Gênero e sexualidade

28S: DIA DE LUTA PELA DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO

Entrevista com Sol Massari, militante do PSOL ABC

Sol Massari é Mestre em Serviço Social, tem Especialização em Psicopedagogia, é Assistente Social, Professora, Militante do Psol, Mãe e Mulher.

quinta-feira 28 de setembro| Edição do dia

Esquerda Diário: Vivemos em tempos de um governo que implementa uma intensa retirada de direitos e um Congresso que está acelerando ainda mais propostas contrárias a demandas democráticas como o direito ao aborto, visto a atual tramitação da PEC181/2015. Como você vê essa realidade?

Sol: Acredito que devo começar pontuando a data de 28 de setembro, pois é quando se comemora o dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto, data determinada no 5° Encontro Feminista da região, em 1999. Qual a relevância desta data? É quando nos damos conta que a legalização ocorre apenas em Cuba, na Cidade do México e, recentemente, no Uruguai.

Bem, mas pensar sobre PEC 181 de 2015, que originalmente PEC 99 de 2015, encaminhada pelo Senado para apreciação na Câmara dos Deputados, em dezembro de 2015. É importante apontar que sua autoria é do senador afastado e denunciado por corrupção Aécio Neves (PSDB/MG), na sua essência tem o mesmo teor da PEC 58/2011 de 2011 (Câmara), que visa ampliar a licença maternidade para mães de bebês prematuros. Até ai não vejo problemas, pois um bebê que nasce de 6º, 7ª ou 8º meses necessita de um atendimento diferenciado e assim sua mãe precisa de um tempo maior para estar junto dele. A questão é o oportunismo que isso pode gerar no sentido de surgir emendas desfavoráveis à pauta do direito ao aborto como, entre elas citamos o reconhecimento do direito à vida desde a concepção.

A má-fé, a intolerância e o conservadorismo podem se apropriar de uma lei que garante a mulher um tempo maior com seu filho, que é proveniente de uma gestação feliz, desejada, mas que por algum motivo houve uma antecipação ao parto, ou seja, uma mesma lei que pode garantir direito, também pode penalizar a mulher que não deseja dar continuidade a gestação.

ED: Qual a importância do dia 28 de setembro na luta pelo direito ao aborto e sua descriminalização?

Sol: Bem vamos lá, o que representa essa data? Entendo que a importância da mulher lutar pela legalização do aborto. Essa luta é pelo seu direito de escolha e da sua autonomia em relação ao seu corpo.

Entendo que a discriminação é uma luta para garantir o aborto seguro, haja vista o número de mulheres que morrem, pois temos dados que cerca de 70 mil mulheres são vítimas de abortos inseguros. E o que é aborto inseguro? Quem debate francamente essa questão? Enquanto o debate árduo da ala conservadora criminaliza a mulher, muitas vidas se perdem com os procedimentos que interrompem a gravidez indesejada e a mulher vem a óbito. No desespero, no medo, na aflição muitas mulheres se submetem a intervenção, recorrendo à pessoas sem menor escrúpulo, sem as habilidades necessárias e muito menos num ambiente sem segurança, higiene e as conformidades mínimas de padrões médicos. Sem falarmos, que muitas clínicas clandestinas lucram com essa atividade.

Quantas mulheres ainda terão que recorrer a essa situação, porque a sociedade a criminaliza, mas não entende a dor dessa mulher? Se submeter ao aborto não é tarefa fácil. Não digo que as pessoas devem ser a favor do aborto, mas que devem respeitar as decisões de fórum íntimo de cada mulher.

O aborto inseguro tem complicações imediatas na vida da mulher, colocando sua vida em risco, pois o risco de sangramento abundante é uma questão presente, além das infecções e das perfurações do útero. Esse sofrimento, caso sobreviva pode se estender por toda a vida.

Quanto custa o sofrimento humano? Sofrimento não se mede estatisticamente, mas se comunga com o outro. Penso, que na grande maioria das mulheres, o aborto não era o seu desejo de fato, mas jamais podemos julgar tal decisão. Devemos ter solidariedade, a não discriminar não diminuiu o número de mulheres que buscam o aborto e talvez a própria morte, o que é preciso é sermos menos intolerante e entender que cada um sabe e sofre da sua própria dor. Como disse Bob Dylan "Quantas mortes precisará haver até que se perceba que pessoas demais já morreram? "

ED: Qual desafio enfrenta o movimento de mulheres pelo direito a decidir pelo próprio corpo e a luta pela emancipação das mulheres?

O desafio é enorme. O que vivemos é um total retrocesso na sociedade brasileira. A criminalização populacional se dará na vulnerabilidade, na dignidade e na integridade da classe trabalhadora. Teremos como resultado o aumento da violência causada pela miséria e pelo grito de sobrevivência que recairá sobre cada homem, mulher, criança e jovem desejosos de se manter vivo e não apenas com sobrevida.

A exclusão social é um dos caminhos que levam as pessoas não exerceram a cidadania.

Quando penso nesse quadro social, penso quanto a luta da mulher é árdua, mas de muita resistência. Árdua, porque a cada dia a sociedade brasileira desmonta mais e mais as Políticas Sociais recaindo diretamente nas Políticas Públicas, mas de resistência porque há uma mobilização em manter a democracia e os direitos conquistados com muita luta. E não consigo enxergar a mulher fora deste dois pontos Luta e Resistência.

A mulher tem demonstrado em várias partes do mundo conquistas, enquanto no Brasil lutamos pela legalização e descriminalização do aborto, na Arábia Saudita as mulheres conquistaram o direito de dirigir em pleno 2017.

A decisão do direito ao próprio corpo é algo tão irreal na minha concepção de vida...veja..ter direito de decidir pelo PRÓPRIO corpo. O corpo é meu, é seu ...ninguém tem o direito de dizer o que faço ou não...ou melhor, até tem direito de opinar, mas não de determinar. Essa luta é árdua, ainda há mulheres que precisam pedir permissão para o seu companheiro sobre a roupa que vai usar, se ainda temos essa situação o que dizer para uma sociedade machista, conservadora e intolerante que a mulher tem o direito de escolha se interrompe ou não uma gestação que está no corpo dela.

Nesse momento, se faz necessário um debate onde possamos discutir qual a estratégia que podemos ter no sentido de organizar e de mobilizar as mulheres, para que nossos direitos não sejam aliciados como já ocorreu na construção histórica do feminismo. Deixo aqui uma frase que considero importante na minha vida e de qualquer outra pessoas "Querer ser livre é também querer livres os outros" Simone de Beauvoir.




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