CRISE DO CAPITALISMO / DAVID HARVEY / IMPERIALISMO

Entrevista de David Harvey: “o neoliberalismo perdeu legitimidade”

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 29 de agosto| Edição do dia

Estando no Brasil para o lançamento do seu novo livro "A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI", em S. Luís, Fortaleza, São Paulo, David Harvey concedeu uma entrevista ao grupo Tutameia, dos jornalistas Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena.

Nesta entrevista filmada, disponível no site Tutameia [vídeo em inglês sem legendas], D Harvey reexamina a escalada da pirâmide especulativa do grande capital, analisa o “risco-China” e, dentre outros pontos, também a escalada da direita mundial. Aqui reproduziremos trechos da sua entrevista, traduzidos pelos companheiros do site Tutameia.

[David Harvey é um geógrafo britânico marxista, com formação na Universidade de Cambridge, professor da City University of New York, nascido em 31 de outubro de 1935 (idade 83 anos), na Inglaterra. Autor de inúmeros livros, aborda a crítica da economia política de Marx, o imperialismo e temas vinculados à geopolítica internacional, dentre outros].

Sinalizando a marcha para o colapso do sistema fundado na escalada financeira, D Harvey entende que o capitalismo não pode perdurar sem uma crise catastrófica, nos marcos atuais de uma dinâmica onde os maiores bancos emprestam quase nada para atividades produtivas:

. “Dados recentes dizem que os maiores bancos dos EUA emprestam menos de 20% a atividades produtivas. 80% vai para atividades financeiras, especulação. É dinheiro comprando dinheiro, uma pirâmide. Bancos centrais criando dinheiro em estrutura global. Acho que isso é uma loucura que não tem como perdurar. Marx imaginou que isso poderia acontecer, e que, se acontecesse, o sistema poderia entrar em colapso”, afirma.

Um dos impactos dessa crise global em seus novos patamares especulativos, são a retomada da onda nacionalista e autoritária, ele argumenta. E entende essa onda como a cara política do esgotamento do neoliberalismo:

“A crise vem se movendo. Um dos maiores impactos da crise foi que o neoliberalismo perdeu sua legitimidade. O único jeito de conservar sua legitimidade é se tornar mais autoritário. Há uma linha direta entre a crise de 2008 e a volta dos regimes autoritários, nacionalistas. Ficou claro que o livre mercado não resolve todos os problemas. A única maneira de o neoliberalismo se manter é de forma cada vez mais autoritária, não só nos EUA, mas também na América do Sul, na Europa, na Turquia, na Índia. Há uma retórica populista e autoritária”, analisa.

Procurando raciocinar na perspectiva de Marx, D Harvey argumenta que o capitalismo não pode ir além de dívida, escravidão ao dinheiro, mas que a nossa liberdade depende da nossa libertação desse sistema. Tendo tudo mercantilizado, problemas elementares como a moradia e tantos outros não passam de investimento, para o sistema:

“A economia convencional não lida bem com contradições. O resultado é que surgem políticas econômicas que aumentam a desigualdade, por exemplo, e que propõem soluções que pioram o problema. Como, por exemplo, acreditar que o livre mercado é capaz de oferecer moradia acessível. Nós já vimos que isso não acontece”.

E mais: “O capitalismo, que teoricamente definiria a liberdade, na verdade, significa dívida, escravidão ao dinheiro. Se você está interessado em liberdade, agora terá que ver como nos libertaremos desse sistema”.

Na sua perspectiva a crise mundial do capital tende a grandes solavancos, um deles prestes e eclodir na China.

“A crise tem objetivo de disciplinar a população para algum tipo de regime de austeridade. O dinheiro grande gosta de crise. No mundo todo, durante crises, os ricos ficam mais ricos”.

Para Harvey, “a crise vai continuar se movendo. Existe uma crise financeira prestes a acontecer na China. Uma crise imobiliária seguida de uma crise financeira, que vai diminuir o apetite da China por matérias primas. Vocês já passaram por isso no Brasil. Em 2008, o impacto não foi tão grande para o Brasil justamente por causa da China. Quando a China começou a desacelerar, os BRICS sofreram com queda no comércio”.

Opinando sobre a conjuntura nacional, D Harvey defende a liberdade para Lula, considerando que o maior acusador dele está preso e o próprio Temer é acusado de corrupção, mas critica Lula por ter feito pouco pela reforma agrária:

“Até onde sei, as provas contra Lula são muito fracas. Aparentemente, ele não fez nada que qualquer político não faria. Eu apoio o Lula Livre porque eu acho que essa é uma situação maluca. O maior acusador dele está na cadeia e o presidente atual também é acusado de corrupção. Corrupção é uma coisa complicada. É possível acusar pessoas de corrupção com alguma facilidade. Al Capone foi preso por sonegação fiscal, e não por homicídios, por exemplo. Corrupção é um conceito capcioso”.

E acrescenta: “Eu acredito que há uma conspiração da direita e, por esse motivo, eu apoio a libertação de Lula. O que foi feito com ele é ultrajante, vingativo e inaceitável do ponto de vista democrático”.

E segue: “Em quase todo mundo, todo o modo de vida agrário foi destruído. Reconstruir uma economia rural é muito importante hoje em dia. Isso é importante do ponto de vista da economia tradicional e também do ponto de vista revolucionário, como forma de romper com o sistema capitalista internacional”.

Levando em conta que o MST persegue essas ideias Harvey emenda: “Uma lição que aprendemos é que o MST pode fazer muito mais. E isso foi uma das minhas decepções com o Lula. Lula não apoiou de verdade o MST. A reforma agrária não avançou tanto no Lula. Acho que o Estado deve apoiar as linhas propostas pelo MST”.

Logicamente é importante assistir a toda a entrevista [disponível em inglês no link https://youtu.be/NXGO-Un5UIc ], mas esses e outros tópicos divulgados no site Tutameia já permitem , lado a lado com análises objetivas sobre a dinâmica atual do capitalismo, enxergar os limites das sugestões políticas de D Harvey.

Ele se disse chocado com a saída do presidente do Equador, Correa, e argumenta que a esquerda vai ao poder e não sabe o que fazer:

“Fiquei chocado com algumas das coisas que aconteceram recentemente na América Latina. A saída do Correa no Equador me chocou. Ele deveria ter criado uma base política, mas confiou demais no próprio carisma. Minha primeira impressão era de que a esquerda teria força o suficiente para retornar. A direita, que assumiu o poder, agiu rápido para destruir o aparato construído pela esquerda.

Para ele, “a esquerda precisa pensar em se organizar numa linha mais sólida, antineoliberal no mínimo, se não anticapitalista”.

E continua: “O problema é que a esquerda não sabe o que fazer quando chega ao poder. Agora, várias cidades espanholas estão com governos de esquerda, mas, muitas vezes, esses governos não sabem o que fazer. Nós, da esquerda, não fizemos um bom trabalho nesse sentido”.

O problema desse tipo de visão – bem semelhante à de Mészàros ao apoiar a chamada “revolução bolivariana” – é o de gerar ilusões e apontar para caminhos que só podem levar a derrotas, a partir do momento em que aposta em saídas tipo Correa, Lula ou Chávez; isto é, ao apostar em saídas de conciliação de classe.

Ficar “chocado” com o fracasso de Rafael Correa – que para além da fraseologia populista, governava para a burguesia – e achar que “a esquerda não sabe o que fazer quando chega ao poder” [na verdade, ao governo] é o mesmo que acreditar que na base de um acordo com a burguesia do agronegócio, do grande capital financeiro [senhor da dívida pública] e, na base de uma ou outra concessão social, se pode ir a algum lugar que não seja a derrota, terminando, no final, por dar passagem para a direita.

A estratégia dos governos do Podemos [um movimento pseudorreformista ou neorreformista], citado por D Harvey na Espanha foi, pura e simplesmente, governar para o grande capital.

No entanto, para D Harvey trata-se de uma “esquerda que não fez um bom trabalho”. Ele não entra no mérito do programa dessa esquerda e nem da estratégia para o poder anticapitalista.

Na verdade é uma esquerda que, por tentar governar com e para o grande capital – como foi o caso dos governos chamados “pós-neoliberais” na América Latina, termina não avançando para al lugar algum. A não ser criar a ilusão de que se pode avançar nos marcos do capitalismo para, no final, terminar sendo descartada pela direita, como foi a Dilma, a partir do momento em que a direita, nos marcos da atual crise econômica mundial, precisou de mais ajustes, maior escalada para descarregar a sua crise na classe trabalhadora. E Dilma, embora tendo começado os ajustes [com o neoliberal Joaquim Levy], não era suficiente para a direita. Daí o golpe.

É importante defender a soberania popular, o mínimo de democracia burguesia que exista e sobre isso o Esquerda Diário tem levado adiante a bandeira pelo direito da população votar em quem quiser, inclusive Lula.

Mas é essencial que essa política seja feita em chave crítica e revolucionária; sem qualquer embelezamento desses governos que não lutaram contra o grande capital nem foram fundo na defesa da classe trabalhadora.

Precisamente porque nenhum governo de conciliação de classe, ao preservar a dívida pública [maior base de sucção da riqueza nacional para o bolso do grande capital financeiro], ao não impedir que o capitalismo descarregue sua crise sobre nossas costas poderá ter qualquer perspectiva estratégica que possa ser sequer chamada de esquerda.

É da maior importância conhecer as ideias de D Harvey sobre a crise do capitalismo contemporâneo, o imperialismo, suas copiosas resenhas de O capital, mas sempre em chave crítica, especialmente porque com a estratégia de autores como ele ou Mészàros, na esfera da política, somente seguiremos colecionando derrotas ou alimentando ilusões com aquilo que ele chama de “esquerda”.




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