Política

ANÁLISE

Entenda a evolução da transferência de votos de Lula e detalhes do IBOPE

Entenda a evolução da tendência dos votos e sua estratificação conforme gênero, raça, renda e outros fatores.

quarta-feira 19 de setembro| Edição do dia

O fato mais chamativo da última pesquisa IBOPE foi o salto de 11% de Haddad. A letra miúda das pesquisas é divulgada a conta-gotas pelo instituto e seus contratantes, os golpistas da Globo e do Estadão, mas há fatores bem interessantes para levar em consideração na distribuição por renda, região, raça e gênero.

O segundo fator mais chamativo na pesquisa é o continuado, ainda que lento, crescimento de Bolsonaro que já alcança 28% dos votos. O voto nulo está em descenso, já apresentado um valor inferior ao que se apresentou quando tinha Lula na pesquisa.

Em terceiro lugar também chama a atenção o pânico na candidatura tucana, que não só se estagna como retrocede. O mesmo ocorre com Marina.

Esta foi possivelmente a última pesquisa do IBOPE antes de um forte fenômeno de migração de “voto útil” que tende a fortalecer Haddad e Bolsonaro desidratando ainda mais Ciro, Alckmin e Marina, nem falar nos nanicos. Por enquanto a maioria dos candidatos ainda não apresentam resultados negativos na pesquisa de 18/09 quando confrontada com aquela de 20/08 com Lula (as exceções são Boulos,Álvaro Dias, Eymael e o voto nulo).

Não se pode descartar fraudes e outras intervenções nestas eleições marcadas pelo golpismo do judiciário, com apoio dos militares, que retiraram o direito da população votar em quem quiser. O Esquerda Diário sempre defendeu o direito da população votar em quem ela quiser, mesmo que não defendemos o voto no PT que abriu caminho à extrema-direita e o golpismo, e mesmo agora dá repetidas mostras de querer governar junto ao centrão, aos tucanos e a agradar o mercado.

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O principal botim eleitoral nas eleições era o voto em Lula, sequestrado pelo judiciário. Apesar da tentativa do judiciário, boa parte dos votos estão migrando para Haddad. No entanto essa migração não foi nada automática. Primeiro migrou para o voto nulo (47% do voto de Lula em 20/8), depois em alta proporção a Ciro e Marina (22% e 18% respectivamente em 3/9), e após o atentado uma parcela a Bolsonaro (25%), antes de a maior parte já chegar em Haddad (58%). Os gráficos abaixo ilustram esse fenômeno.


Elaboração própria baseada nos dados do IBOPE comparados aos dados de 20/08

Observando esses dados ainda há uma margem de 8% dos votos totais oriundos de Lula, que Haddad poderia subtrair a Alckmin (que herdou 6% dos 37% de Lula em 20/8) e Bolsonaro (que herdou 16% dos 37% de Lula), sem contar a redução de Ciro (que ainda retém 17% dos votos que Lula tinha em 20/08 e Marina. Essas duas tendências devem aparecer nas próximas enquetes.

Haddad, aparenta estar longe de seu teto no primeiro turno que pode beirar os 30% se conseguir captar efetivamente essas tendências.

Bolsonaro, pode ainda não ter chegado em seu teto, ainda mais levando em conta que começa a desidratar Alckmin, Meirelles, Alvaro Dias e Amoedo, mas já se aproxima do seu teto, já que para avançar precisará entrar em parcelas de eleitores que o rechaçam, como as mulheres, os negros e os trabalhadores mais pobres.

Os poucos dados detalhados do IBOPE de ontem que foram divulgados estão disponíveis no G1, e utilizamos estas informações para estas conclusões:

O principal voto de Bolsonaro é masculino, branco e evangélico, e está estacionado. Considerando a totalidade dos homens Bolsonaro tinha 35% em 11/09 e evoluiu dentro da margem de erro para 36% em 18/09. Entre as mulheres também evoluiu dentro da margem de erro, de 18% a 20%. Essa discrepância é a maior barreira a Bolsonaro. Além dos homens em geral o principal público eleitor de Bolsonaro são os evangélicos (onde tem 36% versus seus 25% entre os católicos) e os brancos (os mesmos 35% contra 24% entre negros).

No dia 29 esse repúdio se expressará nas ruas nos atos convocados sob a consigna #elenão.

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Mas as mulheres não são a única barreira a Bolsonaro, ele também encontra uma forte disparidade entre seus votos segundo as regiões. O capitão reacionário alcança 38% no sul, 32% no norte e centro-oeste, 26% no sudeste e míseros 16% no nordeste.

Haddad expressa a tendência inversa, com 31% no nordeste, 15% tanto no norte/centro-oeste como no sudeste e parcos 11% no sul. Já o quadro de renda também mostra inversões importantes, enquanto 27% daqueles que tem renda familiar de até 1 salário mínimo elegeriam Haddad, somente 12% votariam em Bolsonaro. Entre aqueles que ganham mais de 5 salários a figura se inverte, 41% para Bolsonaro e 13% para Haddad.Há alta discrepância entre estes resultados conforme renda, escolaridade, região, gênero, religião e raça.

A curva dos dois principais candidatos, empatados nas enquetes de segundo turno com 40% para cada, também se cruzam quando se fala em escolaridade. Enquanto Bolsonaro sobe de 29% para 36% entre os mais escolarizados, Haddad pula de 6% para 24% entre os menos escolarizados".

Todos esses dados confirmam que a representação antipetista mudou e não se expressa agora pelo PSDB (41% para Bolsonaro na população com mais de 5 salários mínimos é bastante chamativo), enquanto há uma revitalização "senil" do PT em setores de baixa renda, baixa escolaridade, setores precários da classe trabalhadora, e na região NE. Dizemos senil pois não há condições econômicas para novo ciclo de crescimento baseado na conciliação de classes.

Para tentar contornar esta barreira entre os votantes com nível superior e maior renda, Haddad está fazendo sinais de que agradará o “mercado” promovendo o ajuste fiscal e que governará junto dos golpistas, até mesmo dos neoliberais do PSDB.

Outro fator digno de nota no detalhamento das pesquisas é a forte discrepância no voto nulo feminino em relação ao masculino. Enquanto 11% dos homens votaria nulo e outros 5% não sabem, entre as mulheres estes números são respectivamente de 17% e 10%.

Estas disparidades conforme a renda, escolaridade, gênero e raça, apontam como a crise orgânica do país, tem mostrado não somente uma tendência à polarização, como mesmo com todo golpismo a burguesia não conseguiu emplacar o candidato que era favorito do mercado, Alckmin, e ao mesmo tempo que há setores do agronegócio e das finanças que apoiam Bolsonaro há novos sinais de que uma parte das finanças já olham com menos precaução a Haddad, como noticiou o Valor Econômico ontem.

Os indícios de insatisfação mostram-se mais fortemente entre os trabalhadores mais pobres, as mulheres e os negros e como nestes setores mesmo com forte rechaço a Bolsonaro ainda se expressa menos voto de “mal menor”. Isto demanda uma atenção não somente nas eleições para expressar uma voz anticapitalista contra a extrema direita e o golpismo, que supere o PT pela esquerda, mas muito além da mesma, para construir uma força que permita avançarmos a nos livrar de toda herança do golpismo, herança essa que o PT já se presta a negociar alguma continuidade em nome da governabilidade e de sua conciliação de classes.




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