UNICAMP

Entenda quem toma as decisões na consulta à reitoria da Unicamp

Entenda o processo anti-democrático de consulta à reitoria da Unicamp, em que os estudantes não têm voz nenhuma.

Juliana Begiato

estudante de Ciências Sociais da UNICAMP

sábado 6 de março| Edição do dia

Fonte da foto: Sérgio Lima/Poder360 .

Na próxima semana, haverá a “consulta” para a lista tríplice de candidatos à reitoria da Unicamp. A "consulta" significa fazer uma espécie de “pesquisa” entre os professores, trabalhadores e estudantes da universidade acerca da escolha dos novos reitor e vice-reitor. É chamado de “consulta” porque na prática de nada vale os votos adquiridos pela comunidade universitária: ao fim do processo, quem decide os sucessores à reitoria de Marcelo Knobel é o governador de São Paulo, o golpista João Doria (PSDB), que pode optar até mesmo pelo último classificado na votação - embora isso não aconteça desde a ditadura.

É pela via desse sistema de decisão que Bolsonaro, inimigo da educação, tem escolhido no último ano chapas não vencedoras na comunidade acadêmica das universidades federais, nomeando como reitores os chamados interventores. Quanto a isso, inclusive, o STF, pilar do autoritarismo judiciário no regime do golpe, referendou que Bolsonaro não precisa respeitar a consulta, condenando somente os casos em que os interventores não pertencem nem mesmo à lista tríplice (a uma das três chapas mais votadas). Precisamos repudiar todos os interventores, pois estão a serviço de atacar ainda mais as universidades e a ciência e reforçar que a comunidade acadêmica não tenha voz para decidir.

Na Unicamp, esse processo é antidemocrático desde os votos: votam apenas estudantes, trabalhadores técnico-administrativos e professores. Os terceirizados, que somam grande parte da comunidade acadêmica, não têm direito de voto, mesmo garantindo o funcionamento da universidade todos os dias e mostrando que são serviço essencial na pandemia.

Além disso, a votação não é direta (cada voto vale um). Os votos dos professores têm peso de 60% na consulta, enquanto os dos estudantes e trabalhadores somam 40%, mesmo sendo esses a maioria da universidade. Somente professores titulares podem se candidatar ao cargo de reitor, e o processo todo ocorre no máximo até o primeiro mês de aula, deixando a maioria dos estudantes de fora das discussões e debates em suas férias, principalmente os ingressantes deste ano, que já vieram sofrendo com o excludente EaD em um momento de pico de mortes após um ano de pandemia.

Esse método é mais uma mostra de toda a estrutura de poder burocrática que rege a Unicamp. Os estudantes e a comunidade acadêmica não podem decidir os rumos da universidade, enquanto uma casta burocrática, com seus altos salários, controla todas as medidas e decisões. Desde o Conselho Universitário (CONSU) vivenciamos essa inversão da realidade: com professores ocupando 70% das cadeiras, sobram aos trabalhadores e estudantes apenas 15% para cada, e há até mesmo representantes da golpista e exploradora FIESP garantindo seus interesses no CONSU.

Na última consulta à reitoria da Unicamp, o candidato que foi nomeado atual reitor, Marcelo Knobel, foi o menos votado na consulta por parte de estudantes e trabalhadores e ainda assim venceu, pelo peso dos votos dos professores, referendado por Alckmin, o que expressa como nossa voz não importa. Não obstante, Marcelo Knobel teve uma gestão marcada por austeridade passos largos em direção à maior abertura às empresas, com inúmeras parcerias público-privadas e olhos fechados às demissões de terceirizadas - que em sua maioria são mulheres negras, o que escancara qual é o lugar das mulheres na decisão dos rumos da universidade. Além disso, promoveu cortes de salários de grevistas, ameaça de corte em bolsas de permanência estudantil, aumento do valor do Restaurante Universitário, além de perseguir e punir estudantes que participaram da greve de 2016 por cotas étnico-raciais e ampliação da Moradia, ao mesmo tempo em que se vangloria por essa conquista na mídia, aparecendo como “progressista”. Assim, essa estrutura de poder anti-democrática está a serviço de aprofundar o atual projeto excludente de universidade das empresas.

Veja mais: Fim de gestão: relembre 10 vezes em que Knobel atacou estudantes e trabalhadores da Unicamp

Por isso, mais do que nunca, é necessário defender um projeto de universidade em que sejam os estudantes, trabalhadores e professores, de acordo com sua composição real, a decidirem seus rumos. No Brasil de Bolsonaro, em meio à crise sanitária que já matou centenas de milhares de brasileiros, a universidade demonstra enorme potencial científico para responder à crise. Por isso, o conhecimento gerado pelo ensino público deve estar voltado aos interesses dos trabalhadores e povo pobre, e para a superação da crise sanitária, e não com o objetivo de enriquecer ainda mais as grandes empresas.

Como declaramos em nota, a Faísca Revolucionária defende voto nulo nessa consulta, rechaçando esse processo profundamente anti-democrático e constatando que não há nenhum candidato que de fato pretenda se enfrentar com esse projeto de universidade e sua estrutura de poder. Essa mesma posição foi tirada pelo Conselho de Representantes de Unidade, conformado pelas entidades estudantis da Unicamp.

Nossa luta precisa enfrentar as regras da universidade de conjunto, lutando por uma Estatuinte Livre e Soberana, em que se expresse o peso real de cada setor, para decidir como as decisões devem ser tomadas na Unicamp. Nesse processo, levantaríamos não somente a proporcionalidade (que cada setor esteja representado proporcionalmente à sua composição), como também enfrentando essa forma de decidir que relega poderes ao cargo de reitor, que só existe para decidir por canetada e decreto (como no caso do EaD) o que não se aprova no CONSU burocrático. É por um governo dos três setores, sem o reitorado e o atual CONSU, por um projeto que inclusive efetive as terceirizadas sem necessidade de concurso público, que devemos batalhar.

Assim, estaríamos muito mais fortalecidos para enfrentar todos os ataques à educação e reformas que reserva o regime golpista e responder à pandemia com todo o potencial que tem a Unicamp. Para isso, precisamos fortalecer o movimento estudantil e suas entidades pelas bases dos estudantes.




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