Cultura

ENTREVISTA

Entrevista com a diretora da série 3%

Conversamos com a cineasta Daina Giannecchini, uma das diretoras da série 3% da Netflix. A série, estreada em novembro deste ano, é a primeira produção brasileira do canal e foi criada por Pedro Aguilera.

quinta-feira 22 de dezembro de 2016| Edição do dia

Conversamos com a cineasta Daina Giannecchini, uma das diretoras da série 3% da Netflix. A série, estreada em novembro deste ano, é a primeira produção brasileira do canal e foi criada por Pedro Aguilera.

Os dois, junto aos outros diretores Jotagá Crema e Dani Libardi, iniciaram o projeto em 2009 quando estavam no quarto ano da faculdade. O projeto ganhou um edital que possibilitou a produção do piloto da série e a partir daí os diretores trabalharam na divulgação até chegar na Netflix. A trajetória deles evidencia a importância do apoio a artistas iniciantes dentro de uma realidade em que o incentivo à cultura vem cada vez mais sendo sucateado com cortes drásticos no orçamento de editais, possíveis desmontes de grupos como a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo e o cancelamento da tradicional Oficina de Música de Curitiba.

A série se passa em um futuro distópico em que existem dois mundos: o Maralto ou “Lado de lá”, que é um mundo justo, onde todas pessoas tem acesso à saúde, educação, segurança, moradia e conforto e o Continente ou “Lado de Cá”, um mundo de desigualdade, violência e precariedade. Aos 20 anos, os moradores do Continente tem a possibilidade de ir para o Maralto, mas devem passar por um processo de seleção do qual apenas 3% serão escolhidos para ir para um mundo melhor.

Confira a entrevista

L.D.: A série já foi comparada com outras distopias como a do livro 1984 e com filmes como “Jogos Vorazes” e “Divergente”. Como vocês analisam essas comparações?

D.G.: Na verdade, o livro 1984, do George Orwell, bem como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, foram as primeiras inspirações pro 3%, já que o Aguilera estava influenciado por essas leituras quando tinha 20 anos e estava no fim da faculdade. A ideia era experimentar a ficção distópica para abordar processos de seleção meritocráticos, como o vestibular ou entrada no mercado de trabalho. Mas, há 7 anos, quando tudo começou, nem tinha começado o boom das séries Jogos Vorazes e Divergentes e ainda nem conhecíamos os livros. Eu acho que há semelhanças gerais no sentido de serem distopias, mundos pós-apocalípticos, que falam de injustiça social e de passagem para o mundo adulto. Mas acho que no 3%, a gente se preocupou bastante em mostrar vários lados. Não é por acaso que 3% não tem um só protagonista. Eu acho que o mais legal de 3% é essa preocupação em buscar sinceridade nas visões de múltiplos personagens. Ninguém se julga opressor. As pessoas sempre se crêem dignas e merecedoras. O 3% fala de uma sociedade onde as pessoas querem fazer parte do Processo e aceitam o julgamento a que se submetem. Essa validação da meritocracia é a discussão específica que o 3% traz.

L.D.: A série é bastante equilibrada em relação ao protagonismo de mulheres e negros. Qual vocês acham que é o papel do artista na criação de espaços de representatividade?

D.G: Eu acho fundamental que o grande público tenha personagens como Joana, Fernando, Aline, para se identificar. E que esses personagens tenham pensamentos e emoções singulares e profundos. Acho também importante poder ver a Zezé Motta numa personagem em situação de poder, exercendo função de uma importante Conselheira da sociedade do Maralto.

Acredito que haja dois caminhos de representação possíveis no audiovisual: um é denunciar as coisas horríveis que acontecem a nossa volta pra que ninguém possa ignorá-las. Outro caminho (que eu acho oportuno quando se está contando uma história que se passa num futuro incerto, onde não há qualquer compromisso histórico com nossa realidade social atual) é colocar na tela uma sociedade diferente, em que machismo e racismo não são mais formas vigentes de opressão. Pra que a gente veja isso. Pra que a gente se acostume a ver. Pra criar esse imaginário. Enfim, pra que a gente abra espaço na cabeça das pessoas no sentido de superar preconceitos.

L.D.: Vocês iniciaram esse projeto em 2009 com o Edital FicTV. Vocês poderiam falar um pouco sobre a importância desse edital no percurso de vocês?

D.G.: O FICTV foi um formato muito interessante de edital e é uma pena que tenha tido apenas uma edição. Eu, a Dani Libardi, o Jotagá Crema (diretores) e o Pedro Aguilera (criador de 3% e roteirista) estávamos no 4º ano de faculdade de Audiovisual, na ECA/USP, quando surgiu essa oportunidade do FICTV. Foi um momento muito importante para nós pois já éramos estudantes maduros e portanto tínhamos confiança pra propor um projeto consistente, mas ao mesmo tempo ainda tínhamos muito frescor e disposição para desenvolver o projeto. O edital proporcionou que desenvolvêssemos a primeira bíblia da série e também filmássemos o episódio piloto, que depois foi lançado como websérie no youtube. Foi uma experiência muito densa, em que pudemos aprender muito, tanto pela a experiência de realizar o piloto com uma equipe de profissionais muito talentosa, como pelo acompanhamento dos consultores de dramaturgia e direção do edital e também pelo contato com a recepção do público que assistiu naquela época.

L.D.: O Maralto ou “Lado de Lá”, que não aparece na primeira temporada da série, é apresentado como o mundo perfeito, ideal. Pelo que podemos notar com as indicações dos personagens que vieram de lá, nos parece um mundo bastante ordenado e controlado. Qual é a relação que vocês fazem entre controle e perfeição?

D.G.: Vou te dizer que achei difícil racionalizar essa resposta. Estava conversando com o Aguilera a respeito e ele falou algo como: “A perfeição é inatingível. E o controle gera ansiedade porque dá a ilusão de que a perfeição é atingível.” Eu acho que é isso mesmo. Quer dizer, não acho que controle e perfeição tenham uma relação verdadeira ou essencial de causa e efeito. Acho que são coisas que se confundem. Um estado de perfeição parece prever um equilíbrio quase místico entre as coisas, um senso de liberdade e confiança muito fortes. Acho que o controle mascara isso, dá a ilusão de que tudo está em paz, mas na verdade tudo está anestesiado, reprimido. A gente acha legal explorar mais essa ideia na segunda temporada.

L.D.: Tanto alguns membros do Processo, a seleção que elege quem vai para o lado de lá, quanto alguns membros da Causa, movimento que combate o Processo e a segregação dos mundos, se utilizam da ética “os fins justificam os meios” para alcançarem seus objetivos, sejam esses meios roubos, calúnias, armações ou assassinatos. Seria uma crítica às ideologias de maneira geral?

D.G.: Essa é uma discussão que me fascina. A questão pra mim é menos ideológica e mais pessoal. É honesto colocar uma ideologia na frente dos seus atos? É mesquinho lutar por si próprio? O dilema é esse: na ânsia de concretizar e defender nossa ideologia, corremos o risco de nos cegarmos pro que estamos fazendo de fato. Só que também manter-se completamente puro, pode nos conduzir à inércia completa.

L.D.: Estamos vivendo uma grave crise econômica e política no país. Ao mesmo tempo, vocês estrearam a primeira produção brasileira da Netflix, vista em mais de 190 países. Como vocês analisam as perspectivas para a produção audiovisual no Brasil a partir de agora?

D.G.: Eu acho que tem-se desenvolvido um trabalho bastante sólido no sentido de fortalecer instituições, produtoras e profissionais que trabalham com audiovisual no Brasil nas últimas décadas. A existência da Lei 12.485, do FSA, dão vigor pro nosso mercado e eu torço pra que não haja nenhum retrocesso nesse sentido nos próximos anos. A perspectiva de que a Netflix vai fazer mais séries originais brasileiras me entusiasma. É muito legal essa recepção em 190 países e importante pra nossa auto-estima, acho que isso nos fortalece. Uma brincadeira comum que eu via nas redes sociais sobre o 3% eram brasileiros dizendo aos gringos “Estou assistindo 3% sem legenda. Acho que agora o jogo virou, não é mesmo?”. Eu acho muito divertido ver esse movimento. É muito importante que o mundo possa ouvir a nossa língua. A relação que você tem com uma obra audiovisual quando ela é falada na sua língua, quando você intuitivamente reconhece sotaques, quando você, sem pensar, reconhece suas palavras naqueles personagens é especial. Perceber o interesse de pessoas de outras culturas por nossas histórias dá um orgulho enorme no sentido de “eu também posso falar pro mundo, eu também posso gerar interesse, eu também existo”. Ter um conteúdo brasileiro, em língua portuguesa, distribuído de forma tão ampla no mundo cria um senso de igualdade e é catártico.

L.D.: Um dos temas centrais da série é a meritocracia. Como vocês analisam a meritocracia dentro do mercado artístico?

D.G.: Eu acho que assim como em outros mercados, metade da seleção é por aspectos técnicos, por currículo, e metade é por indicação. No meio artístico fica mais confuso definir o que é mérito pois a subjetividade reina. Então, uma das limitações da meritocracia fica evidente: sempre terá alguém que vai definir os critérios de escolha. E no meio artístico, quem cria o processo de seleção acaba colocando seu próprio viés na escolha, criando assim injustiças inevitáveis.

L.D.: Vocês são jovens diretores que passaram por diversas seleções e por muitos anos de muito trabalho, determinação e resistência. Vocês seriam os 3%?

D.G.: É engraçado que muita gente pergunta isso, rs… Sempre penso que uma resposta positiva encaixaria perfeitamente, parece que as pessoas anseiam por isso, tornaria nossa trajetória mais fabular, né? Mas eu pessoalmente não consigo me enxergar nesse lugar dos 3%… Reconheço e sou muito grata pelas oportunidades fantásticas que recebemos e que soubemos aproveitar, e lembrando que tivemos muitas pessoas importantes que nos guiaram e ajudaram nisso tudo. Mas sempre que acaba um processo, começa outro, e outro e mais outro. A gente nunca acha que chegou do outro lado.




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