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RIO DE JANEIRO

Entrevista com moradora de Manguinhos: "só há cheiro de morte no ar"

A forte realidade dos moradores do Jacarezinho, há 8 dias no fogo cruzado de um verdadeiro massacre contra os moradores, entrevistamos uma moradora de Manguinhos, próximo ao local, que nos relatou: "Gostaria de dizer coisas bonitas, mas por enquanto não dá. Só há cheiro de morte no ar, infelizmente."

sexta-feira 18 de agosto| Edição do dia

Entrevistamos uma moradora de Manguinhos, nos arredores da favela do Jacarezinho acerca da militarização da favela, como tem sido a recente rotina de guerra, já são oito dias consecutivos de abusos e intensa repressão policial contra os moradores, no Rio de Janeiro.

M. moradora de Manguinhos, trabalhadora e estudante de Direito da UERJ, mãe de dois filhos, conta a realidade que vem vivendo os moradores da região diante das operações policiais. Seus filhos estudam na E.M. Dom João VI e Albino Souza Cruz e faz uma semana que não vão para a escola.

A realidade é desesperadora para quem vive e convive ali, a policia e o exército atacam ferozmente os moradores numa operação de extermínio da juventude negra, estudantes do Colégio Clóvis Monteiro, na região, nos relataram que já são mais de 30 jovens desaparecidos desde o início da repressão da polícia.

Esquerda Diário: Como tem sido a rotina no seu bairro com as operações policiais?

Moradora: Bem, faz uma semana que estamos vivendo numa tensão desmedida. É notório o pavor no olhar das pessoas. Tiros a todo instante, desvio de transporte, uma verdadeira praça de guerra. Acordamos achando que vai acabar, mas não há trégua. É uma caçada, mas que infelizmente, tem acometido muitos inocentes.
Somos solidários à família do policial morto, mas não dá pra condenar uma comunidade inteira por isso. Sei que parece clichê, mas a comunidade é majoritariamente composta de trabalhadores. Não dá pra continuar vivendo assim.
Somos vítimas de um Estado omisso, que pouco ou nada tem feito para mudar essa situação absurda que não começou agora, infelizmente, e que só se intensifica a cada dia.
Não é possível que este massacre dure por mais tempo.

Esquerda Diário: Seus filhos estão faz quanto tempo sem ir à escola? Quais são as justificativas da escola?

Moradora:A rotina escolar de crianças e adolescentes parou. Tenho dois filhos e eles estão há uma semana praticamente sem aula. Qual pai e mãe tem tranquilidade pra deixar os filhos sair de casa com tudo que tem ocorrido?
Ligo pra escola todos os dias e sempre ouço: não traz, mãe. Está muito perigoso, os professores estão com medo de dar aula nessa situação. Meu filho mais velho não estuda próximo ao Jacarezinho, mas seus colegas de classe, em sua grande maioria, moram lá e não saem de casa. Nem ao menos brincar nos portão de casa eles podem. Viraram prisioneiros da violência e truculência das operações policiais.

Esquerda Diário: o que você acha de toda essa realidade de violência nas favelas que vem ocorrendo? A polícia vem agindo como?

Moradora: A realidade de violência nas comunidades não é novidade pra ninguém.
Temos uma polícia despreparada e truculenta. A impressão que dá é que eles são jogados nessa função sem qualquer treinamento. Alegam que são recebidos a tiros, que precisam revidar, mas inocentes não podem continuar sendo alvo desse despreparo, já que chegam na comunidade e atiram a esmo de um helicóptero, sem qualquer tipo de filtro.
Estamos em guerra, mas queremos paz. Paz pra que nossos filhos possam ir à escola, pra que as pessoas tenham seu direito de ir vir de volta e paz pra andar na rua sem medo de ser atingido a qualquer momento por uma bala perdida.
Gostaria de dizer coisas bonitas, mas por enquanto não dá. Só há cheiro de morte no ar, infelizmente.

Fonte da foto: ClickFotos




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