do agronegócio - realizando um ato na Praça da Bandeira, em Campina Grande (PB).

A convocatória esta assinada por entidades sindicais como ADUEPB, ADUFCG, ANDES-SN, SINASEFE, Resistencia (PSOL), Oposição Sindical – SINTEP entre outras entidades do movimento estudantil, social e popular assim com os principais comitês de luta em defesa da educação e a saúde. Com todo o respeito que temos por um conjunto heterogêneo de militantes com os quais mesmos nas diferenças participamos de diferentes frentes únicas, entendemos desde Esquerda Diário (ED) e o Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) que é um equívoco político de grandes proporções em termos programáticos, que expressa um grau zero independência política frente a um movimento político reacionário.

As traições das centrais sindicais como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos trabalhadores (PT) abriram espaço para que a direita capitalize o justo descontentamento popular pelo aumento do preço dos combustíveis: o conflito levado a cabo pelas patronais faz parte de uma luta inter-burguesa e que não só em termos corporativos quiseram apenas reduzir o preço do diesel, mas não estão nem aí com o preço da gasolina e dos gás. A luta é por parcelas dos subsídios estatais (que concretamente são parcelas de mais-valia extraída dos trabalhadores) para seus lucros, expressando dois interesses corporativos capitalistas: de um lado, aqueles que se beneficiam do preço liberalizado dos combustíveis (mais altos), e de outro, setores que se beneficiam com o preço subsidiado (mais baixo).

Apesar da disputa momentânea, ambas frações da burguesia estão de acordo em dois pontos fundamentais: 1) a submissão aos ditames do capital financeiro estrangeiro (como exemplo, a entrega da Petrobras ao controle de monopólios imperialistas); 2) defender mais subsídios aos lucros patronais às custas da população – que terá de pagar pela redução do óleo diesel aos empresários do transporte. Ficou claro que estes setores em disputa não têm a mínima preocupação com o que realmente prejudica a vida de dezenas de milhões: os altos preços do gás de cozinha e da gasolina.

Somado a isto, em termos políticos apoiam uma pauta abertamente reacionária: a intervenção militar. Ontem mesmo domingo 27 de maio para mostrar um exemplo, no Bairro de Palmeiras foi realizada uma mobilização solicitando a intervenção do Exército em "apoio aos caminhoneiros". Para quem estiver de olhos abertos, vê-se que se trata de um movimento que deixou a conjuntura mais à direita.

Diferenciamos claramente os elementos reacionários da conjuntura de uma situação política de "fascismo". Esta é para nós uma diferença política central com o PT e sua orbita, como algumas correntes internas do PSOL, já que mesmo que existam elementos de direita e ultradireita no país, elementos reacionários predominando na conjuntura política, mas não só, no marco da crise orgânica também temos elementos à esquerda como as gigantescas mobilizações por Marielle e Anderson no Rio de Janeiro, o triunfo dos professores municipais de São Paulo contra a reforma das aposentadorias de Dória ou a reincorporação dos 62 metroviários demitidos também em São Paulo, mesmo que esses elementos não tenham conseguido mudar a situação de conjunto mas tampouco significa que a classe trabalhadora está derrotada. Fascismo é uma categoria histórica, é a revolta da pequeno-burguesia organizada pelo grande capital em organizações de combate para destruir as organizações de combate do proletariado num contexto de revolução e contrarrevolução. Aqui temos um paradoxo muitos de aqueles que agitavam o fantasma do fascismo em Brasil seja no plano de petismo para unificar politicamente subordinando ao conjunto da esquerda a sua estratégia impotente de luta contra o golpe institucional ou contra a prisão de Lula agora encontra nos caminhoneiros um agir ao qual a CUT não deu continuidade.

Além do apoio total os organizadores entendem que esta luta faz parte das lutas do povo pobre e a classe trabalhadora: não concordamos de forma alguma com essa caracterização de classe. Este movimento de caminhoneiros a cada dia se mostra mais como um movimento de caráter reacionário. Seja pelos interesses patronais que dirigem os caminhoneiros – incluindo os autônomos, que querem eliminar o imposto que pagam ao PIS/Cofins, que destina verbas ao seguro-desemprego e à área da saúde –, seja pela sua base com setores abertamente pró-Bolsonaro pedindo intervenção militar no país. Sem partir disso não há nenhuma possibilidade para a esquerda ter uma política de independência de classe. Quando o governo golpista de Temer decidiu enviar o Exercito fomos claramente contra sem vacilar, porque sua ideia é utilizar isso contra o conjunto de lutas de nossa classe. Mas isto não tem nada a ver com o erro da esquerda (PSTU, Resistência, MES e demais correntes do PSOL) de apoiar, com maior ou menor empenho, essa mobilização pró-patronal e direitista que fortalece a candidatura de Bolsonaro.

Como afirmava Diana Assunção (ver aqui), as patronais que dirigem esse movimento buscam enganar a população, aparentando defender “redução dos combustíveis” quando só se importam com o óleo diesel, sem tocar no gás de cozinha e na gasolina. Mas esse apoio popular só se sustenta pela aberta e escandalosa traição da CUT e do PT ao longo dos últimos anos que continua abrindo espaço enorme para que esta direita golpista capitalize o descontentamento popular contra Temer, usando métodos radicais, porém de conteúdo reacionário.

Para nós não existem atalhos na luta de classes e não é possível fazer frente única com reacionários como Bolsonaro, o MBL ou as patronais, não existe fração burguesa alguma em que os trabalhadores possamos nos apoiar, deste ponto de vista a intervenção na luta de classes deve ser independente.

Não é porque um movimento se coloca contrário ao governo, ainda um governo golpista, que ele será de esquerda. Pelo contrário, como vemos nestes últimos anos, adaptar-se a uma saída "anti-governo" em geral - sem qualquer critério de independência de classe - levou parte da esquerda a servir de quinta roda do golpe institucional e da Lava Jato de Sérgio Moro. Parece que não aprenderam com a história: resumem toda a vida política a ser "a favor ou contra o governo", caindo no regaço de um dos setores mais conservadores da burguesia brasileira.

Os petroleiros entram em uma greve de advertência de 72 horas na quarta-feira 30 de maio, apesar da traição do PT e da CUT, que dirigem o sindicato dos petroleiros. Damos todo nosso apoio a essa verdadeira greve, que luta pela redução de todos os combustíveis e contra a privatização da Petrobras. Dentro dessa importante greve, batalhamos para que os petroleiros se coloquem de maneira independente da patronal dos transportes que dirigiu os bloqueios de estrada.

A única maneira de garantir a redução do preço de todos os combustíveis é lutando por uma Petrobrás 100% estatal, administrada pelos petroleiros e com controle popular. Somente a administração dos petroleiros pode garantir a completa transparência de todos os contratos, dos planos de produção e desenvolvimento.
O legado do movimento dos caminhoneiros pode ser visto no fortalecimento de uma agenda de direita, com a forte presença de pedidos pela intervenção militar, mais do que nunca é urgente uma esquerda anti-imperialista e com independência de classe, que lute por esse programa em separado dos patrões, que é a única forma de garantir a diminuição do preço dos combustíveis, e também o não pagamento da dívida pública, avançando no sentido de rechaçar a subordinação ao imperialismo, elemento central da crise dos combustíveis, dada a política de preços com o objetivo de entrega da estatal.

Desde o início estamos contra o golpe institucional de Temer e lutamos contra ele e todas suas leis, sem dúvidas.

A característica do marxismo é justamente realizar análise de conjuntura, análise concreto da situação concreta, e na situação concreta se encontram as classes e as frações de classes, Marx rejeitava o lutismo ir correndo atrás de qualquer luta pelo só fato de existir essa luta, e importante analisar o programa e a que classe ou frações de classe pertence ou beneficia, deste ponto de vista a esquerda não pode ir a reboque de qualquer luta mesmo que esta tenha elementos de radicalidade. E preciso que esquerda recupere uma estratégia revolucionária e para isso a independência política é necessária.




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