Política

CHINA-EUA / Militarismo

Enxame de centenas de drones chineses assusta Pentágono

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 1º de dezembro| Edição do dia

Há pouco tempo, os chineses comemoraram o fim do ano novo lunar chinês [que vai até fevereiro de 2018] e promoveram a maior demonstração já vista de uma formação de drones – um enxame de centenas e centenas deles – em pleno ar, multicoloridos, todos ao mesmo tempo, uma nuvem de mil drones em perfeita coordenação de vôo.

Era apenas mais uma festa anual chinesa, mais uma data comemorativa tradicional, o ano do galo, uma festa civil de queima de fogos? Sim, mas que deixou a direita norte-americana de orelha em pé; não viram nada de inocente nem tradicional naquela demonstração dos drones chineses em formação perfeita, com suas lanternas vermelhas, azuis e violetas diante de uma multidão impressionada.

Tanto assim que “Elsa Kania, ex-analista do Pentágono e especialista em tecnologia militar da China, referiu-se à performance como uma ´demonstração de técnica de enxame´ com claras aplicações militares. A exibição dos drones foi uma ilustração perfeita dos avanços da China no desenvolvimento de ´tecnologias de dupla utilização´ - com aplicações tanto militares quanto civis”[grifo nosso].

Esta citação acima é do Valor Econômico de ontem [30/11/17] com o título de China avança rapidamente no uso militar de IA [inteligência artificial].
Isto é, o espetáculo público de mil drones chineses voando ao mesmo tempo em perfeita ordem, trouxe um susto para o stablishment militar imperialista.

Denunciaram que os chineses estão avançando em sua revolução militar e que podem quebrar o tal “equilíbrio militar” na Ásia. Assim se pronunciou no Congresso Nacional dos Estados Unidos uma pesquisadora de segurança militar deles:

“Kania, pesquisadora do centro de estudos Center for a New American Security, disse na audiência no Congresso que as Forças Armadas chinesas querem usar tecnologias de dupla utilização, incluindo drones, inteligência artificial e automação, como ´forças multiplicadoras´ de seu poder militar. Se o Exército chinês dominar essas tecnologias, isso poderia alterar o equilíbrio militar na região da Ásia-Pacífico e intensificar a dor de cabeça na esfera militar para EUA, Japão, Coreia do Sul e aliados”.

Essa é a preocupação dos “senhores das armas” norte-americanos.
E que obviamente usarão a notícia como pretexto para acelerar sua própria revolução em termos de gadjets e inteligência artificial para a sua guerra permanente contra os povos do mundo.

Para o imperialismo, os drones são a ponta do iceberg. Acreditam que a China vem potencializando seu poderio militar com o que eles chamam de tecnologia de dupla utilização, isto é, criam um produto avançado civil, mas já concebido com intenções militares, para seu uso também militar.

Por isso, a mesma articulista, preocupada com tecnologias militares futuristas de parte da China [coisa que os norte-americanos desenvolvem todos os dias, mas que silenciam a respeito: querem seguir com o monopólio do seu poder de fogo incontrastável] denuncia:

“Enxames de drones são apenas o começo. Entre outros tipos de armas avançadas que vêm gerando preocupação no Pacífico estão bombas guiadas por laser, bloqueadores que interferem nas comunicações por satélite, armas de feixes de partículas e instrumentos de destruição eletromagnéticos e de micro-ondas. Richard Fisher, analista do International Assessment and Strategy Center, identificou lasers de fibra ótica chineses - tecnologia vital para satélites de combate com lasers - numa exibição neste ano em Abu Dhabi. Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a supremacia militar dos EUA deixou de ser algo incontestável - um fato com implicações enormes para a economia dos EUA e suas alianças de segurança pelo mundo” [grifo nosso].

Ou seja, o imperialismo norte-americano, hoje distante do seu equilíbrio mundial anterior, especialmente de antes da crise desencadeada em 2008, terá que lidar com a potência industrial chinesa - nos marcos de uma economia em recessão global – que desenvolve seus próprios interesses geopolíticos. Não foi acidental que D. Trump ao ir recentemente à China, tenha evitado qualquer pronunciamento antichinês, ao contrário do que prometia em sua campanha eleitoral. Há uma situação instável, geopoliticamente instável, mas que os Estados Unidos não controlam, como foi possível no auge da sua hegemonia pós-II Guerra. Na verdade, procuram uma saída para assegurar sua hegemonia em crise relativa.

Por essa mesma razão o articulista se ocupa de citar publicações chinesas. Diz, por exemplo, que:

“Novas tecnologias talvez deem características ´silenciosas, intangíveis e não tripuladas às guerras do futuro´, segundo a edição mais recente do manual militar chinês ´A Ciência da Estratégia Militar´. A China vem acelerando a pesquisa dessas opções militares, em parte devido a suas estimativas de como serão as forças militares dos EUA no futuro. Um estudo citado em 2016 pelo jornal oficial do Exército de Libertação Popular sugere que em 2040 os robôs e outros sistemas sem presença humana vão superar o número de pessoas nas Forças Armadas americanas. Os conflitos de hoje cada vez mais acontecem no que o jargão militar rotulou de ´zona cinza´. No passado, as guerras eram travadas entre governos ou grupos fáceis de se identificar e com motivações claras”.

A seguir afloram suas próprias preocupações imperiais, intervencionistas:
“Em fevereiro, um estudo chamado ´China’s Technology Transfer Strategy´ detalhou os riscos de que a China possa ter acesso às ´joias da coroa da inovação dos Estados Unidos´. Feito pelo DIUx, braço do Departamento de Defesa dos EUA, o estudo descreve um futuro no qual as cadeias de abastecimento de serviços e equipamentos militares dos EUA estarão cada vez mais sob controle de empresas chinesas”.

Sua preocupação - que é a cara da crise atual – tem a ver com o fato de que os Estados Unidos, por mais que injetem recursos públicos na economia, para salvar as grandes corporações, não saem do pântano econômico; tanto que a proposta daquele jornal, é a de que os Estados Unidos deveriam se ocupar mais com investimentos em ciência ... para a guerra.

Em suas palavras:

“Ironicamente, um motivo pelo qual a China obteve avanços tão impressionantes é justamente por ter adotado um modelo que vem sendo negligenciado nos EUA, onde as Forças Armadas tiveram por muito tempo laços próximos com universidades e empresas privadas. Além disso, enquanto o financiamento à ciência vem sendo alvo de frequentes cortes de orçamento nos EUA, isso não ocorre na China”.

A verdade é que com a crise da grande empresa neoliberal, da globalização, mergulhados na grande crise econômica que se arrasta há quase dez anos, sem uma saída antiglobalização na agenda, o mundo capitalista vive mais uma era de incerteza, de iminência de guerras, também de revoluções, de demanda de uma esquerda dos trabalhadores que dê a saída que as potências militaristas do capital não podem oferecer para a humanidade.
[Crédito da imagem - modificada - é do site bits.blogs.nytimes.com]

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Se você quer ter uma pálida ideia do que sejam mil drones de alta tecnologia e piscando multicoloridas luzes, veja uma muito pequena amostra com apenas 30 deles, de baixa tecnologia, em vôo [no dite do videohive.net = Group of UAV Drones Flying in Sky:




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