Economia

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Empresas gigantes endividadas, salto nos números de falências de pequenas, a parte do noticiário em letra miúda

Todos editoriais sobre economia dos grandes jornais brasileiros tem destacado os sinais de melhora na economia, trata-se de fundamentos reais e também um prisma para realizar ilusões óticas que aumentem seus aplausos ao golpista Temer.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

segunda-feira 4 de julho de 2016| Edição do dia

Estes sinais positivos estão se materializando em expressivo superávit comercial graças a queda nas importações e aumento no preço das commodities que o país exporta (soja, ferro, mas até mesmo o petróleo). Em letras miúdas, longe dos editoriais aparecem dados mais alarmantes. Focaremos nesta matéria em expor estes outros dados para no final lançar algumas questões sobre estas duas tendências e sua relação com as tendências da economia internacional.

Em meio aos fogos de artificio, pesos pesados da economia estão endividados

Longe dos editoriais que tem preferido soltar fogos de artifício pela retomada do crescimento da produção de alguns setores da indústria perante o mês anterior, em um fenômeno de recomposição de estoques, uma boa parcela das maiores empresas do país estão com seu endividamento em alta e, segundo uma consultoria alemã em risco de insolvência.

Segundo a consultoria Roland Berger citada pelo Estado de São Paulo, das 133 maiores empresas na Bovespa (excetuando a Petrobras) somente 77 estão em “boas” condições. Todas as outras estão muito endividadas, sendo 34 delas em estado “crítico”. Uma delas era a OI que está em processo de recuperação judicial, a maior da história do país.

As dívidas destas 133 empresas, que juntas faturam R$ 1 trilhão, e são responsáveis por 17% do PIB alcança R$ 450 bilhões, se a elas for somada a Petrobras a dívida cresce a R$ 870 bilhões e seu peso no PIB é de aproximadamente 30% (um pouco menor que todo Estado de São Paulo, para comparação).

Empurrando os problemas para frente

Na avaliação dos especialistas citados pelo conservador Estado de São Paulo, tão ou mais preocupante do que o tamanho da conta tem sido a solução encontrada para tirar a corda do pescoço: a maioria está apenas renegociando os passivos com os bancos. Alongam prazos, reduzem valor das parcelas, enfim, jogam a conta para frente, numa aposta de que haverá dias melhores na economia em pouco tempo.

"Ficou claro para nós que uma parcela importante do mundo empresarial brasileiro atravessa um momento mais complicado do que dá a entender. Há um problema grave de solvência nas grandes empresas nacionais", diz o português Antonio Bernardo, presidente da consultoria Roland Berger no Brasil.

Os consultores da Roland Berger se preocuparam particularmente com a estratégia escolhida pela maioria para contornar o momento adverso. A análise do endividamento teve como ponto de partida os balanços de setembro de 2015. De lá para cá, a economia se deteriorou ainda mais e as empresas que tinham os piores indicadores adotaram como estratégia principal simplesmente rolar os débitos.

"A maioria procurou os bancos e, se teve bons argumentos, conseguiu renegociar a dívida, mas no fundo não tocou na raiz do problema. Ocorre que não reestruturar o negócio num ambiente de crise é assumir um risco alto. Se a economia não sair da recessão e voltar a crescer no prazo esperado, o problema pode voltar lá na frente pior do que antes", diz Bernardo.

A notícia do Estado de São Paulo não explicita quais seriam estas empresas em situação crítica, mas se sabe que a situação de diversas gigantes além da Oi não é nada confortável. Além da gigante de telefonia, a GOL está beirando a insolvência, a empresa opera com prejuízo desde 2011, e teve a nota de crédito rebaixado pelas agências de risco e tenta renegociar prazos para o pagamento de uma dívida de quase R$ 7 bilhões, boa parte dela com detentores de bônus. Uma das maiores empregadoras do país a Contax de Telemarketing é uma das poucas citadas na matéria que também está com linhas vermelhas traçadas.

Presentes na Lava Jato, a Gol e a Oi se somam as empreiteiras e a Petrobras em difícil situação financeira. A maior parte das empreiteiras são empresas de capital fechado e controlada por famílias com bom trânsito político não importa o governo de turno. Volta e meia algum noticiário da Lava Jato também relata como a Odebrecht, tal como a Petrobras, estaria à procura de compradores para suas subsidiárias para fazer caixa para honrar estas dívidas.

A fotografia de hoje com Petrobras, apesar de recordes de produção sendo colocada na fila da privatização para melhor atender aos interesses dos golpistas, com a Odebrecht endividida, a Oi falida e a Gol nas vésperas do mesmo, com exceção dos gigantes do agronegócio o cenário empresarial parece o oposto de anos atrás. Os gigantes de ontem são os que beiram a quebra hoje.

Cenário mais alarmante nas pequenas empresas

De janeiro a junho de 2016, um total de 1.098 empresas (somente nos números de um levantamento) quebraram. Os dados são da Boa Vista SCPC - Serviço Central de Proteção ao Crédito. O número representa um aumento de 26,5% sobre o total de empresas que pediram falência no primeiro semestre do ano passado.

Só em junho, a Boa Vista registrou aumento de 20,2% na quebradeira de empresas comparativamente a maio e crescimento de 22,8% na comparação com o mesmo mês de 2015.

Ao contrário dos dados recentemente divulgados que mostravam que o “pior já havia passado” segundo todos editoriais econômicos do último mês, do ponto de vista das falências estamos longe do fundo do poço.

Segundo esta empresa especializada em análise de crédito e falências, "O crescimento das falências no primeiro semestre de 2016 é bem mais significativo do que o observado no primeiro semestre de 2015, quando os pedidos acumulavam alta de 9,25", dizem os técnicos da Boa Vista SCPC. Para eles, a fraca atividade econômica e os elevados custos atingiram fortemente o caixa das empresas ao longo de 2015. Naquele ano os pedidos de falência cresceram 16,4%, enquanto as recuperações tiveram alta de 51%.

"A tendência de alta não só continuou como se intensificou neste primeiro semestre do ano. Sem previsão de mudança no cenário macroeconômico em 2016, os indicadores parecem conservar, de forma mais intensa, a tendência observada ao longo de 2015", afirmaram.

Só no campo e nas exportações há sorrisos

O contraste destes números de falência e endividamento das gigantes da Bovespa contrastam com a melhoria dos resultados de outros setores. No campo, com a alta no preço da soja, milho e açúcar os latifundiários estão rindo à toa. Se dão ao luxo, feliz, de realizarem seção de bajulação pública de Temer em feira realizada hoje em São Paulo. Esta alta no preço das commodities também melhora os resultados da Vale e outras exportadoras de minérios.

Este resultado tem relação direta com as incertezas na economia mundial. Se por um lado as sinalizações de que o Banco Central americano (o FED) não deve subir os juros no curto prazo garantem um fluxo de capital a mercados emergentes (ou ao menos sua não saída rumo aos EUA), a continuidade da demanda chinesa somada a condições climáticas que quebraram safras em outros países estão ajudando conjunturalmente Brasil, Argentina e outros exportadores de commodities. Estes fatores apontam sinais positivos.

Por outro lado, o Brexit tem levado a desvalorização da libra-esterlina, saída de capitais deste que é o segundo maior mercado financeiro do mundo e entrada de capitais no maior do mundo, os EUA, e consequente valorização do dólar deteriorando os lucros das empresas exportadoras americanas.
Efeito secundário do excesso de capitais nos EUA algumas moedas de países emergentes como o Real e o Rand sul-africano estão disparando em altas. Estas altas diminuem os lucros extraordinários que as patronais exportadoras estavam tendo no país.

A instabilidade nas principais divisas do mundo, como a libra, o dólar, o yuan chinês e o franco suíço ascendem luzes de alerta, se o Brexit não pode disparar uma onda de “desvalorizações competitivas” com cada país buscando uma maneira de tornar sua moeda mais barata e assim, as custas de sua classe trabalhadora, dificultar importações e melhorar exportações.

O Brasil não tem as mesmas margens para estas manobras e com a situação deteriorada de várias de suas maiores empresas os fogos de artifício de hoje podem não ser tão duradouros a depender das ações da Lava Jato, e dos rumos da economia mundial que cada vez mais concentram maiores contradições geopolíticos, como as que o Brexit aumentaram.

Como estes fatores vão se desenvolver? Ainda não está claro nem na City Londrina, nem em Wall Street, nem como as ações da “República de Curitiba” podem acelerar os problemas que já são detectáveis como alertas na Bovespa, e antes de mais nada no mercado de trabalho com o expressivo aumento do desemprego seja em situação mais catastrófica a depender dos cenários ou como forma de melhorar os lucros patronais.

Uma das poucas certezas traçáveis na indefinição dos cenários atuais é que sob Temer e na atual situação da economia mundial, as tendências a primarização da economia brasileira, e consequente destaque aos latifundiários exportadores de commodities aumentará, coroando o caminho pavimentado por Lula e Dilma. Por este motivo também os aplausos no Global Agribusiness Forum de hoje foram tão efusivos.

Para aprofundar nas consequências mundiais do Brexit leia: “Brexit: o que há de Lehman Brothers?




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