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Análise | Entre ameaças golpistas, quais resultados Bolsonaro colhe com embaixadores?

Um presidente incumbente destituído de favoritismo eleitoral tende a recorrer a muitos expedientes para voltar ao páreo. Bolsonaro e sua política de extrema direita experimentam essa situação no Brasil.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

quarta-feira 20 de julho | Edição do dia

A reunião com os embaixadores foi comentada em todos os jornais como um fracasso. Nela, Bolsonaro atacou diante de 70 representantes internacionais, obrigados pelo convite oficial a estar na sala, seus principais adversários, questionando os procedimentos eleitorais com suas intenções golpistas. Entre os ausentes, importante notar a dos comandantes das três forças militares, para além dos chefes dos outros poderes.

Fez as habituais críticas a Lula, que capitaneia novamente as alianças do PT com a direita, agora junto a Geraldo Alckmin, uma política incapaz de derrotar a corrente de extrema direita surgida em seu mandato. Atacou também ministros do STF como Fachin, Barroso e Moraes, atuando por lustrar as inexistentes credenciais democráticas destas instituições tão golpistas e arbitrárias como o Supremo Tribunal Federal, ou o TSE, que em 2018 atuaram em comum com a Lava Jato.

O golpista hiperventilava dificuldades ao mundo.

Com a estratégia dos powerpoints, à la Dallagnol, buscou opor o alto escalão das Forças Armadas, boa parte da qual lhe dá seu apoio através do ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira, às demais instituições encarregadas da organização do pleito eleitoral, e que se chocam com Bolsonaro. Nota à parte, o Exército, com milhares de funcionários no alto escalão do Estado, é um elemento bonapartista que tem sua presença repudiável em cada centímetro da vida política, e quer já preparar a preservação de seus benefícios materiais no futuro. Por isso apoia agora Bolsonaro, a ver se aumenta o preço de sua colaboração num eventual novo governo. Ao final, Bolsonaro não recebeu cumprimentos dos diplomatas, que não apreciaram o show, como conta Murilo Fagundes do Poder360.

A embaixada dos Estados Unidos não publicou qualquer referência ao evento. Elizabeth Bagley, embaixadora destacada para chefiar os assuntos do imperialismo norte-americano no Brasil, já havia censurado anteriormente similares tentativas de por em dúvida o sistema eleitoral. O representante dos EUA na reunião foi o encarregado de negócios Douglas Koneff, que confirmou de última hora a presença.

O governo Joe Biden divulgou uma “declaração oficial de confiança nas instituições democráticas brasileiras”, em tom semelhante ao que vinha adotando em ocasiões parecidas, e que transmitiu através do assessor de segurança nacional, Jake Sullivan, em encontro pessoal com Bolsonaro. "As eleições brasileiras conduzidas e testadas ao longo do tempo pelo sistema eleitoral e instituições democráticas servem como modelo para as nações do hemisfério e do mundo. Estamos confiantes de que as eleições brasileiras de 2022 vão refletir a vontade do eleitorado. Os cidadãos e as instituições brasileiras continuam a demonstrar seu profundo compromisso com a democracia. À medida que os brasileiros confiam em seu sistema eleitoral, o Brasil mostrará ao mundo, mais uma vez, a força duradoura de sua democracia."

Essa oposição rápida da Casa Branca é um revés adicional a Bolsonaro, que em junho viajou a Los Angeles para a Cúpula das Américas e havia feito propaganda das boas relações com Biden, a quem pediu ajuda na disputa eleitoral. Trata-se, aliás, de um grande cinismo do Partido Democrata, que orquestrou a Lava Jato e muitos golpes na América Latina e pelo mundo, querer posar de garantidores da democracia.

Farejando o trumpismo latino-americano, os jornais estrangeiros sentiram a debilidade de Bolsonaro. O The New York Times destacou que o trumpista brasileiro chamou diplomatas estrangeiros para colocar em dúvida as eleições, alimentando temores de que contestará a votação, “que pelas pesquisas, perderá de maneira esmagadora para Lula”. Outro jornal nova-iorquino, agora do mundo das finanças, a Bloomberg, salientou que Bolsonaro “refez velhas e desmascaradas teorias de conspiração sobre a segurança do sistema que o Brasil vem usando há mais de duas décadas”. A agência Associated Press disse que Bolsonaro “apresentou alegações sobre supostas vulnerabilidades, que as autoridades eleitorais já desmascararam repetidamente”. O britânico The Guardian apontou as “alegações infundadas e reivindicações sem fundamento” do presidente daquele país dos Bruzundangas tão comicamente vertido por Lima Barreto. O Frankfurter Allgemeine Zeitung, principal jornal da burguesia alemã, traça o perfil de Lula como aquele que eleitoralmente poderia remover Bolsonaro da presidência, uma piscadela curiosa desse segmento do imperialismo europeu.

Trata-se de uma busca para tentar alguma forma de reversão da fragilidade na corrida eleitoral, mesmo que isso não incapacite as hordas bolsonaristas de seguir atuando. O momento da exposição já vinha sendo de defensiva por parte do governo, que viu se acrescentar às péssimas condições de vida, à inflação global fruto da guerra na Ucrânia e ao alto desemprego, uma maior pressão depois do assassinato do petista Marcelo Arruda no Paraná. Talvez como emblema desse momento complexo para a extrema direita, Bolsonaro, que escolheu ao invés dos gritos um tom de voz falto de rispidez para atrair o coletivo de embaixadores, se posicionou no estranho ângulo de futuro perdedor das eleições para Lula. Questionando Fachin, perguntou ao público: “Será que já está antevendo que o candidato dele, que ele tornou elegível, vai ganhar as eleições?”.

Para influir nas tropas, é uma posição questionável desconfiar da própria campanha. Apostar na retórica trumpista, entretanto, já se provou útil ao Republicano em 2020, e Bolsonaro parece querer repeti-lo à risca.

Bolsonaro está usando a estratégia que melhor quadra aos objetivos de insuflar o 7 de setembro como seu principal palanque eleitoral, antes do pleito de outubro. Já havia conquistado junto ao Centrão no Congresso a autorização para fazer gastos bilionários em ano de campanha a fim de alavancar suas condições, tentando atenuar por motivos puramente eleitorais os efeitos da miséria e pobreza de seu programa ultraliberal. A estrela da PEC das benesses é o aumento de R$200 no Auxílio Brasil, que hoje paga ao menos R$400, além de benefícios para caminhoneiros e taxistas, benefícios que envolvem acordos para compra de diesel barato da Rússia. Aliado a isso, aumenta o som da balbúrdia contra os procedimentos eleitorais e busca fundamentar a tática do questionamento dos resultados, via “Capitólio” ou outro método.

As dificuldades não implicam que Bolsonaro está sem saída. As movimentações para conseguir fazer jorrar dinheiro na economia podem ter algum efeito antes de outubro, mesmo que episódico. Uma possível sensação de relativa melhoria diante da catástrofe dos últimos anos poderia ter um efeito na balança política, ao menos para tentar impedir a vitória de Lula no primeiro turno. Como diz o analista Alon Feuerwerker, “Se o dinheiro chegar no bolso do eleitor e a sensação de bem-estar crescer durante a campanha eleitoral, mesmo que a gente tenha pouco tempo para a eleição, que é um período muito intenso de busca de informação, acredito que há tempo suficiente para isso ter impacto”.

Trata-se de algo incerto. O Auxílio Emergencial de R$600 distribuído pelo governo em 2020, na pandemia, demorou cerca de 4 meses para surtir efeito positivo na avaliação do governo. Como escreve William Waack, a tentativa de incrementar benefícios políticos pode favorecer o próprio adversário, ao não chegar a tempo nem reverter a sensação de pauperização. “Os eleitores mais pobres mencionam a economia como fundamental na formação do voto e consideram que R$ 600 de ajuda já não são R$ 600, grana que ainda por cima só será paga até o fim do ano. Ou seja, aos olhos do público-alvo a PEC do Desespero chega com pouco. Além de chegar tarde, o segundo fator limita sua eficácia eleitoral. Existe um reconhecido ‘time lag’ entre a aprovação/efetivação de um benefício e a melhoria da situação do candidato nas pesquisas. […] Para piorar a situação de Bolsonaro, ele está sendo vítima da famosa lei das consequências não intencionais. Ao dedicar-se desesperado à compra de votos via benefícios sociais, paradoxalmente o presidente reforça a imagem de seu grande oponente – Lula é visto pelos mais pobres, em termos de atributos, como aquele que melhor garantiria os benefícios para além do horizonte de dezembro estabelecido na PEC do Desespero.”.

Essas repudiáveis ameaças golpistas de Bolsonaro, mesmo num momento defensivo, tenta reagir buscando alentar a sua base, testa a correlação de forças a todo momento em relação ao discurso de fraude eleitoral, com um objetivo de mínima de manter suas tropas ativas mesmo num cenário de derrota eleitoral. Por isso, é apoiado por militares da reserva próximos ao seu governo, que podem utilizar desse jogo de ameaças para negociar uma melhor localização frente a um eventual novo governo Lula. São muitos fatores que estão em questão com a eleição do Lula, é um novo arranjo no regime no qual os militares querem perder o mínimo possível. Os militares da ativa, no Alto Comando, podem fazer um jogo de deixar certas ameaças se expressarem, de modo que possam utilizar isso para seus próprios propósitos e acordos.

Esse concubinato com os militares torna toda a façanha mais grotesca. Mas é importante dizer que o repúdio ao bolsonarismo não implica aceitar o placebo da conciliação de classes, proposto pela chapa Lula-Alckmin, de aliança com a mesma direita que nos trouxe até aqui, à qual se acomoda a política do PSOL-Rede. Não são os autoritários do Judiciário os que vão dar uma saída às chantagens da extrema direita que alimentaram desde 2016. As próprias manifestações de Bolsonaro mostram que enfrentar a extrema direita e o bolsonarismo deve ser no terreno da luta de classes. Esse combate nas ruas e em cada local de trabalho e estudo deve estar dotado de um programa dos trabalhadores, que parta do repúdio a toda e qualquer ameaças golpista. Nessa luta, o programa deve incluir a revogação integral de todas as reformas, como a trabalhista e a previdenciária, redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais (6 horas, 5 dias na semana), sem redução salarial, no marco de uma luta unificada de empregados e desempregados. Contra a fome, é decisivo lutar pela expropriação de toda grande empresa do agronegócio, colocando-a sob gestão de trabalhadores e do controle popular, junto com a reforma agrária radical, para colocar essa capacidade produtiva a serviço da produção de alimentos saudáveis para toda população.

Bolsonaro não será simplesmente “engolido pelos fatos que pretendia mudar”. Deve ser combatido com um programa consciente, anticapitalista, para que forjemos nossa força de independência de classe para o cenário estratégico que se seguirá depois das eleições.




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