Política

DIÁLOGO COM EDITORIAIS DA MÍDIA

Esquerda e direita e os grandes jornais como conselheiros de vencedores e vencidos

Em curiosa operação com interlocutores diferentes, os três grandes jornais fazem editoriais sobre o sistema partidário brasileiro. Quais são as preocupações comuns da Folha dialogando com PT e PSOL, do Globo com Bolsonaro e do Estadão com o "centrão"?

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

domingo 9 de outubro| Edição do dia

Na véspera de crucial votação da PEC 241, aquela que congelará gastos com saúde e educação por duas décadas os grandes jornais do país, curiosamente (à primeira vista) não emitem opiniões editoriais a respeito, talvez porque consideram essa batalha como já ganha, e também porque eles têm uma preocupação mais estratégica, sobre esquerda e direita, e o sistema partidário necessário para o futuro do país.

Hoje, no Globo, na Folha e no Estado de São Paulo é dia de dar conselhos a vencedores e vencidos no pleito municipal. Se arrogam esse lugar de consiglieri, como Maquiavel ao príncipe a quem remetia seu estudo e ao mesmo tempo a um príncipe imaginário que pudesse ser chefe de todos mercenários condottieri e erguesse um novo Estado. Os grandes jornais pátrios, um verdadeiro partido político com três ou quatro frações, não podem eles mesmos assumirem as rédeas da nação então não lhes resta opção a não ser aconselhar, mas diferente dos conselhos de Maquiavel para criar um novo Estado trata-se de conselhos para manter o estado de coisas atual. Antes de esmiuçar seus diferentes conselhos, da Folha ao PT e à esquerda, do Globo a Bolsonaro, e do Estadão ao centrão do sistema partidário, vale uma nota sobre a ausência da PEC 241 nos editoriais.

Vendendo o peixe podre da PEC 241 como consenso

A ausência de opinião a respeito deste ataque a gerações presentes e futuras é em si uma tentativa de vende-lo como um “grande consenso”.

Colocam na boca de Temer, Geddel, Meirelles as exortações às medidas, estampam em forma laudatória o número de partidos favoráveis, garantem com propaganda que os empresários (o que eles chamam de sociedade civil) tenham matérias pagas (será que não dão um desconto ou para opinar o mesmo que a Folha, Globo, etc não há um acordo de cavalheiros para abaixar os salgados preços da propaganda?) com destaque em suas edições impressas e online, como a FIESP fez hoje e dias atrás a Folha deu espaço a um tal de instituto Epicurus, em tom à la Medici, Brasil com PEC 241 ame-o ou deixo-o, como criticamos nessa matéria.

O espaço da crítica à PEC, que move milhares de estudantes a ocuparem suas escolas de norte a sul do país (já são aproximadamente 50, com foco maior no Paraná, saiba mais lendo essa matéria) inexiste. Os jornais que a PEC será aprovada no congresso, em que pese as críticas da PGR e buscam omitir que existem críticas na “sociedade civil” não aquela organizada em torno dos patos da FIESP e da Bovespa, mas naquela que labuta, mas pouco importa aos jornais hoje tomar as ruas como interlocutora, elas estão relativamente quietas é dia de conversa com príncipes.

Conselhos ao PT, a Bolsonaro e ao centro partidário

A Folha foca em seus conselhos nos maiores derrotados do pleito, o PT e a se questionar sobre os rumos do PSOL, pintando-o mais esquerda no editorial do que nas matérias dos colunistas, inclusive em rara matéria do editor-chefe-dono Otávio Filho. A Folha em seu segundo editorial dominical “Corrida Carioca” analisa friamente o resultado eleitoral carioca e afirma que o partido de Freixo chegou a um novo patamar, com “propostas que de certa forma lembram as da sigla de Lula em seus anos de juventude e idealismo”. Já nas palavras do dono do maior jornal do Brasil o partido estaria se moderando rapidamente, mesma análise que teceram sobre o debate onde aconselham Freixo que o tom bom-moço não lhe serve eleitoralmente.

Otávio Frias Filho, em rara matéria assinada, com duplo título, (na versão online, do lado de fora da matéria “Brasil precisa ter um amplo partido de centro-esquerda” e, dentro, “Miséria e glória do PT”) , afirma, citando Trotsky (!), que o Brasil tal como a Rússia exibe características de desenvolvimento desigual e combinado o que fez ter um desenvolvimento rápido de um partido social-democrata nascido radical e que em 30 anos se esvaiu após chegar ao poder, fazendo em fórmula acelerada o que ocorreu em longo processo de mais de cem anos na social-democracia europeia.

A matéria tal como um dos títulos escancara tem como objetivo a afirmar a importância para o regime político e para estabilidade da sociedade burguesa da existência de um forte partido identificado com a esquerda. Frias e a Folha se questionam qual seria o herdeiro da centro-esquerda no Brasil, um PT refeito ou um PSOL fortalecido (entre outras opções digamos “mixtas” com a moderação do PSOL como a própria Folha remarca). Porém, para além da análise o que o dono da Folha quer mostrar ao PT, ao PSOL e à direita, talvez a aqueles que pedem a extinção do PT, é que a existência de uma forte centro-esquerda no regime político é funcional à contenção da luta de classes, citemos: “Se existe algo de funcional aliás no antagonismo pendular entre direita e esquerda na história política moderna é que, sem aquela, a sociedade corre o risco de estagnar no atraso econômico e tecnológico, ao passo que, sem esta pode ser dilacerada pelas iniquidades sociais.

O Globo faz operação similar em seu editorial de hoje, porém toma como interlocutor o outro extremo do espectro político partidário. A Folha e o Estado, volta e meia, deixam antever suas plumagens tucanas escondidas, a família Marinho digamos, tem uma certa predileção ideológica pelo verde-oliva. O editorial “É bem-vindo o aumento da representação da direita” chama de “alvissareiro” os resultados dos conservadores, em particular da família Bolsonaro e, depois o exortam a respeitarem a constituição. Aqueles que aplaudem torturadores e falam pela volta da ditadura militar (que tanto ajudou a família Marinho a ser monopolista da mídia) o editorial se limita a exortar a respeitarem o que eles mesmo afirmam não respeitar. Mas tal como a Folha faz com o espectro à esquerda, o Globo vê como positivo para o país que estes ovos de serpente estejam eclodindo.

O Estado de São Paulo toma outro interlocutor em seu editorial, o centro da burocracia partidária e do regime político. Seu editorial “O modelo funciona” argumenta a favor do modelo de financiamento de campanha utilizado nessas eleições que favoreceu a eleição de milionários à la Doria. O editorial não nomeia essa conquista “civilizatória de Ralph Lauren”, mas foca em criticar aqueles que querem a volta do financiamento empresarial ou a criação de um “fundo eleitoral”. Advogam pelas eleições de gastos “espartanos”. Porém tal como em Esparta, sociedade altamente dividida, a disputa entre os melhores, mais bonitos e mais fortes, já tem vencedores de antemão que do berço os Éforos do capital já escolheram quais são dignos de viver, quais não. Deixemos o jogo como está, com as regras atuais já sabemos que os vencedores somos nós, esse é o recado do jornal da família Mesquita ao "centrão".

Para os jornais lições pela continuidade do status quo, e para nós?

Diálogo oculto de todos editoriais é a preocupação com a reforma política que irá tornar ainda mais difícil a possibilidade de representação da esquerda e dos trabalhadores, bem como uma preocupação com o crescente número de brasileiros que não vota ou anula. Quem organizará a insatisfação? Os Dorias? Os Bolsonaros ou a esquerda? Essa parece ser a pergunta abordada de três maneiras diferentes.

Para a esquerda, a crise do PT abre uma possibilidade de avançar em uma experiência superadora da conciliação de classes praticada por aquele partido. O debate carioca, com a Folha opinando que o PSOL está se moderando, é de importância nacional, que esquerda “viável” emergirá e com qual programa, com quais rostos?

O Esquerda Diário acompanha aqueles milhares que militam por Freixo esperançosos de assim combater a direita, o PMDB e os empresários, porém Freixo reedita vários elementos de conciliação com os empresários como o fez e faz o PT, como diz Carolina Cacau, colunista do diário que concorreu a Câmara de Vereadores naquela cidade “para realmente derrotar a direita precisamos erguer um programa anticapitalista e revolucionário. Um programa de enfrentamento com os empresários. Um programa que coloque no centro de suas preocupações a mobilização e organização de uma força que se enfrente com a raiz de nossos problemas: o capitalismo. E a força para isso são os trabalhadores.

Nestes dias de segundo turno e balanço das eleições está em jogo qual continuidade do atual estado de coisas teremos. Ou, por outro lado, que força antisistêmica, portanto anticapitalista e revolucionário erguemos na esquerda.




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