Teoria

ASSASSINATO DE ROSA LUXEMBURGO E KARL LIEBKNECHT

Escola sem política? Porque Karl Liebknecht defendia política revolucionária nas escolas

Neste mês em que recordamos e denunciamos o assassinato de R. Luxemburgo e K. Liebknecht [janeiro de 1919] pelas forças reacionárias da burguesia alemã [e seus aliados do socialismo reformista], em um momento em que se faz necessário conhecer e debater a obra daqueles dois revolucionários da III Internacional, pode ser oportuno debater, dentre outros, determinado texto de Liebknecht, texto tão atual que claramente parece estar debatendo contra a famigerada “escola sem partido” que o governo golpista trata de implantar no Brasil hoje.

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 20 de janeiro de 2017| Edição do dia

Ali, o grande revolucionário alemão e camarada de R. Luxemburgo, debatia contra a proposta da burguesia imperialista alemã, que queria desterrar das escolas qualquer debate político “subversivo”, nos marcos da ideia – tão familiar a todos nós durante a ditadura militar por estas bandas e agora reciclada por Temer – de que “estudante é para estudar” e não para ficar discutindo política [revolucionária] nas escolas, e não para desenvolver o espírito crítico contra tudo que existe, justamente para reproduzir o espírito de manada ordeira e obediente.

Pois bem, leiam, no longo trecho de um discurso do deputado Karl Liebknecht, no parlamento alemão em março de 1912, seus argumentos contra a despolitização das escolas e a alienação em estado bruto que a bancada reacionária [bisavós dos bolsonaretes e da bancada evangélica atual, no Brasil] tratava de impor na Alemanha, primeiro por lei, mais adiante pela força das armas dos bandos hitleristas.

Esse debate é sempre atual, enquanto exista capitalismo, até para que a juventude, a partir das armas da crítica, possa desenvolver seus instrumentos de massa, sua aliança com o proletariado e mudar as regras do jogo, não apenas o jogo mas o mundo como ele é, formatado pelo capital, através da crítica das armas.

Vamos a K. Liebknecht, revisitemos as ideias que as balas do socialismo reformista alemão [social-democracia] não mataram e jamais apagarão; e, ao final, emocionem-se com trecho de K. Liebknecht discursando, na rua, no filme R. Luxemburgo, 1986, de M. von Trotta].

“[...] O que vocês querem não é a despolitização da juventude, mas que ela seja politizada no sentido que lhes convém. Vocês não lutam para que a juventude não seja atirada nas engrenagens dos partidos, mas para ter o privilégio exclusivo de incutir à juventude suas concepções políticas. E como o movimento livre da juventude se opõe àquilo pelo qual vocês lutam, é que vocês lutam sob um disfarce, uma falsa bandeira. Sim, senhores, é um combate sob uma falsa bandeira que vocês desenvolvem, quando vocês vêm nos falar da despolitização da juventude, e é uma hipocrisia da pior espécie quando vocês, que politizam a juventude, mas no sentido que lhes interessa, vêm nos dizer: “ah, esta pobre juventude não está ainda em condições de fazer política sem colocar sua alma em perigo”!

Senhores, é preciso sempre e sempre denunciar suas enganações, e também a do sr. ministro dos Cultos e a do governo, nessa questão. Combatam então com o rosto descoberto, como era antes feito, ao que parece, entre os cavalheiros. Digam francamente: é uma luta pelo poder, uma luta pela conquista dos jovens.

Quando nós queremos precisamente politizar a juventude no sentido que nos convém, vocês querem politizá-la de outra maneira; assumam: “é por isso que nós, que temos o poder nas mãos, a utilizamos em nosso interesse, para abater o proletariado”. Reconheçam isso abertamente: é a verdade, e tudo o que é dito diferente disso não passa de mentira.

[...] Senhores, quando nos esforçamos para incutir na juventude a concepção de mundo que decorre naturalmente da situação do proletariado, não fazemos um pouquinho de política. Já através de vocês, os jovens proletários são levados, diretamente, à política de uma maneira muito característica. Eu gostaria ainda de assinalar isso: quando vocês conseguem, graças à lei sobre as associações e às ilegalidades cometidas nas atribuições de autorizações de ensino, tornar quase impossível à juventude qualquer atividade política e até mesmo qualquer atividade científica, vocês cometem uma grande injustiça e contribuem para agravar os antagonismos, e não para superá-los. Vocês não tenham nenhuma ilusão sobre isso.

Afinal de contas, o que haveria de mais natural a não ser a juventude proletária experimentar a necessidade de se orientar politicamente e socialmente, essa juventude que é jogada desde cedo na existência e se encontra, em virtude dela e da multiplicidade dos fenômenos sociais, em estado de luta e de defesa permanentes? A coisa mais normal que pode existir é que essa juventude tenha a necessidade de compreender a essência das coisas e procure, quando está mais constantemente oprimida e esmagada pela polícia, conhecer os defeitos de nossa legislação social e política, examinar também a situação cientificamente e formar uma concepção política, discutir as questões políticas, entender os discursos dos adultos a respeito desses assuntos. [...]

O proletariado, como categoria, nasceu para o combate, o combate é seu destino, é preciso formá-lo em função do combate. Não se pode evitar isso. Vocês gostariam que o educássemos para o sonho, para a docilidade da exploração, para a abjeta ignorância. Essa é a diferença que há entre vocês e nós. Nós queremos educá-lo em um espírito guerreiro, seguramente em um sentido mais nobre que vocês, não em um espírito chauvinista, para deixá-lo capacitado a atirar sobre pai e mãe, mas guerrear no sentido da luta contra todos os atrasos de nossa vida social e todos os perigos que ameaçam a juventude proletária, contra toda a reação que tem livre curso na Prússia e na Alemanha e que levanta a cabeça cada vez mais intrepidamente.

Nos recriminam por falarmos muito da história das revoluções. É possível, com efeito, que no periódico Juventude Operária fale-se mais da revolução do que nas revistas de vocês dedicadas à juventude. A razão é que, nas escolas, procura-se tanto quanto possível escondê-la, ou, quando se fala nela, é apenas num tom de zombaria, a menos que não se trate de uma revolução em alta e que, além disso, se coloque de um modo bizantino ad usum delphini [adaptando e revisando os textos, NT]. Então, para nós é preciso falar da história das revoluções, no interesse de uma boa formação da juventude. E como vocês poderão negar que os períodos revolucionários são os mais interessantes, aqueles em que a natureza da sociedade humana e sua estrutura são em alguma medida colocadas a nu e que, em consequência, são precisamente aqueles em que se reconhece em primeiro lugar as forças motrizes de toda a evolução humana?

Além disso, é o caráter heroico que se destaca nestas revoluções e que suscita o interesse da juventude do proletariado para essa parte da história. Heroísmo não de assassinatos, mas de devoção aos grandes ideais da humanidade, pelo desenvolvimento do gênero humano, e neste sentido há na história das revoluções algo de grandioso, de ideal, a que justamente aspira a juventude proletária. Apesar de todas as tentativas feitas para tiranizar intelectualmente sua própria juventude no seu ser mais profundo, ela se entusiasma ainda, como há cem anos, com os grandes cantos revolucionários que lhes oferece um Schiller, e a palavra impetuosa do seu livro : In tyrannos, [Contra os tiranos] que o poeta empregou em sua grande obra de juventude faz também bater mais forte os corações dos seus jovens. Está na natureza dos jovens sentir um vivo entusiasmo por tal fogo revolucionário e se vocês deixam sua própria juventude ler Schiller e se envolver nestas "doenças infantis" é porque têm a certeza de que ela voltará rapidamente ao curral. Mas se a juventude proletária faz a menor tentativa de adquirir a mesma dose de formação política e de liberdade de movimento que a de vocês, eis que a polícia, o ministro dos Cultos a ameaçam duramente; eles querem colocar a corda em seu pescoço. Mas isso não será fácil para vocês”. [Excerto de Rezem ou atirem, 1912].

Karl Liebknecht discursando em uma manifestação de rua na revolução alemã de 1919 [Rosa Luxemburgo aparece na multidão; do filme R. Luxemburgo, 1986]:




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