8 DE MARÇO / Cartas contra a medicina do capital

“Epidemia” de cesarianas: a medicina comercial contra o corpo da mulher?

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 5 de março| Edição do dia

O capitalismo vem avançando no Brasil, naquilo que poderíamos chamar de desrespeito ao corpo da mulher. Isso em várias áreas. Tomemos uma delas: o parto natural, fisiológico.

Nas recentes décadas, a medicina obstétrica vem convencendo à mulher grávida - através da corporação médica e seus interesses de ganhos capitalistas – de que o melhor parto é o cirúrgico. Muitas mães foram se convencendo, também através da mídia que ecoa aquela pressão médica, de que o parto natural, fisiológico, é coisa do passado, obsoleta.

Daí decorre o absurdo boom de cesarianas no Brasil. Aquilo que seria uma exceção, para situações de parto de risco, passou a ser regra.nossa hipótese, aqui, é de que quando a cesariana praticamente ocupou o lugar do parto normal, estamos diante de um desvio “médico” derivado de uma realidade mais forte, que podemos chamar de medicina do capital.

Por definição, o parto é um processo fisiológico, normal, e para o qual a espécie humana – o corpo da mulher – adaptou-se, da forma que foi possível, através de um longo tempo evolutivo.

Apenas em casos excepcionais podem surgir complicações que justifiquem uma intervenção cirúrgica. Deste ponto de vista, seria uma definição muito forçada pensar o parto como um processo cirúrgico a ser executado com bisturi, anestesia e internação hospitalar no parto. Com óbvio impacto sobre a criança e o útero, que será cortado e suturado [ao contrário do parto normal]. E em um procedimento cujo risco de mortalidade para a mãe não é zero.

Em vários países a cirurgia cesariana só é indicada raramente, uma vez em cada dez partos, por exemplo. Na Holanda, a taxa de cesáreas não passa de 10%. Nos Estados Unidos, não chega a 20%. Mesmo sendo países capitalistas. [Na verdade, imperialistas, cuja riqueza vem da espoliação da sua classe trabalhadora mas também de países como o nosso, semicolonizados por aqueles].

No entanto, de acordo com relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) divulgado em 2015, o Brasil apresenta a maior taxa de cesarianas do mundo e Goiás é o Estado campeão em cesarianas no País. No Brasil, a taxa vai a mais de 52% e em Goiás chega a mais de 65%. De acordo com estes números, é possível, portanto, que o lugar do mundo onde menos ocorrem partos naturais seja Goiás.

Ou a mulher brasileira - e a goiana em especial – possui uma anatomia [uma bacia, no caso] fora dos padrões da espécie humana ou o capitalismo, no Brasil, andou mais algumas casas no seu ataque ao corpo da mulher. Já faz isso com a proibição do aborto e também com outras opressões contra a mulher.

Vamos reiterar uma questão bem simples.

Se a medicina obstétrica fosse realmente científica até o fim, se não estivesse comprometida com interesses de lucro, teria que perguntar a si mesma: seria a mulher brasileira dotada de uma anatomia diferente, quem sabe uma bacia ou um canal de parto que não mais dão conta do parto natural? Estaria a mulher brasileira em um processo de involução, antropológica, biológica, que pode terminar transformando o parto em uma espécie de doença a ser tratada apenas cirurgicamente?

O problema pode, no entanto, ser pensado em outra perspectiva.

Se buscarmos o exemplo de economias que, mesmo burocraticamente, expropriaram o capitalismo, a taxa de cesarianas caiu por lá. Na ex-URSS dos anos 1970, chegou-se ao parto mais humanizado do mundo [com o dr Igor Charkovski], um avanço logo soterrado pela mesma burocracia restauracionista.

Mas e o Brasil? É possível - de qualquer ponto de vista que se examine a questão -, que alguém possa defender o ranking do Brasil, como campeão mundial de cesarianas?

Década após década, o Brasil foi se tornando cada vez mais rico para as classes altas e setores das médias. Pois bem, quanto mais rica ficava a elite brasileira, e mais pobre ficava grande parte da classe trabalhadora, mais o parto passava a ser tratado como uma doença a ser resolvida cirurgicamente e de alto custo. Mercantilização da medicina a mil.

E a mulher? E seu corpo?

Ora, aquilo que os doutores não gostam de divulgar e nem de admitir, e que as pesquisas indicam é que na cesariana a mulher está mais sujeita a ter infecção, a recuperação é mais lenta, o bebê é necessariamente separado da mãe ao nascer, e, segundo o próprio relatório do TCU, adotar uma “alta proporção de cesarianas não apresenta benefícios adicionais e pode provocar maiores taxas de mortalidade e complicações para a saúde”. E para a mãe que fez cesariana, próximo parto quase que obrigatoriamente terá que ser cesariana, em consequência da primeira cirurgia no útero.

E aquela avaliação foi de parte de um tribunal; se for feita uma avaliação médica séria, os problemas da cesariana para a mãe, o filho e seu alto custo, vão ganhar seu real significado, bem pior.

Uma notável pesquisadora da Fiocruz, a dra. Maria do Carmo Leal, a mesma que declarou que “a melhor maneira de nascer ainda é o parto normal” para a mãe e o bebê, também denunciou que no Brasil o modelo de atenção ao parto normal é extremamente medicalizado e que no setor privado a taxa chega a quase 90% de cesáreas e que estas constituem um procedimento cirúrgico com riscos tanto para a mãe quanto para o bebê, gerando riscos futuros também. (Ver Deutsche Welle de 16/11/2014, Brasil campeão de cesáreas). Grifo nosso.

Portanto, aquele paradoxo brasileiro levanta novas questões: a quem interessa essa epidemia de cesáreas? Que tipo de processo econômico está ocorrendo com a medicina brasileira? A nossa medicina está sendo mais humanizada ou mais “mercenarizada”? Será que é humanamente e clinicamente válido defender essa medicalização do parto?

Ou por outra: será que é bom – inclusive para os bebês – que o parto deixe de ser um processo fisiológico da mulher, em que ela seja protagonista da ação e o médico um facilitador do processo, que proporciona conforto ao parto normal ou não? É bom que o parto seja tratado como mercadoria?

Este debate deveria ser urgentemente abraçado pelas organizações dos trabalhadores, em especial os de saúde.

Brasília 5/3/2018

[Crédito de imagem, modificada: www. Yahoo. Com/ News/ brazil-rules-seek-cut-cesarean-craze]




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