Cultura

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Entrevista com elenco de “Coro dos Maus Alunos”

segunda-feira 12 de dezembro de 2016| Edição do dia

Foto: Lizandra Carvalho

Na sexta, dia 09 de Dezembro, a peça “Coro dos Maus Alunos” se apresentou no Sesc Campinas, na direção de Tuna Serzedello. Trazendo um tema de suma importância e muito discutido hoje: a educação. O Esquerda Diário procurou o elenco que nos concedeu uma entrevista.

ED:­ O que as levou a quer e ser atrizes?

Carú Lima: Eu decidi que queria ser atriz na oitava série, atual nono ano, e foi um pouco sem saber tão bem o que era ser atriz. Me apaixonei pelo teatro na escola e fui caminhando. Acho que quando a gente é mais novo a gente se apaixona pelas coisas e diz “Eu quero! Eu vou fazer!”, e depois seguimos em frente.

Eu tinha certeza que eu queria ser atriz, o que ainda não sabia era tudo o que poderia ser o teatro. Comecei a estudar e meu universo teatral se ampliou muito! Foi aí que percebi o que era ser atriz e tive vontade de conhecer e de me relacionar com o mundo através da arte.

Talvez tenha sido assim, uma decisão um pouco inconsciente que foi sendo reafirmada e construída conforme eu descobria o teatro, pois atualizo desejos e vontades ao longo do tempo, e ser atriz continua sendo o jeito que escolhi pra me relacionar com o mundo.

Júlia Novaes: Eu sempre fiz teatro. Cursos extras, na escola, no Sesc perto da minha casa. Então seguir a profissão foi algo quase que natural. Foi como continuar algo que já fazia da minha vida. Claro, é diferente quando você estuda algo e quando você trabalha com isso. Então é um aprendizado até hoje, cada projeto, cada produção, cada espetáculo.

Luisa Taborda: Quando eu era criança, fazer teatro era a minha brincadeira preferida, me divertia tanto nas aulas que só queria saber daquilo e nunca parei. Acabei crescendo dentro de uma escola de teatro e durante a adolescência percebi que aquela escolha me permitiria continuar brincando e jogando para sempre.

O teatro adquiriu outros significados para mim quando comecei a estudar e me profissionalizar - entendi a importância de fazer e assistir teatro, o papel urgente que o artista pode assumir no mundo. Talvez seja essa combinação que mais me encanta: a possibilidade de dar voz a assuntos e questões mobilizadoras, de provocar pequenas transformações, mas através de um jogo, de uma grande brincadeira.

ED: Quais foram suas primeiras impressões do texto da peça "Coro dos maus alunos"?

Carú Lima: Lemos o texto pela primeira vez em Matão, interior de São Paulo e eu achei incrível! Questionei várias coisas em mim, repensei a escola, comecei a pensar e pensar… Não tinha entendido tudo que havíamos lido, eu concordava, discordava, refletia, mudava de opinião. Travei um diálogo interno, é claro. Mas queria montar esse texto. Eu li e tinha certeza que esse era um texto que eu queria fazer, que era necessário não só pra mim.

Eu trabalho com educação e gosto muito de trabalhar com isso. Enfrento os desafios dores e alegrias de trabalhar com educação por escolha, então fazer o Coro é muito significativo pra mim. É sem dúvida uma peça que amo fazer e discutir com a platéia através dela.

Júlia Novaes: Quando li a primeira vez já foi no convite para montá-la, quando retomei o trabalho com a Cia Arthur Arnaldo. Achei a peça muito forte e fiquei aflita sobre o impacto que ela podia fazer, como ela podia ser recebida. Porque há sempre várias leituras de uma mesma peça. Mas logo depois de lermos o texto olhei pras pessoas que estavam comigo e fiquei confiante de que a montagem seria igualmente forte e que seria um diálogo importante com a platéia, com os jovens para quem apresentamos o espetáculo, e até conosco, nas infindáveis discussões sobre educação que travamos entre o grupo e que levamos para os outros lugares da nossa vida.

ED: Na opinião pessoal de vocês, qual foi a mensagem e sensibilidade que o autor Tiago Rodrigues teve ao tratar de tal tema?

Carú Lima: O Tiago escreveu esse texto em 2009, estreamos em 2013 e até hoje ele é atual, pois tem a capacidade de se ressignificar conforme a história que vamos vivendo. Fazer o Coro no ano passado, em meio às primeiras ocupações, foi um claro exemplo disso. Hoje ele também se ressignifica.

Se observarmos a história da educação vemos como a discussão levantada pela peça é necessária e como ela coloca na área de jogo teatral questões que nos fazem pensar, refletir sobre nosso atual modelo de educação.

Não enxergo que o Coro tenha uma mensagem clara, ele vai além, porque sem dúvida essa é uma peça que coloca nossa cabeça pra pensar. Gera perguntas ao invés de respostas. E com certeza é muito mais interessante nos envolvermos com mil perguntas ao invés de uma única resposta.

Júlia Novaes: Acho que a discussão proposta pelo Tiago é a da Educação, revermos o nosso sistema, o ”como” ensinamos hoje. E isso abre outros mil leques de temas à se discutir: o conflito de gerações, a tecnologia e a exposição virtual de nossas vidas...

Uma das coisas mais interessantes do espetáculo, para mim, é como ela gera esses debates, cria questões. E, na minha opinião, é essa a característica mais sensível do texto.

ED:­ E vocês, quais foram os desafios que enfrentaram ao interpretar sua personagem? Contem um pouco como foi o processo.

Carú Lima: A Lema é uma aluna complexa pra mim dentro desse espetáculo que fala sobre liberdade. É ela que tem a sua liberdade tolhida quando resolve se manifestar. No início tive muitas questões para entendê-la, eu pensava:”Poxa, mas porque tinha que ser bem eu, a Lema, a não querer entrar na sala e quebrar tudo? Por que eu não posso falar palavrões?”, mas conforme o processo de ensaio foi acontecendo eu me apaixonei pela personagem e sem dúvida o Tuna fez a melhor escolha de personagem para mim, me deu um desafio e eu sou muito grata por isso.

O desafio era o de pensar/conseguir estar nos dois lugares, integrada ao grupo de alunos ao mesmo tempo em que eu teria uma opinião diferente deles. É muito legal lidar e construir as contradições dos personagens, assim como na vida nós vivemos sempre cheio de contradições. Não dá pra pensar em ”bom X mau”, o mundo e a complexidade humana vai muito além disso.

O processo de montagem foi um dos mais deliciosos da minha vida, consolidamos um grupo e uma parceria dentro e fora das salas de ensaio. Trabalhar com coro foi difícil não só pela sincronia de falas e movimentos, mas porque construir um pulso comum em grupo é complicado e exige que você esteja presente sempre. Não dá pra não estar inteiro nesse tipo de processo, e acredito que estávamos lá inteiros sempre, ou quase sempre, e foi a partir disso, e da condução do Tuna e dos olhares atentos da Sol (que nos acompanhava também) que descobrimos muito do trabalho em coro.

O espetáculo foi construído a partir do jogo e da relação entre nós, foi uma construção mesmo. Passo a passo construindo-jogando e pensando sobre nossas escolhas, refletindo sobre elas e repetindo. Com muito trabalho (e muito prazer) construímos essa peça.

Júlia Novaes: O maior desafio, para mim, foi fazer um coro. Estarmos juntos, falarmos não apenas por nós mesmos, mas por um coletivo que estamos representando. Apesar das individualidades. Em geral, quando pensamos num personagem, pensamos na história dele. E nesse texto e nessa montagem, isso vai além.

ED:­ Apesar de alguns anos de diferença, qual a ligação que vocês enxergam entre a escola do período em que vocês estudaram, a realidade dos estudantes agora e o "coro dos maus alunos"?

Júlia Novaes: Acho que, infelizmente, muito do sistema educacional, que deve ocupar a maior parte da vida dos jovens, mudou muito pouco. Esse acho que é, inclusive, um das grandes questões discutidas pelo texto, já que o mundo muda tão rápido. Mas o sistema educacional não acompanha. Então acho que a principal mudança entre o período que eu estudei e os estudantes de agora é que eles estão cada vez mais distantes desse sistema antigo. Ao mesmo tempo vejo os estudantes cada vez mais engajados em protagonizar essas mudanças e o governo cada vez mais engajado em manter a coisa como está.

Luisa Taborda: A ação da peça se passa toda dentro da escola, no entanto o autor não determina um contexto específico para ela, o que permite que esta escola representa todas as escolas, em qualquer tempo ou lugar. Acho que uma das questões provocadas pela peça é justamente essa: o mundo gira, nós evoluímos, as juventudes se transformam, e a impressão que temos é que o sistema escolar não acompanha esse caminho, fica sempre vários passos atrás.

Identifico no texto muitas semelhanças à escola que eu estudei e, se hoje a realidade dos estudantes é diferente, atribuo essa diferença mais à transformação dos alunos e dos jovens do que a mudanças na escola e na maneira de enxergar a educação.

ED:­ Qual a importância que essa dramaturgia traz para a atualidade?

Luisa Taborda: Acredito que enxergar com clareza os problemas é o primeiro passo para a transformação. A peça conta uma história que evidencia diversas questões difíceis - às vezes perigosas - que envolvem o universo escolar, e coloca em primeiro plano o jovem aluno, como protagonista da ação. Acho que a potência do”Coro” está na possibilidade de criar identificação com os alunos, professores e profissionais da educação que assistem à peça. Quando assistimos a uma ficção e pensamos ”é assim comigo também “ ou ”eu também me comporto assim”, somos capazes de nos enxergar no outro, e assim identificar nas próprias relações que cultivamos o que pode ou precisa ser transformado.




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