Cultura

ENTREVISTA

Entrevista com o poeta slammer Emerson Alcalde

Slam da Guilhermina e outras resistências

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

quarta-feira 5 de abril| Edição do dia

Fábio Nunes - Eu sempre peço para o entrevistado se apresentar...

Emerson Alcalde - Ator, arte-educador, dramaturgo, escritor, produtor, poeta slammer, slammaster, apresentador de eventos.

- coordenador de projetos do núcleo de ação cultural
Local: CEU Três Pontes – Secretaria Municipal de Educação da Cidade de São Paulo
Período: 2013 a 2015

- coordenador
Local: Casa de Cultura Itaim Paulista - Secretaria Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo
Período: de 2015 a 2017

Teatro
Formado em artes cênicas. Atuou em 20 espetáculos teatrais. Entre eles “Bartolomeu, que será que nele deu”, direção Georgette Fadel, O Boneco do Marcinho, Olhares sobre Yayá, A Cidade dos Rios Invisíveis, com o coletivo Estopô Balaio.

Ministrou oficinas de iniciação teatral para crianças em ONGs e espaços da Prefeitura e do Estado durante dez anos.

Formação:

Curso Superior de Teatro – Bacharelado e licenciatura
Período: 2002 a 2006. Local: Universidade Anhembi Morumbi. - Especialização em Produção Cultural.

Curso de Dramaturgia
Período: 2010 a 2012. Instituição: SP Escola de Teatro – Centro das Artes do palco

POESIA

É idealizador do SLAM DA GUILHERMINA – campeonato de poesias faladas. O Projeto já foi contemplado pelo Programa VAI da Prefeitura de São Paulo e pelo PROAC Saraus Culturais do Estado de São Paulo. Alem de ter ganhado o prêmio Milton Santos pela Câmara dos Vereadores de SP.

É curador desde 2015 do evento SÓFÁLÁ – slam de poesia no Red Bull Station

PUBLICAÇÕES
Autor dos livros: (A) MASSA poesias e dramaturgias (bilíngue), O VENDEDOR DE TRAVESSEIROS (poesia) e O Boneco do Marcinho, literatura infantil. Organizou as coletâneas: Cultura Z/L – rede de coletivos de Ermelino Matarazzo, e Slam da Guilhermina – um ponto zero, ambas pela editora EDICON. Premiado no Festival Literário de Suzano 2012. Publicação na revista Trajetória Literária. Já colaborou para Revista FOLHA SP.

Participou dos discos “...ENTRE...” e Licença Poética do rapper KAMAU, e da cantora de MPB Lika Rosa “Movi-mento”.

Participou:

Bienal do Livro de São Paulo 2012
Feira Literária do Centro Cultural da Juventude de São Paulo 2013
Feria del libro de Córdoba, Argentina em 2013
Feria del libro de Buenos Aires, Argentina em 2014
Abriu os shows de Caetano Veloso, Baby do Brasil, Tom Zé, Emicida entre outros no evento Cidadania nas Ruas no Auditório do Ibirapuera, 2013

Vice-campeão da COPA DO MUNDO DE SLAM DE POESIAS DE PARIS, FRANÇA 2014

Antologias:

Poetas do Sarau Suburbano Vol. 1 e 2
Pelas Periferias do Brasil Vol. 5
Sarau da Ademar
Sarau Perifatividade Vol. 1 e 2
Sarau do Burro
Pode Pá que é nois que tá
Cadernos de estudos de dramaturgias da SP Escola de Teatro

Fabio Nunes - Fale sobre o slam

Emerson Alcalde - O Poetry Slam, é um campeonato de spoken word, que tem na sua base várias regras que envolvem a performance e poesia autoral dos seus participantes, um tempo limitado a 3 minutos para as suas apresentações, um público como júri que pontua cada apresentação de 0 a 10. Não existem estilos ou temas, existem várias linguagens possíveis, que variam com a diversidade dos participantes que fazem parte deste movimento.

Esta prática artística e performática nasceu em meados dos anos oitenta pela iniciativa do mestre de obras e escritor, Marc Kelly Smith. Começou em Chicago na Green Mill Tavern, tendo desde logo conquistado os Estados Unidos da América e, progressivamente a Europa e outras partes do mundo. A palavra Slam refere-se hoje em dia a uma poesia autoral, escrita para ser dita. Impõe-se cada vez mais a nível internacional como um meio de expressão artístico e popular. É uma forma de poesia sonora considerada como um movimento de expressão poética, social e cultural, que revitaliza a prática da oralidade, da troca e partilha de ideias e mensagens. Inicialmente à margem dos circuitos artísticos tradicionais, hoje em dia já largamente reconhecida e mediatizada na maior parte dos países onde existe uma forte cultura Slam. À partida baseado na noção de comunidade, o Slam recupera a expressão poética num formato moderno e acrescenta à herança das culturas poéticas europeias, americanas e africanas, uma vontade firme de dar a palavra a todos e todas.

Na grande maioria dos eventos de Poetry Slam no mundo a inscrição está aberta a todos (maiores de 16 anos) e todos os inscritos participam na primeira rodada. Um júri, composto por cinco pessoas escolhidas aleatoriamente no público, dá uma pontuação a cada participante. As notas vão de 0 a 10. A nota mais alta e a nota mais baixa são retiradas e o resultado das votações restantes é inscrito num quadro visível a todos. Os que obtêm a melhor pontuação passam à segunda rodada e assim em diante, até à final. As regras fundamentais são:

1) Os participantes tem que apresentar trabalho de autoria própria, e individualmente;

2) Não podem ser utilizados adereços, figurino e instrumentos musicais;

3) O tempo estipulado a cada intervenção é de 3 minutos (10 segundos de tolerância, e a cada 10 segundos é retirado meio ponto);

4) O júri é escolhido no público. A opinião é relativamente subjetiva e não se baseia em conhecimentos acadêmicos. O objetivo é oferecer ao público a possibilidade de escolher os poetas que querem ver nas rodadas seguintes.

5) Aos vencedores é geralmente oferecido um prêmio e uma vaga para a Grand Final. E cada país pode indicar, anualmente, um representante para a Copa do Mundo de Slam, que ocorre sempre na França.

SLAM DA GUILHERMINA

Slam é uma batalha de poesia que acontece em todo o mundo, sua chegada no Brasil é recente e o Slam da Guilhermina é o segundo do Brasil.

O Slam da Guilhermina acontece desde fevereiro de 2012 na Zona Leste paulistana em uma praça anexa a estação Guilhermina-Esperança do metrô, toda última sexta-feira do mês, ás 20hs. A pracinha é iluminada por um lampião e aquecida pelas palavras. Reúnem-se poetas frequentadores de saraus e MC’s de batalhas de improviso, o Slam tem características próprias e se divide em dois momentos: Recital livre e o Slam (torneio).

O Recital livre acontece no inicio dos trabalhos onde todos podem recitar poesias sem critérios definidos, é um espaço democrático para experientes e amadores, livre para o exercício da oralidade. Não há inscrição e nem apresentação dos artistas. Uma pessoa inicia sua poesia e sai da roda ficando o espaço aberto para o próximo que se sentir a vontade.

No segundo momento o Slam - a batalha de poesias, tem característica competitiva e dividida em três etapas, para participar as poesias devem ser de autoria própria, ter até três minutos de duração, não é permitido acompanhamento musical, adereços e figurinos. Terminada a apresentação, o poeta é avaliado por cinco jurados, escolhidos no local, levando em consideração a diversidade. Em caso de empate soma-se as notas anteriores definindo o campeão, no caso, Slampião ou Slampiã da noite, leva pra casa a premiação contendo livros, CDs, camiseta e a cobiçada vaga pra final, sendo o vencedor desta poderá representar o país na Copa do Mundo de Poesias na França.

Fabio Nunes - Poesia nas praças públicas incomodam governos e patrões. A prefeitura de São Paulo e a Polícia fecha o cerco contra a arte de rua.

Emerson Alcalde - Nós do Slam da Guilhermina somos o primeiro coletivo a fazer Slam na rua, no inicio tínhamos que explicar para a polícia e para os guardas do metrô depois não precisamos mais, eles não incomodam. Uma vez ou outra a polícia aparece, mas não interfere nas nossas ações.

No Slam Resistência que ocorre na Praça Roosevelt, a vizinhança chama a polícia com frequência, mas eles só interferem quando passamos das 22h00, o motivo alegado é a lei do psiu.

Nós temos a Lei do Artista de rua que nos assegura.

Fabio Nunes - Crise econômica pesada. A direita reacionária avança. Qual o papel da arte neste barulho todo?

Emerson Alcalde - As poesias nos Slams são combativas, atacam diretamente os reacionários: políticos de direita, a bancada evangélica, a bancada da bala e do boi e todo o sistema capitalista. Neste momento politico os poetas estão muito mais engajados do que quando começamos a praticar o slam no brasileiro, vivíamos um pouco melhor, abordávamos outros assuntos, além do social. Hoje a incerteza e o avanço do fascismo no Brasil e no mundo faz que os artistas tomem partido e se posicione. A direita está crescendo e temos que resistir e a arte é um canal para que possamos nos comunicar com outras pessoas.

Emerson Alcalde
poeta, slammer, produtor
contato: 11 97213-3189




Tópicos relacionados

Esquerda Diário Entrevista   /    Cultura

Comentários

Comentar