Cultura

ENTREVISTA CINEASTA

Entrevista com o cineasta Rodrigo T. Marques

Um pouco sobre o documentário Pedro Osmar, pra liberdade que se conquista

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

sexta-feira 24 de março de 2017| Edição do dia

Rodrigo T. Marques - Antes de sermos uma dupla de documentaristas, eu e Eduardo Consonni somos amigos de longa data.

Começamos a fazer documentários juntos em 2005 e desde então estamos rodando festivais nacionais e internacionais com nossos trabalhos que apresentam um olhar novo sobre as histórias que se passam na cidade de São Paulo.

Através de uma pesquisa voltada para os documentários de criação, buscamos personagens pelas na cidade e a partir daí nascem os filmes que revelam uma nova perspectiva sobre como podemos interferir na teia social revelando histórias humanas que emocionam e transformam o olhar de quem tem contato com a nossa obra, um ato político.

Além da pesquisa e realização de documentários também atuamos no campo da educação coordenando cursos e oficinas em parcerias com museus, escolas e ONGs.

Eduardo Consonni: Formado em psicologia e trabalha como documentarista e educador.

Nos últimos 13 anos atua como artista nas fronteiras entre arte, política e educação.
É co-fundador e um dos diretores da produtora Complô e desde 2005 vem realizando documentários e desenvolvendo metodologias de ensino utilizando o audiovisual com foco na investigação do cotidiano como fonte da poética documental.

Atualmente, também trabalha como educador-formador em parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo.­

Rodrigo T. Marques: Documentarista e montador graduado em Comunicação Social pela PUC-SP.

Iniciou sua carreira no cinema como produtor de comerciais e em 2005 passou a dirigir e montar documentários, atuando também na produção de finalização de alguns documentários.

Coordenou o curso “Observatório.doc” de documentário no Museu de Arte Moderna de São Paulo de 2010 a 2016.

Fabio Nunes - Vocês produziram o documentário Pedro Osmar, prá liberdade que se conquista. Comente.

Rodrigo T. Marques - É um manifesto poético-político-musical sobre o multiartista paraibano Pedro Osmar em sua luta pela liberdade que se conquista. É um filme que nasce do encontro com Pedro durante a gravação de seu novo disco "Quem vem lá?" nos estúdios da Nheengatu, do músico e produtor Marcos Alma.

Pedro estava morando em Santo André em 2014 e nos encontramos no estúdio do Marcos, parceiro da nossa produtora há muitos anos. Eu tinha uma relação familiar com a Paraíba, e já conhecia um pouco da obra do Pedro, e quando por acaso encontrei um livro no estúdio com desenhos que estavam assinados por ele. Marcos nos contou que estava produzindo seu novo trabalho e daí propomos de começar a gravar os encontros por lá. Pedro topou e daí começou a nossa relação com ele.

A partir daí, mergulhamos no universo da obra do Pedro e começamos a perceber que dali poderia nascer um projeto mais longo voltado para o cinema. Pedro estava para completar 60 anos na época e iria fazer uma festa grande em João Pessoa com muita música e poesia. Um parceiro dele, Ely Porto, organizou o evento em João Pessoa, e nós decidimos filmar aquele encontro único que reuniu a nata da cultura paraibana no Espaço Cultural da Energiza. Foi uma festa que durou um dia inteiro com músicos e poetas subindo ao palco e homenageando Pedro Osmar, cantando suas músicas, recitando suas poesias, certamente foi um momento muito especial e parte desse encontro está no filme.

Levamos uma câmera 35mm para João Pessoa para rodar uma sequência na praia de Tabatinga com Pedro. Tivemos o apoio de Bruno Salles, cineasta paraibano, que nos apresentou locações inacreditáveis do litoral paraibano e que também nos apresentou aos professores Fernando Trevas e João de Lima que tinham realizado o projeto de preservação do acervo de super 8mm do NUDOC da Universidade Federal da Paraíba. Ali descobrimos um filme sobre Pedro Osmar e outros em que ele aparecia e isso abriu a possibilidade de contextualizar o enredo de sua trajetória artística em João Pessoa na década de 70 e 80.

A partir daí, já tínhamos o filme na mão e com mais alguns encontros em São Paulo durante a gravação de seu disco, iniciamos a montagem do filme.

Tudo isso investindo recursos da nossa produtora, sem nenhum apoio.

Após quase três anos de produção e montagem, decidimos tentar inscrever o filme no edital do Rumos Itaú Cultural. Um edital muito concorrido com mais de 12 mil inscrições do país todo e acabamos conseguindo ser selecionado, o que nos possibilitou finalizar o filme para as salas de cinema.

Em seguida, entramos em alguns festivais importantes com o Festival de Brasília, In-Edit, Mimo e outros até conseguir novamente ser agraciado com o edital de distribuição da SPCine que nos possibilitou levar o filme para o circuito comercial.

Fabio Nunes - Cinema no Brasil: possibilidades e dificuldades

Rodrigo T. Marques - Lançamos o filme em setembro de 2016 no circuito de festivais, inicialmente na Competitiva do In-Edit Brasil de Documentários Musicais, em seguida fomos para o Festival de Brasília, no MIMO, Fest Aruanda, Mostra Canavial, Festival Se Rasgum e mais algumas sessões que promovemos em João Pessoa.

É sempre uma luta divulgar filme nacional dentro do nosso país, principalmente se tratando de um documentário, ainda mais sobre uma figura pouco conhecida ao redor do país. Pedro Osmar é muito conhecido na Paraíba e ali certamente temos mais força na divulgação do filme. A primeira sessão que promovemos em João Pessoa no Cine Banguê, foi uma sessão lotada com a presença do governador da Paraíba, Ricardo Coutinho.

Nós mesmos estamos distribuindo o filme, é uma auto-distribuição, e portanto não temos toda a força que uma distribuidora tem se tratando de lançamento, imprensa e tudo o que envolve o esforço de se colocar um filme no circuito comercial.

No Brasil, o ano só começa depois do carnaval, e quase todos os filmes esperam passar o Oscar para começar a se lançar no circuito. Agora mesmo junto com o nosso filme, têm muitos outros filmes nacionais e internacionais sendo lançados e a luta para aparecer dentro dessa quantidade de filmes de vários tamanhos é muito grande.

Esse é o primeiro filme que conseguimos colocar no circuito comercial e está sendo uma experiência muito intensa e desafiadora estar distribuindo o próprio filme da forma que estamos fazendo.

Fabio Nunes - Vocês tiveram acesso as filmagens realizadas em João Pessoa nos anos 1970. O que mudou de lá para cá na produção e concepção artística?

Rodrigo T. Marques - Como comentei acima, descobrimos que havia sido feito um filme em super 8mm sobre o Pedro Osmar e inicialmente conseguimos ter acesso ao filme junto aos professores Fernando Trevas e João de Lima. A partir daí, tivemos acesso a todo o acervo "Cinema Paraibano: Memória e Preservação" que é um projeto dos Fernando Trevas e da Lara Amorim que restaurou e preservou dezenas de filmes super 8mm da década de 70 e 80 de importantes cineastas da cinematografia paraibana como Marcus Villar, Torquato Joel, Elisa Cabral e muitos outros.

Quando nos deparamos com todos aqueles filmes pensamos que eles poderiam ser muito importantes para contextualizar toda a etapa inicial da vida de Pedro Osmar para traçar seu percurso até os dias de hoje durante a produção de seu novo disco "Quem vem lá?". A força poética dos filmes nos ajudou a construir todo o imaginário de Pedro Osmar e potencializou o filme para além das formas convencionais da narrativa documental nos permitindo alçar vôos mais arriscados que estavam alinhados com a ousadia da obra de Pedro.

Além disso o "filme de montagem" era uma das pesquisas que a Complô vinha desenvolvendo na época, o que no fez enxergar a possibilidade dos filmes super 8mm serem resinificados criando um eixo metafórico e contextualizador do filme.




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