Internacional

DEPOIS DO GOLPE FRACASSADO

Erdogan mede suas forças ante um milhão de manifestantes na Turquia

Depois do golpe fracassado, Recep Tayyip Erdogan reuniu mais de um milhão de pessoas em Istambul. Discurso de unidade nacional para dentro, tensões com a União Europeia.

terça-feira 9 de agosto| Edição do dia

A quase um mês da tentativa de golpe de Estado na Turquia, mais de um milhão de pessoas se reuniram no domingo em Istambul. A manifestação foi convocada pelo presidente turco, Tayyip Erdogan, para condenar a fracassada tentativa de golpe de Estado por um setor do exército, em que morreram ao menos 246 pessoas e mais de 2.000 ficaram feridas. Foi uma marcante demonstração de forças de unidade nacional em apoio a Erdogan em meio às críticas desde o “ocidente” sobre os “expurgos” e detenções generalizadas. a mobilização foi convocada sob o slogan “pela democracia e os mártires" caídos lutando contra os golpistas no último 15 de julho, e aconteceu no distrito de Yenikapi, ao sul de Istambul. Esta marcha marca o ápice das três semanas de manifestações noturnas dos seguidores de Erdogan, nas praças em todo o país.

Se bem a concentração estava colocada como um ato que reuniria os principais líderes políticos do país, se transformou em uma nova e exagerada reafirmação da figura de Recep Tayyip Erdogan. Inclusive chegando ao punto de compará-lo com o fundador da Turquia moderna, Mustafa Kemal Atatürk. Podia-se ler cartazes que diziam "Você é um presente de Deus, Erdogan" ou "Nos mande morrer e o faremos". É a primeira vez em décadas que importantes partidos opositores se somam a uma mobilização em apoio ao governo. Com a exceção do partido HDP (pró-curdos) que não foram convidados a participar, mas em troca organizaram suas próprias manifestações nas cidades em que são fortes sob o lema “contra os golpes, democracia imediatamente”.

Diferente da marcha de 24 de julho, Erdogan e o AKP passam a controlar completamente as mobilizações, afogando as críticas da imprensa e posicionando-se como garantidores da unidade nacional.

Em seu discurso prometeu continuar a luta contra as “organizações terroristas, sejam o (grupo armado curdo) PKK, o Daesh (Estado Islâmico) ou FETÖ”, a suposta rede estabelecida pelo clérigo turco Fethullah Gülen, exilado nos EUA. O clérigo, ex-aliado de Erdogan, é acusado de ser o cérebro do levantamento militar e quem o governo turco prometeu levar ante a Justiça. Além disso, Erdogan reiterou seu apoio à reintrodução da pena de morte. Também afirmou que continuará com a “limpeza” de seguidores de Gülen na Administração do Estado – em um expurgo que já custou o posto de mais de 60.000 funcionários.

Tensão com a União Europeia pelo acordo migratório

Desde o “ocidente” mostram a preocupação pelas políticas do governo turco depois da tentativa de golpe, que combinou com uma ofensiva em expurgos massivos sobre o exército, a justiça, funcionários públicos, escolas e universidades, além da tentativa de reintroduzir a pena de morte.

Nestes marcos, o acordo migratório da Turquia com a União Europeia [UE] poderia fracassar se o bloco não cumpre seu compromisso sobre as isenções de passaporte, disse o presidente turco Tayyip Erdogan. Em Berlim afirmam que "não há lugar na Europa para um país que aplica a pena de morte" e lembraram que as conversas com Ankara para sua incorporação ao bloco comunitário tem um "final em aberto".

Desde o golpe fracassado, Erdogan mostra uma mudança de postura com seus aliados da União Europeia acusando que “não estão comportando de uma maneira sincera com a Turquia", ressaltando que “a isenção de passaporte para os cidadãos turcos deveria ter começado a vigorar em 1 de junho”.

O governo turco, aproveitando seu lugar geográfico e estratégico, fechou acordo em março para impedir os imigrantes que cruzem para a Grécia em troca de ajuda financeira, a promessa de viagens sem passaporte a grande parte da UE e conversas aceleradas sobre a entrada no bloco econômico e político.

No entanto, o acesso recíproco sem passaporte demorou devido à “preocupação” das principais potências europeias sobre a escalada das políticas tomadas pelo governo turco depois do golpe de Estado fracassado.

Criticando a resposta de Washington e de líderes europeus à tentativa de golpe, Erdogan disse que o povo turco tinha sido abandonado pelo ocidente.

A UE, além de fazer públicas suas diferenças sobre os “expurgos” a grande escala que o Executivo turco está levando a cabo na administração depois do golpe, enfatizou várias vezes que a pena de morte é incompatível com o direito comunitário europeu.

Tradução: Francisco Marques




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