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Esboço sobre a dialética das transformações quantitativas e qualitativas

sexta-feira 22 de julho de 2016| Edição do dia

Nós que somos militantes ainda muito novos e inexperientes somos surpreendidos por vezes ao ver como determinados debates que percorreram a tradição revolucionária que nos precedeu se recolocam em momentos de agudização da luta de classes. É interessante ver, por exemplo, como os debates ganham uma lógica própria, que vai para muito além do que era inicialmente esperado. Fico impressionado como a partir de debate sobre determinadas questões políticas concretas, específicas, sobre quais as consequências de entender a realidade a partir desse ou daquele conceito para a política dos revolucionários tenhamos, nós muitas vezes tenhamos que entrar em uma série de discussões transversais, aparentemente abstratas e desligadas da política concreta, mas que são essenciais para que entendamos profundamente certas divergências ou convergências.

Fazendo uma pequena analogia histórica, guardando evidentemente todas as diferenças sobre a grandeza dos personagens envolvidos, também Trotsky no final de sua vida teve que entrar num debate com os militantes do SWP estadunidense sobre dialética a partir do debate bem concreto sobre a política dos revolucionários para a URSS frente à segunda guerra mundial. Penso que a necessidade e o reavivar-se desses debates nesse momento mostra que a teoria revolucionária, mesmo a aparentemente mais abstrata, é elemento essencial, fundamental, para pensarmos a realidade e concretude da luta de classes.

Nos momentos de aprofundamento dos debates políticos sempre tende a vir a tona novamente os debates sobre a dialética como instrumento essencial de compreensão da dinâmica da realidade social e de seus conflitos. A dialética se torna instrumento tão mais importante quanto mais se aceleram os tempos históricos e se aprofundam as contradições e embates da luta de classes. Apenas com essa ferramenta essencial, que inclusive transcende mesmo o papel de mera ferramenta, mas é parte da nova cosmovisão que expressa o proletariado, visão de mundo materialista/dialética/histórica, podemos ter as bases para nos armarmos teoricamente para enfrentar os novos desafios que a realidade nos coloca.

Um dos erros centrais a todos aqueles que se aproximam pela primeira vez dessa nova forma de pensar e compreender a realidade que é a dialética é a pressão a entendê-la não como uma ferramenta concreta que apreende a realidade em sua materialidade e objetividade, mas como uma sofistica onde "todos os gatos são pardos", onde qualquer coisa pode significar qualquer coisa, onde os conceitos não tem precisão, como num relativismo subjetivista pequeno-burguês, tão próprio à academia.

Essa forma equivocada de apreender a dialética como sofistica, como mero jogo de palavras e não como instrumento concreto para a apreensão da realidade concreta se expressa grande parte das vezes no entendimento da relação entre transformações quantitativas e qualitativas.

Do fato que as mudanças qualitativas se relacionam com as mudanças quantitativas de forma alguma decorre que as primeiras são a simples "soma das mudanças quantitativas”, por exemplo, como pensam muitos. A mudança de qualidade é SÍNTESE das mudanças quantitativas, representa sim um momento de ruptura, onde o acumulo das mudanças quantitativas não mais pode se expressar na antiga forma fenomênica, na antiga configuração, para ter que se transformar em outra coisa, totalmente diferente da anterior, apesar de evidentemente ter uma ligação com o anterior. Exemplos: a água em estado líquido que ferve e se torna vapor, a lagarta que em seu casulo se torna borboleta, a semente que em terra fértil se torna planta, o feudalismo que em condições históricas propícias se torna capitalismo, e poderíamos multiplicar os exemplos ao infinito. Ou seja, a partir do acumulo de uma série de mudanças quantitativas, dentro do mesmo estado ou forma, ocorre um momento em que esse acumulo não permite mais que a realidade anterior se reproduza dentro da mesma forma ou estado, tendo que se transformar em outra coisa, marcadamente diferente da forma ou estado anterior. A mudança qualitativa é uma verdadeira revolução nas formas anteriores, uma ruptura radical, e não apenas uma mudança quantitativa um pouco maior, como pensam alguns.

O conceito dialético da Aufhebung, conceito central, seminal, da lógica dialética,cujo termo alemão não tem uma tradução satisfatória para o português, contém e sintetiza o elemento da conservação, ruptura e superação. Assim, a transformação dialética da quantidade em qualidade é síntese desses 3 momentos, no qual a realidade objetiva anterior após uma série de transformações quantitativas deixa de ser o que ela era para ser tornar outra. Mas temos que ver entre esses 3 elementos quais são os predominantes, o momento predominante, para usar outro conceito da dialética materialista, ou se todos tem o mesmo peso na equação. Penso ser bem evidente que no momento de transformação qualitativa os momentos predominantes são ruptura e superação, sendo o momento da conservação momento determinado.

O filosofo marxista húngaro Georg Lukács, em sua ’Ontologia do ser social’ para apreender essa diferença entre transformações quantitativas e qualitativas propõe como uma das leis da dialética a de "continuidade na descontinuidade e descontinuidade na continuidade" o primeiro termo expressando as transformações quantitativas e o segundo as qualitativas. Assim, no momento de ruptura, de quebra, de revolução (ou contra-revolução) que significa a transformação qualitativa o que predomina é a descontinuidade, a mudança marcada, a transformação de uma coisa em outra.

Essa forma de entender a dialética como sofisma praticamente, como se entre as transformações quantitativas e qualitativas existisse uma diferença apenas subjetiva é a base metodológica, por exemplo, para a revisão que faz Nahuel Moreno da teoria da revolução permanente. Isso mostra, de forma bastante concreta, como um entendimento profundo da dialética é elemento fundamental da formação de uma efetiva organização revolucionária, posto que bases teóricas sólidas são essenciais para pensarmos o programa, a estratégia e tática corretos nos momentos mais agudos e dinâmicos que já vivemos e que tendem a se aprofundar cada vez mais.

Moreno, por exemplo, começa seu livro "Revoluções no Século XX", onde expressa de maneira mais clara e aberta sua revisão do trotskysmo, com um debate que apaga as diferenças entre reforma e revolução, entre transformações quantitativas e qualitativas, para terminar dizendo que são possíveis revoluções, transformações qualitativas, dentro do mesmo estado capitalista, ou seja, revoluções democráticas. Pra um melhor entendimento dessa questão remeto tanto ao livro do Moreno citado quanto a crítica que escrevi a ele para esse diário, principalmente a primeira parte, onde trato exatamente dessa questão metodológica.

O raciocínio daqueles que buscam apagar ou diminuir a diferença entre transformações quantitativas e qualitativas, ou torná-las apenas diferenças subjetivas, parte da mesma lógica do Argentino, pois se as diferenças entre transformações quantitativas e qualitativas perdem sua objetividade e concretude passam a ser possíveis transformações revolucionárias dentro do mesmo estado burguês, por exemplo, ou seja, pretensas revoluções democráticas.

Um último elemento ainda nessa questão metodológica sobre a dialética. Do fato que entre as diferentes formas do regime democrático burguês não exista uma transformação qualitativa se deduz que o regime democrático burguês é sempre igual a si mesmo, que a nossa forma de atuação, dos revolucionários, é sempre igual em qualquer configuração da democracia burguesa? Só pra quem não entende o ABC da dialética. As transformações quantitativas não são um pormenor, algo insignificante, mas mudanças reais, que reproduzem a antiga forma dentro de outras configurações. Pra dar um exemplo singelo, mas penso que plástico: a água a 5 graus ou a 50 graus não se transformou em vapor, não existe ainda transformação qualitativa; isso quer dizer q nossa atitude para com a água no fogo é igual não importa qual sua temperatura antes da fervura? Evidente que não.

Entender esse elemento metodológico da ferramenta que é a dialética e que é um erro ver transformações qualitativas na reprodução da mesma forma, mesmo que com diferenças, para a compreensão da realidade é essencial para podermos nos aprofundar de forma mais consciente e com maior clareza no debate mais propriamente político.




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