Política

POVOS INDÍGENAS

Entrevista exclusiva com Wera Xondaro, vice-cacique da aldeia indígena Guarani

Neste artigo você poderá conhecer um pouco mais sobre os guaranis, bem como se inteirar de suas denúncias. Acompanhe pelo Esquerda diário o desenrolar da luta dos povos indígenas em todo território nacional.

segunda-feira 18 de setembro| Edição do dia

O carro pegou estrada. Sim, para chegar até a aldeia dos guaranis, há um trecho de estrada. Em frente à entrada do parque Estadual do Jaraguá, uma segunda entrada que dá para algumas casas dos indígenas. Suas casas são simples e pequenas. Um pouco melhor que um barraco de favela.

Encontro uma mulher indígena: “Olá, gostaria de falar com o Davi, pois combinei com ele de fazer uma entrevista”, ao que ela me responde: “Ele não está aqui, está na outra aldeia”. Ao lado dela, uma menina indígena de no máximo 9 anos olha para mim ressabiada.

“Vai com ela até lá” pede a mulher. A menina desconfiada olha para mim e depois para a mulher e acena com a cabeça que não. “Você tem medo? Não precisa ter medo eu também sou índia” digo olhando para ela. Após essa afirmação a menina segue e entra no carro.

O carro segue e a garota dá todas as coordenadas. Depois de uns cinco minutos chegamos em uma estrada de terra. “É só seguir direto essa estrada”, diz a menina. O carro vai seguindo e quando estamos perto de uma curva um outro carro com algumas pessoas desconhecidas passa por nós desconfiados. Peço para o uberista abrir o vidro. Olho para o motorista e digo: “Sou a Keyth do Esquerda Diário e estou aqui para fazer uma entrevista com o Davi”. Um sorriso e os carros continuam seu caminho.

Logo adiante chegamos ao local. Uma aldeia com aproximadamente umas 5 casas cercando um espaço natural rústico, porém muito bem cuidado. Uma mesa grande à esquerda onde provavelmente fazem as refeições. A menina fora chamar Davi a meu pedido.

Observo que as casas que cercam a aldeia fazem um círculo e os indígenas encontram-se no meio do espaço que é relativamente grande. Observo uma roda com indígenas no final do espaço natural, com muitas árvores e outros indígenas sentados em frente às casas, e entre eles, uma mãe amamentando tranquilamente. Diversos cachorrinhos circulam pelo local tranquilamente, assim como patos e galinhas.

Percebo Davi vindo em minha direção reconhecendo-o pela lembrança da foto de whatsapp. “Oi Keyth, esqueci da sua vinda, estamos em reunião agora e vamos dar uma coletiva de imprensa amanhã”. Apelo para o combinado e Davi cede trazendo um jovem rapaz com um cocar e o rosto pintado até mim. “O Mateus vai falar com você”, “Obrigada Davi”.

“Olá Mateus, sou Keyth Aurora do Esquerda Diário e vim aqui a fim de fazer uma entrevista que divulgue a luta de vocês. O Esquerda Diário é uma mídia de esquerda independente do PT que acredita no comunismo e que está a serviço da luta dos trabalhadores que é a classe capaz de transformar a sociedade radicalmente. Os índios urbanos, como trabalhadores, fazem parte dessa classe”. “Certo”, responde Mateus.

A primeira pergunta que faço é a respeito de seu nome. “Qual o seu nome guarani e o que significa? ”, Wera Xondaro e significa “Trovão Guerreiro”, responde Mateus. Após nos apresentarmos peço a ele que fale sobre a luta à vontade, pois o Esquerda Diário tem o interesse de divulgar a luta dos indígenas.

Mateus começa a narrar os acontecimentos até ali e diz o quanto a luta é difícil, pois a portaria é como lei que determina que os 532 hectares de terra sejam reduzidos somente a 3 hectares. Pergunta se eu acompanhei a ocupação em Brasília, e denuncia que enquanto estavam travando a luta diretamente com o ministro do golpista Temer, a família de Tito Costa foi até a aldeia intimidar quem ali estava dizendo que as terras não lhes pertenciam. Eis o nome daquele que agora quer ser o proprietário das terras guaranis.

Digo a ele que divulgarei o nome e peço que continue. Mateus me diz que na aldeia há 700 indígenas sendo 300 adultos e 400 crianças. Aponta para um casebre velho e diz que mais adiante encontra-se a horta em que plantam milho, batata doce e amendoim para a comunidade.

“Vocês vendem essa comida? ”. Tranquilamente Davi me responde: “Yanderu quem nos dá a comida, a comida é de todos não queremos vendê-la”. Yanderu é o deus cultuado pelos guaranis, segundo Mateus é o pai de todos e por meio dele se consegue força e saúde. Mateus me conta que todas as noites os guaranis cantam e dançam para divindade e aponta para uma das casas mais afastadas. “Ali é a nossa casa de rezas”, depois continua contando que ali há um altar em que se encontram todos os espíritos indígenas mortos.

Ao continuar narrando a ida para Brasília, Mateus diz que conversaram diretamente com o ministro Torquato Jardim e que na Funai há indígenas que lutam contra os direitos dos povos originários. Ou seja, os indígenas não são um grupo coeso, e há aqueles que possuem as mais diversas posições políticas.

A conversa continua e aquele casebre velho é apontado por Mateus que me explica que se trata um banheiro ecologicamente correto feito de bananeira, em que os dejetos ficam fechados sem adentrarem o solo e contaminarem a horta. “Se chama banheiro seco”, diz Davi.

Pergunto sobre como é a educação ali, ao que Davi me diz que há uma escola na aldeia que as crianças frequentam em que aprendem a escrever sua língua materna e o português. São bilíngues, portanto. Conta que ao todo são treze casas sendo algumas delas construídas por uma ONG chamada “Teto”.

Pergunto sobre como funciona o projeto e recebo a resposta de que as pessoas interessadas em projetos na aldeia, os apresentam, a comunidade inteira discute, e se aprovado é implementado. Além do projeto das casas e do banheiro há também o projeto de grafismo. “Por favor, tira uma foto daquela casa grafitada para mim. Não quero me aproximar da reunião”. Sim, a reunião para definir os próximos passos da luta continuava ocorrendo durante a nossa conversa.

Mateus segura o meu celular e vai em direção a casa tirar a foto. Enquanto isso observo os demais indígenas presentes, e de repente surge uma garotinha com um vestido azul de aproximadamente três anos. Cabelos longos, descalça, brincava tranquilamente enquanto comia um pão que acabava de ser servido para todos com um suco.

Uma última pergunta Mateus: “Gostaria de entender a hierarquia da aldeia, pois me foi dito que eu só poderia falar com as lideranças, por que isso? ”. “As lideranças são apenas os porta-vozes, todas as decisões são tomadas coletivamente por toda a comunidade”, responde ele. "Muito obrigada querido, mais uma coisinha...".

“Como você enxerga uma indígena como eu? Descendente de indígena de aldeia da Paraíba e criada na cidade de São Paulo após o êxodo nordestino seguido por meus avós. Eu sou indígena para você?”. Mateus sorri e responde que sim, acrescentando que é incontável o número de indígenas urbanos nas grandes cidades. “Me dá um cigarro? ”, pede ele e assim me aproximo um pouco mais de minhas raízes.

Últimos acontecimentos da luta dos Guaranis

Após a entrevista que foi dada na terça-feira, dia 11, os guaranis ocuparam o Pico do Jaraguá e desligaram as torres. Após terem sido avidados sobre o risco que os aviões corriam com o desligamento, no entanto, ligaram as torres correspondentes.
No último sábado realizaram no mesmo local da entrevista, o festival “O Jaraguá é Guarani! ”, onde apresentaram o rap dos indígenas. A luta continua e o Esquerda Diário acompanhará os próximos passos da luta.




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