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Equador: segunda paralisação internacional de entregadores. "Pelo nosso presente e futuro laboral"

A ação foi realizada simultaneamente nesta sexta-feira na Argentina, no México, na Guatemala, no Peru, na Costa Rica e no Equador. Um ótimo exemplo de como a luta se dissemina.

sábado 30 de maio| Edição do dia

"Eles chamam de nova economia, mas é a antiga exploração", é o que diz um dos cartazes colados fora do barracão da Glovo, na cidade de Quito, Equador. Nesta sexta-feira, 29 de maio, foi a segunda Paralisação International de Entregadores, convocada em 6 países da América Latina: Argentina, México, Guatemala, Peru, Costa Rica e Equador. Uma ação transfronteiriça que busca tornar visíveis as demandas dos entregadores e denunciar a extrema precarização no trabalho que são submetidos.

No Equador, as economias de aplicativo chegaram em 2016. O Cabify foi a primeira e, em 2017, os motoristas da Uber. Enquanto os aplicativos de entrega apareceram em 2018 com Uber Eats e Glovo. O Rappi, no final de 2019. Desde o início, esses modelos econômicos geraram exacerbada flexibilidade trabalhista e a violação de direitos fundamentais, como o acesso à seguridade social, tudo isso por trás do discurso da autonomia e do empreendedorismo. Além disso, a maioria das pessoas que trabalham nesses aplicativos são imigrantes, que também devem enfrentar diariamente o racismo e a xenofobia. Em outras palavras, há um entrelaçamento de opressões que passam por essa atividade laboral.

Os entregadores de delivery recebem de acordo com os quilômetros percorridos; isto é, cada quilômetro percorrido está sujeito a uma tarifa estabelecida pela empresa. No entanto, desde novembro de 2019, a situação dos entregadores começou a piorar quando houve uma redução significativa nas taxas que ganhavam por quilômetro percorrido. E como se isso não bastasse, meses depois, com a chegada da COVID-19 e o isolamento obrigatório, a atividade de entrega tornou-se essencial no país, possibilitando que as pessoas que desfrutam de um privilégio de classe cumprissem com a #FiqueEmCasa, enquanto alguém traz comida em sua porta. Com a pandemia, a Glovo decidiu aumentar a taxa para os clientes, mas não fez o mesmo com os pagamentos dos entregadores. Como um colega de entrega nos diz: “enquanto eu ganho 0,80 dólares (aproximadamente 4,30 reais - N.T.) com uma motocicleta, o cliente é cobrado em aproximadamente 3 dólares (aproximadamente 16 reais - N.T.). Em outras palavras, o cliente é cobrado a mais e nós recebemos menos.”

Uma das demandas da paralisação internacional é o aumento de 100% na taxa de remuneração. Sabendo que os entregadores estão na linha de frente do contágio, expostos desde o primeiro dia de isolamento; colocando em risco a própria vida e, é claro, a de suas famílias que dependem deles e dessa atividade. De fato, já foi relatada a primeira morte de um entregador em Quito. Algo que seus companheiros nos dizem com muita tristeza e indignação. “No início da pandemia, a Glovo não nos forneceu nenhum tipo de insumo de biossegurança, após as mobilizações, nos deram um kit por semana. Um kit não é suficiente! Este kit mencionado pelo companheiro de entrega contém um frasco de gel antibacteriano, uma máscara e um par de luvas cirúrgicas. Equipamentos que duram um dia, mas a plataforma fornece uma vez por semana. Em outras palavras, para se proteger do contágio, os entregadores precisam comprar seus próprios suprimentos, enquanto os que administram as plataformas permanecem confortáveis ​​e seguros em casa, em outros países, esperando seus lucros.

O tempo passa e mais entregadores estão chegando ao protesto. Eles colocam cartazes em suas mochilas e motocicletas, contam-nos suas demandas e se preparam para sair em uma caravana. Uma jornada ao Ministério do Trabalho como um ato simbólico, para exigir que o governo seja o responsável por regularizar as plataformas e reconhecê-los como trabalhadores com direitos trabalhistas. Exigem previdência social, salário, pagamento de décimos (décimo terceiro e décimo quarto salários - N.T.) e participação nos lucros, pois, como um entregador nos diz: "A Glovo está ganhando mais dinheiro porque a pandemia e as empresas lucram todos os anos e isso não é distribuído aos trabalhadores". Então a caravana continua até os escritórios da Rappi, porque essa luta é dos entregadores de todas as plataformas; todos precarizados.

Outra demanda é a reabertura das contas bloqueadas das companheiras e companheiros. Os aplicativos bloqueiam contas todos os dias e os entregadores denunciam que o fazem em retaliação aos que reivindicam e que estão organizados. Isso demonstra a falsa autonomia e liberdade que essas multinacionais alegam. Outra questão que relatam é a dos acidentes constantes nas ruas, as plataformas não os filiam ao IESS (Instituto Equatoriano de Seguridade Social) e, em caso de acidentes, o seguro que essas plataformas oferecem é insuficiente para cobrir os danos de suas motos ou bicicletas, muito menos para as despesas médicas. Um colega mostra como as economias de aplicativo colocam o capital no centro, mas não a vida dos trabalhadores: “Quando você relata um acidente, a primeira coisa que perguntam é: como está o pedido? Não os interessa como estamos ".

Ao meio-dia, a caravana termina, mas a luta continua e continuará até que os camaradas trabalhadores de aplicativos sejam reconhecidos como tal, pelas leis nacionais. No entanto, é interessante a extensão e a repercussão desses protestos dos trabalhadores de aplicativos que ecoam em outras partes do mundo e em toda a região, apontando que as violações do capitalismo sobre a vida transcendem as fronteiras. Em diferentes países da América Latina, os entregadores estão se organizando. Também aumentam os diálogos transnacionais e as ações conjuntas. Hoje, no Equador, os entregadores distribuíram cartas ao Ministério do Trabalho e à Administração da Glovo, solicitando uma agenda de diálogo para analisar as medidas de segurança do trabalho no âmbito da pandemia. Eles já têm assessoria jurídica e articulam ações em todas as frentes porque "também somos seres humanos, por trás de cada solicitação há uma história, uma vida, e merecemos dignidade".

* A autora é ativista e pesquisadora feminista, membro do Observatório de Plataformas e do Parlamento Plurinacional e Popular de Mulheres e Organizações Feministas.




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