BALANÇO DO CONUNE

Entre os que preparam nossa derrota e os desafios de um movimento estudantil que pode vencer

Como viemos noticiando no Esquerda Diário, nos últimos dias 10 a 14 de Julho, ocorreu o 57° Congresso Nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes). Nós da juventude Faísca - Anticapitalista e Revolucionária e do grupo internacional de mulheres Pão e Rosas batalhamos por nossas ideias nesse espaço e queremos com esta nota colocar em debate ao movimento estudantil nacional um balanço do CONUNE e os enormes desafios que vemos daqui em diante, frente à Reforma da Previdência, ao projeto Future-se e ao conjunto dos ataques dos capitalistas contra nosso futuro.

Pão e Rosas

@Pao_e_Rosas

quinta-feira 18 de julho| Edição do dia

O primeiro CONUNE contra Bolsonaro não foi histórico e não preparou uma perspectiva para vencer

O ódio de Bolsonaro à classe trabalhadora, às mulheres, aos negros e LGBTs é incessante e se renova a cada dia em seus planos. Em nome dos capitalistas, junto à casta política de Maia e Alcolumbre e ao Judiciário, quer ir até o final para descarregar a crise internacional sobre a vida e o futuro dos que diariamente suportam exploração e opressão. Afinal, a eles sempre é possível nos sugar mais, que trabalhemos mais tempo, por mais anos, aos domingos e feriados, sem descanso e nas piores condições, e também lucrar mais com a educação, em seu projeto privatista anti-ciência. Junto a isso, para aprofundar a repressão, o pacote do Moro quer legalizar a impunidade da polícia contra a juventude negra nas periferias.

Mais do que nunca, uma oposição que deseja arrancar outra perspectiva de futuro à juventude deve estar à altura de responder ao ódio e à miséria que despejam sobre nós, diante dos primeiros meses desse governo da extrema direita no Brasil e na América Latina, apoiado pelo imperialismo norte-americano e viabilizado pelo golpismo institucional da Lava Jato e pela prisão arbitrária de Lula, com aval do Congresso e do STF.

Por isso, a UNE poderia ter reunido milhares de estudantes em Brasília para realizar um balanço profundo das mobilizações dos últimos meses e preparar um verdadeiro plano de lutas que desse vazão à energia da juventude que se comprovou nas ruas, fazendo jus à potência do movimento estudantil que já se mostrou em outros momentos da história capaz de incendiar a classe trabalhadora. No CONUNE, nós tínhamos acabado de saber de Thiago Dias, jovem trabalhador que padeceu fazendo entregas pela Rappi e teve como resposta o desprezo dessa empresa, à qual somos obrigados a recorrer para fugir do desemprego em ascensão.

Vimos que, enquanto Thiago, que deve estar presente em cada uma de nossas lutas, transformou-se em um retrato agonizante do futuro que esses políticos privilegiados almejam à maioria da juventude brasileira, o CONUNE tornou-se um retrato de como não preparar qualquer perspectiva de saída contra esse projeto dos capitalistas.

Estampado orgulhosamente nas páginas da UNE um número recorde de 8 mil delegados inscritos, não foi isso o que se expressou na prática, e sim um espaço arquitetado para não fugir do controle político da direção majoritária, já tendo sua data alterada inúmeras vezes em detrimento da juventude trabalhadora. Seu formato burocrático, com plenárias nas quais ninguém consegue se ouvir e sem grupos de discussão, impede que o conjunto dos estudantes se expresse e possa ser sujeito da política da entidade.

Assim, os espaços antidemocráticos fortalecem que a UNE siga encobrindo as centrais sindicais, que estão entregando nosso futuro sem nenhum plano de lutas sério contra a Reforma da Previdência, enquanto os próprios governadores do PT e PCdoB no Nordeste, partidos que estão na direção dessas entidades, apoiam essa Reforma.

Por quê? Foi essa a denúncia que nós da Faísca levantamos em faixa no primeiro dia de CONUNE, ao mesmo tempo em que centenas de deputados estavam decidindo em primeiro turno naquele momento que devemos trabalhar até morrer, inclusive com o voto de Tábata Amaral (do PDT), elogiada pelo MBL, e que o CONUNE fechava os olhos à Reforma.

A UNE segue com sua política que separa os estudantes da classe trabalhadora

Assim como nos dias 15 e 30 de Maio e 14 de Junho, a política que imperou no CONUNE segue separando a disposição e força dos estudantes da luta da classe trabalhadora - esta que também havia dado sinais de que, se as grandes centrais, como a CUT e a CTB, tivessem preparado assembleias e reuniões de base, teria sido possível construir uma forte paralisação nacional, com plano de lutas para vencer. Por uma decisão consciente das direções, o “tsunami da educação” veio em separado da luta contra a Reforma da Previdência, apesar da disposição nas ruas. Isto é, o discurso de “unidade” na boca dessas direções, na prática, serve apenas para justificar negociatas entreguistas das cúpulas dos dirigentes sindicais com Maia e os empresários.

Agora, o próximo “passo” que está sendo chamado pelo Calendário da UNE, votado pelo CONUNE, será no dia 13 de Agosto, Dia Nacional do Estudante, contra os ataques à educação. Essa luta se atualiza diante do recente anúncio do programa Future-se de Weintraub, que abre cada vez mais espaço à privatização nas universidades públicas. Justamente por isso, mais um dia chamado em separado da luta contra a Reforma da Previdência, possivelmente após sua votação em segundo turno na Câmara, não significa nenhum plano de luta e não prepara nenhum combate sério desde agora contra os ataques de Bolsonaro, e sim remarca a impotência dessa direção preocupada unicamente com seu desempenho eleitoral. O ato meramente testemunhal após a votação em primeiro turno da Reforma na Câmara no dia 12, chamado pela UNE e pelas centrais em Brasília, sem organizarem milhares de ônibus, confirmou isso.

Isso porque a Reforma da Previdência sempre foi considerada a mãe das reformas, parte essencial dos objetivos do golpe institucional orquestrado por Sérgio Moro e companhia e a qual Temer teve como importante ônus não conseguir concretizar. Agora, a maior fake news do ano, de que combateria privilégios, cessaria um cenário recessivo e geraria empregos, está em questionamento mesmo por parte de analistas burgueses. Essa Reforma é necessária, mas está longe de ser suficiente, dizem.

Para os trabalhadores e a juventude, o recado é de que servirá de preparação para novos embates, já que abre caminho e fortalece o conjunto dos ataques, não à toa Guedes já anuncia nova lista de privatizações e é esse o momento em que Weintraub se sente ainda mais fortalecido para seguir com seus planos, ao agrado dos grandes tubarões da educação.

O programa “Future-se” eleva os ataques à educação, tendo em vista universidades federais que já se mostram em risco de fechar, prevê mais cortes e congelamentos e aprofunda a entrega do conhecimento ao capital privado, com verbas públicas na Bolsa de Valores. Diante do Acordo da UE com o Mercosul, a dimensão ideológica e material desse programa responde às necessidades de uma ciência precária ainda mais dependente e semicolonial, ditada unicamente pelos interesses dos lucros da burguesia e com desenvolvimento tecnológico concentrado em alguns centros de excelência e em áreas escolhidas a dedo.

Ao mesmo tempo, não há dúvidas de que o avanço da Reforma aponta para uma derrota do movimento de massas, ainda que não definitiva, se as direções seguirem o script do que vieram mostrando ao longo desse semestre e do que se provou uma vez mais no CONUNE. Então por que esperar dia 13? Mesmo a obstrução parlamentar, desempenhada pelos deputados da oposição na Câmara, teria serventia somente na medida em que nos desse tempo para organizar os combates e que estes estivessem sendo preparados a partir da mobilização massiva desde cada local de estudo e trabalho, com os estudantes e trabalhadores se auto-organizando em reuniões e assembleias e se articulando entre si. Foi nessa perspectiva que a Faísca defendeu que após os atos do dia 15, a UNE convocasse milhares de assembleias nas universidades e que, junto com as centrais sindicais, se convocasse um Comando Nacional de Mobilização, com delegados eleitos e revogáveis em cada local de trabalho e estudo, para que os estudantes e trabalhadores pudessem decidir democraticamente o rumo das lutas.

No vértice oposto do que ocorreu no CONUNE, tirar lições dos combates que travamos até aqui teria como objetivo preparar não apenas o embate contra a Reforma da Previdência que deve seguir, como, nesse processo, construir uma força social capaz de derrotar o conjunto desse projeto.

Nesse sentido, a política divisionista da UNE, que barra qualquer unidade dos estudantes com a classe trabalhadora e impede espaços de auto-organização da juventude, a serviço dos acordos de cúpula, leva o movimento estudantil a um beco sem saída, já que é incapaz de barrar a Reforma e verdadeiramente defender a educação.

Qual papel a Oposição de Esquerda deve cumprir?

Essa batalha anti-burocrática, pela auto-organização dos estudantes e pela unidade com a classe trabalhadora, para tornar uma vitória possível, foi parte do combate que nós da juventude Faísca - Anticapitalista e Revolucionária travamos neste Congresso, denunciando e enfrentando essa política da direção majoritária. É por isso também que nós, mesmo antes de se iniciar o Congresso, chamamos a Oposição de Esquerda da UNE (PSOL, PCR e PCB) a construir uma Plenária Unificada que aglutinasse os setores que querem ser oposição pela esquerda a essa burocracia, para discutir quais são os desafios do movimento estudantil nacional e dar início a um polo anti-burocrático que preparasse nosso retorno a cada universidade. Entretanto, isso não se concretizou. Pelo contrário, o que vimos até o último momento foi um intenso processo de discussões dentre as direções da Oposição centrado na disputa por cargos na UNE.

Nós da Faísca remarcamos diferenças fundamentais com ambas as alas de oposição que se mostraram no CONUNE: por um lado, setores como o Juntos seguem embelezando o golpismo da Lava Jato, recentemente buscando isolar Moro do projeto por trás dessa Operação imperialista; por outro lado, setores como o Afronte e Rua (Juventude sem medo) cedem cada vez mais ao petismo, incorporando seu programa e não denunciando sua política, que também se expressa na UNE. Abrindo mão do combate anti-burocrático no CONUNE junto ao PCR e PCB, organizações que se apoiam no nefasto legado stalinista, ambas as alas se recusaram a construir uma Plenária Unificada que preparasse uma alternativa capaz de impulsionar uma luta séria, porque pautam a Oposição na UNE pela divisão dos cargos.

Entretanto, diante de uma Oposição que saiu unificada ao final, nós da Faísca retiramos nossa candidatura à direção da UNE e chamamos voto crítico nessa chapa, defendendo que essa unificação tem que se materializar em espaços de base, como Plenárias da Oposição em cada universidade para votar um plano que realmente esteja a serviço de superar a burocracia. A começar, uma oposição verdadeiramente de esquerda na UNE deve chamar pela antecipação do dia de luta marcado para o 13, com a preparação de um verdadeiro combate contra a Reforma da Previdência e o programa Future-se, como uma só luta, e que a UNE se coloque em exigência às centrais sindicais para unificar, também denunciando desde agora o papel que essas direções estão cumprindo.

Por isso, chamamos a Oposição a convocar dezenas de plenárias estaduais, capazes de dar início ao pólo anti-burocrático que se faz cada vez mais necessário e que também sirvam para organizar um Encontro Nacional de toda a Oposição.

O fato de Boulos ter reunido cerca de 2 mil estudantes no Congresso reforça que a referência que o PSOL conquistou na juventude poderia estar a serviço de um programa que realmente imponha que os capitalistas paguem pela crise. Se nos atacam com a Reforma da Previdência e cortes na educação, por que não levantar o não pagamento da fraudulenta dívida pública e a divisão das horas de trabalho entre empregados e desempregados sem redução de salários e direitos para combater o desemprego alarmante? Por que, contra o autoritarismo judiciário, junto à liberdade imediata de Lula, não defender que os casos de corrupção sejam julgados por júris populares e que juízes e políticos ganhem o salário de uma professora? Por que as figuras do PSOL não se colocam também para que o The Intercept revele tudo o que tem? Por que não levantar uma investigação independente que chegue aos mandantes do assassinato de Marielle? Essa perspectiva fortaleceria a luta da juventude e da classe trabalhadora.

Conheça e construa a juventude Faísca e o grupo internacional de mulheres Pão e Rosas

Foi com essas ideias de uma juventude marxista anti-imperialista e anti-burocrática, impulsionada pelos militantes do MRT junto a independentes, que nós interviemos no CONUNE. Levantamos um programa radical e revolucionário, que, partindo de defender nossas conquistas como as cotas étnico-raciais e as bolsas, junto à sua ampliação, coloca-se em luta por universidades verdadeiramente a serviço da classe trabalhadora e do povo pobre, levantando o fim do vestibular e a estatização das universidades privadas e também lutando para que o conhecimento produzido na universidade esteja a serviço das necessidades dos trabalhadores e da população.

Vemos que, internacionalmente, diante de governos da extrema direita, a juventude é linha de frente dos que querem resistir. Nos EUA, coração do imperialismo, uma grande parcela de jovens vê a ideia do socialismo com bons olhos.

Por nossa vez, defendemos que a força dessa geração à qual a crise capitalista internacional coloca grandes desafios não pode estar a serviço unicamente de resistir, e sim de vencer.

Para isso é necessário armar os estudantes com uma estratégia capaz de cumprir esta tarefa histórica, se ligando à tarefa estratégica da unidade de toda a classe trabalhadora com a juventude e os setores oprimidos, superando as burocracias.

Resgatando as ideias da teoria revolucionária, de Marx, Engels, Lenin, Rosa e Trotski, tirando lições de cada processo de lutae construindo uma força material, com correntes militantes em cada local de estudo e trabalho, defendemos retomar nossas entidades, como a UNE, para nossas mãos em uma perspectiva revolucionária que vá além da miséria imposta pelo capitalismo. Frente à crise que os capitalistas querem descarregar em nossas costas, são eles ou nós, e devem ser eles a pagarem essa conta!

Veja na íntegra todas as intervenções da Faísca e Pão e Rosas no 57º CONUNE




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