Internacional

COLAPSO SANITÁRIO

Equador: A herança do neoliberalismo e o autoritarismo massacram o povo novamente

O número de mortos triplicou no país nas últimas semanas, o número de corpos sem destino escancara mais uma vez o descaso de Lenin Moreno e as consequências de um sistema de exploração e precarização sistêmicas. Em meio a isso, é de se perguntar o que pode gerar a catástrofe atual frente à memória dos enfrentamentos de 2019.

sábado 18 de abril| Edição do dia

Foto: JOSE SANCHEZ / AFP

Nas últimas semanas todos ficamos aterrorizados com a situação que se encontra o Equador: pessoas mortas em meio às vias públicas, corpos sendo queimados, famílias colocando seus mortos nas ruas por não aguentar mais o cheiro da putrefação, uma terrível barbárie causada pela crise sanitária. A situação mostrou o despreparo do país para enfrentar a pandemia do COVID-19, fato assumido pelo próprio Presidente Lenin Moreno. Ao mesmo tempo em que colapsou o sistema de saúde equatoriano, também ocorreu o colapso do sistema funerário do país. Esse descaso vem de forma devastadora para a população pobre e trabalhadora equatoriana.

A região mais atingida no país se encontra na província de Guayas, com epicentro na cidade de Guayaquil, com 2,3 milhões de habitantes, e nesta quinta-feira, dia 16, foi registrada a triplicação do número de mortes. Uma tragédia para a população mais pobre da região, que paga as duras consequências da crise sanitária. O governo decretou toque de recolher como tentativa de frear a contaminação no país - relembrando a militarização e repressão de 2019. Essa medida ainda agrava a crise do setor funerário, somando-se ao fato de que muitas empresas já deixam de prestar seus serviços por temer o contágio de seus funcionários, indicando que estas não têm os materiais de proteção necessários para os trabalhadores.

Para se ter ideia do tamanho da situação, nas últimas semanas foram retirados mil e quatrocentos corpos. 800 destes corpos foram recolhidos nas próprias casas. Em meio ao caos do sistema, com diversas famílias tendo que conviver dias trancados com seus parentes mortos, aumentando as chances de contágio e a dramaticidade da situação, o governo acionou a força militar e policial para recolher os cadáveres através de uma força-tarefa criada pelo governo, comandada por Jorge Water.

É emblemático o que um brasileiro, residente no país, relatou ao G1: que pelo número de corpos nas ruas, há urubus nos céus de Guayaquil, e à tarde pode ser visto a fumaça dos corpos sendo queimados nos cemitérios. Afirma se sentir em um filme de terror, um apocalipse. Podemos dizer, sem medo de errar, que nesse filme o vilão é o capitalismo: um sistema que submete uma população historicamente explorada e oprimida a essa situação horripilante.

Essa situação caótica do povo trabalhador não é um resultado da crise sanitária, é resultado de anos de despotismo neoliberal. Por anos de políticas de austeridade, privatismo e aumento do autoritarismo estatal, que proporcionaram uma cidade sem nenhuma infraestrutura para combater o avanço do vírus. A população mais pobre tem descarregado sobre seus ombro o peso de anos de precarização.

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Em meio a isso, os trabalhadores, além de se preocuparem com os riscos à saúde e viverem com a dúvida constante de se estão infectados ou não, são submetidos à não saberem em que situação ficarão o seus corpos caso o pior ocorra. Uma pressão psicológica constante que, entre os transtornos de ansiedade e depressão que gera, também diminui a imunidade da população.

A experiência do levante indígena contra Moreno e o imperialismo no ano passado

A população equatoriana, em 2019, já havia sentido uma forte repressão do governo, onde foram responsável por um dos grandes levantes na América Latina. Naquele momento, o interior do país e a cidade de Quito foram palco de heróicas batalhas do povo indígena, dos trabalhadores e da juventude urbana contra a repressão do governo de Lenin Moreno e o pacote do Fundo Monetário Internacional. Hoje, o povo sofre as duras penas da crise sanitária, vítima de um sistema sanguinário que, mais uma vez, mostra toda a sua tirania e crueldade. No Equador, fica claro toda a forma brutal em que se estruturou a sociedade latinoamericana no capitalismo internacional. Como antiga colônia, a América Latina continua inserida no circuito internacional através do desejos do capitalismo central, submetendo o povo a uma exploração contínua e condições de vida horríveis.

Os povos indígenas do Equador, ao lado da classe trabalhadora e dos setores populares e da juventude da cidade de Quito, foram protagonistas de uma grande luta diante do autoritarismo do governo de Lenin Moreno e sabem que um governo genocida e cruel não se pode esperar nada. Agora, diante da crise sanitária, não é diferente. O governo de Moreno não irá salvar a nenhum dos seus cidadãos pobres, trabalhadores ou indígenas, de cujo trabalho depende a própria existência do governo e dos capitalistas nacionais e internacionais a quem serve.

Outro aspecto de 2019, que determinou o atual cenário do país e que pode ter consequências no desenvolvimento da crise atual, foi a traição da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE), que alçou-se como direção do movimento em suas últimas semanas e em seguida sentou para negociar com Moreno. Como resultado, o “fora Moreno” que se ouvia nas ruas foi completamente ignorado e, em troca da revogação do aumento dos combustíveis, as mobilizações foram suspendidas mesmo sem sequer a soltura dos presos políticos ou a retirada do exército das ruas. Os feridos e mortos na luta contra o FMI e o governo equatoriano, assim como a traição das direções indígenas não foram esquecidos pelas bases, uma indignação que pode ganhar novas formas de expressão diante da crise atual.

Só a classe trabalhadora equatoriana pode oferecer uma saída

Como dissemos anteriormente, os levantes populares de 2019 foram protagonizados majoritariamente por setores indígenas, não tendo o apoio e liderança necessários da estratégica classe trabalhadora urbana - à exceção do exemplo de Quito - o que não permitiu o desenvolvimento de uma alternativa popular clara à Moreno e a ordem capitalista. Cabe agora aos trabalhadores urbanos equatorianos - principais vítimas do vírus e da ganância capitalista - em aliança com o combativo povo indígena, apresentarem uma alternativa de independência de classe e fazerem com que os grandes empresários e os políticos lacaios do imperialismo paguem pela situação em que colocaram o povo.

A culpa da crise em que estão submetidos não é dos trabalhadores que movem o país e não deve ser paga por estes ou por qualquer outro setor nacional oprimido. Enquanto a massa sofre todo o peso da falta de soluções reais para a situação, os capitalistas lucram sobre suas vidas e a extração dos recursos naturais equatorianos. São anos de exploração e massacre sendo cristalizados na crise sanitária. A cidade de Guayaquil é o centro econômico do país, apresenta-se ao resto do território como “um modelo a ser seguido”, mas, como uma escultura com pés de barro, cai sobre sua própria estrutura, degradada pelo parasitismo da elite racista e do imperialismo.

É necessário um plano estatal de emergência, onde os recursos do estado sejam colocados a serviço de enfrentar a crise sanitária, aumentando o orçamento da saúde e garantindo os produtos e insumos essenciais de segurança para os trabalhadores. Aos empresários, que se aproveitam da população, devem pagar impostos progressivos para se obter recursos suficientes para os hospitais e para o financiamento de um “salário de quarentena” para cobrir o custo de uma cesta básica. É urgente a suspensão do pagamento da dívida pública equatoriana e de todas as tarifas de aluguéis e serviços básicos, como água, luz e telecomunicações, assim como proibir as crescentes demissões.

Veja também: Situação devastadora no Equador por causa da COVID-19

São necessários testes em massa para que possam efetivar-se medidas de isolamento e tratamento racionais, pois a reclusão indiscriminada - uma medida medieval - e a repressão policial não apresentam uma solução. Os trabalhadores urbanos e rurais têm o direito de saberem se estão contaminados e devem ter licença médica remunerada garantida. Para combater o vírus, o redirecionamento de toda a produção é essencial para fornecer desde produtos de proteção pessoal à produção e distribuição de alimentos para toda a população em estado de miséria. São exemplos de bandeiras fundamentais que deveriam ser erguidas neste momento, medidas urgentes para salvar os povos originários e os trabalhadores do país da calamidade de que os grandes empresários e o governo são coniventes!

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