Cultura

Entrevista com o poeta e pesquisador Fabiano Calixto

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

quarta-feira 22 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Mesmo entre os artistas "marginais", existem aqueles "marginalissimos", praticamente (ou literalmente) apagados da história. O poeta, crítico de cinema e ator paulistano Orlando Parolini (1936-1991) é um destes marginalizados ao extremo. O poeta e pesquisador pernambucano Fabiano Calixto está escrevendo uma tese de doutorado sobre Parolini e bateu um papo com a gente sobre este artista underground do underground.

Fabio Nunes - Bom, eu sempre peço para o entrevistado se apresentar, falar dos seus trabalhos, pesquisas, projetos etc.

Fabiano Calixto - Sou pernambucano e resido em São Paulo. Poeta e professor universitário. Curso doutorado em teoria literária e literatura comparada na Universidade de São Paulo (USP). Sobre Orlando Parolini. Publiquei os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000), Um mundo só para cada par (Alpharrabio Edições, 2001), Música Possível (CosacNaify/7Letras, 2006), Sangüínea (Editora 34, 2007) – este finalista do prêmio Jabuti, A canção do vendedor de pipocas (7Letras, 2013), Equatorial (Tinta-da-China, 2014) – antologia lançada em Portugal, e Nominata Morfina (Córrego/Corsário-Satã/Pitomba, 2014). Preparo um novo livro de poemas, intitulado Fliperama.

Fabio Nunes - O seu ensaio "Orlando Parolini: o evangelho segundo o inconformismo e o desespero", foi um dos poucos trabalhos mais de fôlego que eu encontrei na internet sobre este artista. Quem é Parolini e por que ele é tão pouco citado, mesmo em publicações sobre a poesia e o cinema dos anos 1960 e 1970?

Fabiano Calixto - Parolini era uma figura incrível da cena artística paulista. Era conhecido como “o profeta da Galeria Metrópole”, por onde circulava com sua imensa cabeleira e barba desgrenhada falando seus poderosos e apocalípticos poemas. A juventude que curtia poesia ia vê-lo em grupos, suas performances eram, segundo relatos, impactantes. Era um poeta visionário, um poeta libertário. Atuava com leituras e distribuía seus poemas pela rua, numa ação direta. Como diz o Carlos Reichenbach, “se Roberto Piva é o Bakunin da poesia nativa, Parolini era o Kropotkin”. Enfim, é um artista múltiplo e inquieto, anárquico, daqueles que aparecem para colocar as estruturas abaixo.
O fato de ele ser pouco citado, pelo menos no campo literário (no campo do cinema estou ainda pesquisando sobre), se deve pelo fato de não haver livros seus editados. Não tendo mais saco com as repetidas recusas das editoras, guardou suas obras. Deixou prontos quatro livros de poesia – Poemas (1957-1961), Poemas do pequeno assassino (1961-1968), O pântano (1964-1968), e Cartas da Babilônia (1968-1972), duas peças de teatro – Divirta-se e O frango e a freira –, e um romance chamado Culus ridendus, que o mesmo Reichenbach, que era seu amigo e o dirigiu em alguns filmes, chama de obra-prima. Com isso, seus poemas foram sendo publicados muito raramente aqui e ali. Morreu sem ver seus livros publicados. Porém, um belo dia, lendo uma antologia da revista Azougue, editada pelo poeta Sergio Cohn, li o depoimento de Reichenbach e uma pequena e forte seleção de poemas. Bateu na veia. Gostei muito daquele poeta anárquico-erótico-apocalíptico, que perambula pela loucura das grandes cidades levando seus estranhos e inquietantes poemas. Comentei com Ricardo Domeneck, que era, junto a Angélica Freitas, Marília Garcia e a mim, um dos editores da revista Modo de Usar & Co., onde está publicado o texto com minhas primeiras impressões sobre Parolini – e que você cita na pergunta. Ricardo também sentiu-se muito atraído e ali fomos alimentando essa curtição pelo trabalho do Parolini. Daí que, quando decidi fazer doutorado (não sei bem pra quê neste país onde o projeto de destruição total da educação pública caminha com imenso sucesso, mas enfim), optei por trabalhar com o Parolini, fazer seu arquivo e inseri-lo no campo. Ler sua poesia e tentar entendê-la, desvendar alguns dos seus mistérios. Colocar seus livros em circulação. Inserir Parolini como um vírus no cânone é a minha contribuição. A partir daí, acredito que deva ser mais lido.

Fábio Nunes - Praticamente inédito no mercado editorial, o cinema foi um suporte da poesia de Parolini, por exemplo, nos filmes "Sangue Corsário" (1979) de Carlos Reichenbach e "O Vampiro da Cinemateca" (1979) de Jairo Ferreira. Podemos chama-lo de poeta-ator? Um performer talvez?

Fabiano Calixto - Como disse, não há livros de Parolini na praça. Os dois filmes são grandes filmes, nos dois Parolini encarna a si mesmo. O primeiro é sua poética, onde imprime, através de sua ética outsider, sua robusta dicção. O segundo, uma obra-prima do Jairo Feirreira, outra vez o poeta insere, no jardim fílmico, suas flores atômicas. Bem, eu o chamo de poeta mesmo. No sentido do cara que se interessa pelo fazer, pela construção poética de uma possibilidade generosa de existência.

Fábio Nunes - Existe algum "retorno" ao "profeta da Galeria Metrópole"?

Fabiano Calixto - Não do tamanho que, acredito, ele merece. Mas, por outro lado, há um retorno interessante para um poeta que circulou tão pouco. As pessoas se interessam quando entram em contato.

Poema de Orlando Parolini

(janeiro de 1964)
Orlando Parolini

anjos descem das palmeiras
na rua São Luiz

era noite.

porque não bebemos
porque o amor não foi em nós
realizado
porque de gás flores colhemos
dos letreiros de néon
não nos escolheram

e é assim
agências de turismo
nuvens oferecem ao nosso alcance
águas termais
hotéis de espuma
fascínios orientais de almanaque
o Louvre
a Santa Sé
o Palácio da Rainha
mas estamos nus – cabelos em desalinho
viajar nos é proibido
nos transatlânticos de primeira




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