Gênero e sexualidade

MULHERES NO METRÔ

Emocionantes relatos de metroviárias iniciam campanha pelo direito das mulheres

Daphnae Helena

Cipista da Linha 3 - Vermelha do Metrô de SP e trabalhadora da estação Sé

quarta-feira 30 de novembro de 2016| Edição do dia

Os metroviários estão encampando uma forte campanha pelo direito das mulheres (efetivas, terceirizadas e usuárias) nas CIPAs (Comissões Internas de Prevenção de Acidentes) das linhas do Metrô. Queremos criar uma subcomissão de saúde e proteção às mulheres que se atente para os problemas que sofrem as metroviárias e usuárias no sistema metroviário de transporte público. O objetivo é criar uma subcomissão para tratar das especificidades das mulheres desde doenças relacionadas ao trabalho, adequação de uniformes e equipamentos, até trazer a luz o debate sobre o assédio que sofremos no ambiente de trabalho e também que sofrem as usuárias do transporte público, como um primeiro ponto de apoio para modificarmos essa realidade. Uma inovação nas CIPAs que queremos que sirva de apoio para que outras CIPAs de outras empresas também abordem esse tema.

Segue abaixo emocionantes relatos de trabalhadoras e trabalhadores que apoiam essa causa. Bem como a campanha de fotos em apoio a criação dessa subcomissão.

“Ocorreu em um momento em que estava com grandes problemas pessoais e fazendo acompanhamento psicológico, de ser chamada por um chefe que estava ciente da situação, para receber um feedback no qual ele pontuou "minha baixa produtividade" no momento, pedindo que eu melhorasse isso uma vez que havia feito concurso para subir de cargo e ele podia me avaliar mal”

“Por que acho que é necessária a criação da Subcomissão de saúde e proteção às mulheres? Porque muitas vezes vemos nossas particularidades e direitos sendo questionados ou deixados de lado devido, exatamente, ao fato de não termos alguém com esse olhar mais voltado às situações de que somos vítimas cotidianamente. Por exemplo, ocorreu comigo, em um momento em que estava com grandes problemas pessoais e fazendo acompanhamento psicológico, de ser chamada por um chefe que estava ciente da situação, para receber um feedback no qual ele pontuou "minha baixa produtividade" no momento, pedindo que eu melhorasse isso uma vez que havia feito concurso para subir de cargo e ele podia me avaliar mal. O assédio pode ser discreto, porém não é invisível! Situações como essa devem ocorrer em todo o metro, como ouvimos vários casos em que o fato de sermos mães, donas de casa ou esposa, somos ameaçadas e por vezes até rotuladas sem que ninguém esteja atento para ajudar-nos ou defender-nos, sendo que com a subcomissão esse panorama mudaria e saberíamos a quem recorrer. Temos uma dupla jornada, e isso só é levado em consideração para ser usado contra nós e não para que se tenha uma maior compreensão com casos particulares ao fato de sermos mulheres, mães (por vezes até é filhos com necessidades especiais) e donas de casa!”. Katia – metroviária da Estação Sé

“Tivemos 3 funcionárias terceirizadas com problemas sérios de saúde: uma delas possivelmente teve uma alergia dos fortes produtos de limpeza utilizados sem os EPI’s necessários, e outra infelizmente faleceu na mesma semana que descobriu um câncer”

“Recentemente na minha estação em menos de duas semanas tivemos 3 funcionárias terceirizadas com problemas sérios de saúde: uma delas possivelmente teve uma alergia dos fortes produtos de limpeza utilizados sem os EPI’s necessários, e outra infelizmente faleceu na mesma semana que descobriu um câncer. A empresa retira a cesta básica de quem pega licença médica, fazendo com que elas não procurem atendimento mesmo quando estão muito doentes. A subcomissão será fundamental para denunciar o descaso com a saúde dessas mulheres!”. Camila – metroviária da Estação São Bento e cipista da Linha 1 - Azul

“Um médico do trabalho na época me disse que eu não me encaixava em acidente de trabalho porque eu tinha que fazer trabalho doméstico e era por isso as minhas dores”

“Quando comecei a ter dores procurei um ortopedista que me indicou até mesmo operação. Passei pelos médicos do Metrô na época em Jabaquara para abrir CAT e comecei fazendo fisioterapia, amenizando assim minhas dores. Mas para minha surpresa um médico do trabalho na época me disse que eu não me encaixava em acidentes de trabalho porque eu tinha que fazer trabalho doméstico e era por isso as minhas dores, por que todos os movimentos que precisava levantar o braço, me prejudicava. Na época, eu disse a ele que trabalhava na bilheteira e que os meus problemas eram por causa disso, e não do trabalho doméstico”. Bete – metroviária da Estação Vergueiro

“Apesar de estarmos em todas as áreas da empresa e fazermos dia-dia o Metrô de São Paulo girar ainda sofremos mais com o assédio moral e sexual, intimidação e falta de EPI adequados”

“Apoio a implantação da subcomissão de saúde e proteção às mulheres por entender que apesar de estarmos em todas as áreas da empresa e fazermos dia-dia o Metrô de São Paulo girar o carrossel, ainda sofremos mais com o assédio moral e sexual, intimidação e falta de EPI adequados. O Sindicato dos Metroviários de SP publicou recentemente importante material sobre assédio, no qual afirma que apesar de afetar todos os gêneros, as formas de assédio recaem muito mais contra as mulheres.

Uma questão antiga e que creio que a Subcomissão possa lutar e recomendar à empresa é sobre EPI, especificamente luvas descartáveis. A empresa só fornece luvas tamanho 8,5 a 7,5 que não atende a todas as funcionárias, muitas de nós vamos atender pessoas que passam mal e nos expomos a agentes biológicos, pois a luva fica demasiadamente folgada.

É importante ressaltar que a CIPA além de fazer recomendações para evitar acidentes de trabalho, também deve atuar contra as doenças ocupacionais. Levando em consideração que muitas doenças ocupacionais têm incidência maior no sexo feminino, como por exemplo a LER, dermatoses e varizes, ter uma subcomissão voltada para a questão da mulher metroviária seria de grande relevância para nos sentirmos representadas e com nossos principais problemas sendo realmente discutidos e abordados com sugestões por quem enfrenta os mesmos problemas. SIM à criação da subcomissão de saúde e proteção às mulheres!”. Anny – metroviária da Estação Belém

“Temos mulheres mães (algumas solteiras), filhas, amigas, esposas, estudantes companheiras, profissionais, que cumprem dupla, tripla jornada e que precisam ter suas reivindicações ouvidas e sanadas pela empresa na qual exercem sua função”

“Vivemos em uma sociedade ainda desigual, na qual homens e mulheres tem direitos e deveres distintos, e no metrô não é diferente! Vejo nesse ponto a necessidade de uma subcomissão de mulheres na CIPA, que cuide das nossas necessidades e interesses, que ao meu ver são específicos e precisam ser tratados dentro do ambiente de trabalho. Temos mulheres mães (algumas solteiras), filhas, amigas, esposas, estudantes companheiras, profissionais, que cumprem dupla, tripla jornada e que precisam ter suas reivindicações ouvidas e sanadas pela empresa na qual exercem sua função! Contamos para tal com a força de todas @s coleg@s de trabalho para manter/criar essa subcomissão!”. Andressa – metroviária Operadora de Trem da Linha Azul e cipista da Linha 1 - Azul

“São muitas as metroviárias que lutam contra a depressão na empresa hoje, que seguem tomando remédios controlados, de licença e afastadas pelo INSS. O impacto do isolamento e naturalização das violências contra a mulher dentro da empresa, entra na recuperação dessas mulheres como um peso a mais.”

“A realização de uma Subcomissão de mulheres é algo que nós enquanto metroviárias podemos utilizar como ferramenta de apoio, orientação e concentração dos casos que envolvem machismo no ambiente de trabalho. Assim como para que nós, metroviárias, que também somos as mulheres assediadas nos vagões. Que também corremos risco de estupro quando vamos embora para nossas casas depois de um dia de trabalho, no qual somos expostas todos os dias possamos dar uma resposta, no mínimo, a nível de compartilharmos essas vivências e não continuarmos naturalizando a violência contra a mulher.

Na Estação Sé, por exemplo, quase todas as funcionárias já sofreram agressão na linha de bloqueio ou preferencial. Não acredito que seja um caso isolado da estação. O ódio e objetificação da mulher é um determinante social que impacta diretamente no nosso desempenho profissional. Seja por afetar o nosso psicológico, seja por afetar o nosso físico. Somos agredidas assim como os metroviários são, mas a caracterização da agressão é recheada de ódio a posição da mulher na sociedade, que ainda se mantém em muitas famílias e meio social como "tendo que" ser submissa, frágil, complacente a situações que violam sua saúde psicológica.

São muitas as metroviárias que lutam contra a depressão na empresa hoje, que seguem tomando remédios controlados, de licença e afastadas pelo INSS. O impacto do isolamento e naturalização das violências contra a mulher dentro da empresa, entra na recuperação dessas mulheres como um peso a mais. E isso precisa ser dado a devida atenção. Bem como o tanto de usuárias que são assediadas todos os dias no transporte público e não levam a diante a formalização do boletim de ocorrência, porque o encaminhamento é muitas vezes impossibilitado pelas próprias características do sistema, como a lotação do trem, a falta de funcionários na plataforma, e treinamento especifico pra lidar com as vitimas que precisam ser respaldadas psicologicamente além de legalmente. Principalmente contando com o fato de que na DELPOM (delegacia especial do metrô), como em outras delegacias, somos incentivadas a não realizar o boletim de ocorrência.

Acredito que subcomissão pode criar, de fato, dando esse primeiro passo, a possibilidade de nos sentirmos em posição de igualdade com os homens da empresa. Bem como ser uma instância específica pra que as mulheres tragam sua situação no ambiente de trabalho e não se sintam ainda mais constrangidas.”. Maira - metroviária da Estação Sé

“Trabalho com colegas mulheres. Não se passa um dia sem que eu não ouça queixa sobre ou que presencie alguma cena de agressão sofrida por elas”

“Trabalho com colegas mulheres. Não se passa um dia sem que eu não ouça queixa sobre ou que presencie alguma cena de agressão sofrida por elas. Assédio sexual, assédio moral, ameaças, impropérios. Agressões sofridas por serem mulheres. Sei que se trata de violência contra a mulher porque eu e meus colegas homens não passamos pelas mesmas situações. Mesmo sendo gay, só por ser homem, não passo pelo que vejo e ouço minhas colegas relatarem. Mas sobre isso, ninguém melhor do que elas podem falar. E a CIPA tem a responsabilidade e o dever de ouvi-las e tratar seriamente dos problemas que relatam.

A Companhia do Metropolitano de São Paulo implementa hoje políticas internas e externas que reconhecem a situação de desigualdade da mulher na sociedade e toma medidas afirmativas no sentido de expô-la e combate-la. E exemplo da campanha contra o assédio sexual no metro, tema recorrente de reportagens na mídia, a cartilha interna sobre discriminação, responsáveis pela Universidade do Metro em elaborar materiais específicos que discutam as desigualdades de gênero, raça e orientação sexual. Essas medidas são critério de avaliação de excelência de qualquer empresa que se diga “moderna”.

A empresa responde a crescente pressão social que sofre, principalmente por parte das mulheres, por reconhecer e tratar a desigualdade de gênero. O caso mais explícito e a campanha sobre assédio sexual no transporte público. Nenhum outro modal de transporte público e tão visado como alvo de denúncias como o Metro.

Esta CIPA, se desconsiderar o relato das funcionárias da empresa sobre violência de gênero e sua exigência de que se crie subcomissão especifica para tratar do assunto, estará assim indo em direção contraria a que a sociedade busca. Contraria as políticas internas e externas já existentes na empresa, deixando assim claro que estas se tratam de demagogia, contraria a demanda de suas usuárias e funcionárias que relatam caso bem concretos de violência contra a mulher, contraria as aspirações sociais mais básicas de igualdade. Ou seja, um verdadeiro retrocesso”. Guilherme – metroviário da Estação Sé
























Outros casos relatados pelos metroviários:

“A usuária saiu do trem da linha 3 no horário de pico, e pediu ajuda a uma dupla de seguranças a serviço na plataforma. Disse a eles que estava passando mal. O atendimento foi passado pra estação, e depois de mais calma, a usuária conseguiu revelar que pediu ajuda aos seguranças como se estivesse passando mal porque estava nas palavras dela "congelada". Segundo ela, nunca havia passado por uma situação parecida e sempre imaginou que sua reação seria de se defender fisicamente inclusive, caso acontecesse com ela. Disse ser halterofilista, que o homem que a assediou durante 4 estações no metrô lotado, era "muito menor que ela", que "não havia dúvidas de que poderia me defender", mas simplesmente não conseguiu ter reação diferente do que tentar se espremer pra longe do indivíduo, porém sem sucesso. Não teve coragem de falar com os seguranças por serem todos homens no momento em que pediu ajuda e, chorando, disse que iria pra casa mas jamais teria coragem de contar o que aconteceu ao marido ou qualquer familiar pois se sentiu muito humilhada”.

"Constantemente os funcionários comentavam sobre o corpo da funcionária da limpeza que cuidava das áreas internas. Pediam a encarregada que mantivesse ela todos os dias no setor porque nas palavras deles "a tanajura faz o trabalho direitinho". Enquanto ela passava constrangida por eles, os mesmos pediam para ela fazer o "cafezinho" pra eles e falavam diretamente sobre a "bunda" dela. A funcionária foi demitida pouco tempo depois."

"Os funcionários comentavam e faziam diversos comentários sobre a idade e corpo da colega, como: "você ta velha, ta ficando caduca", "é por isso que seu marido separou de você", "ta gorda porque come esse tamanho de prato, não vou te colocar no esquema, senão...". Ela dizia que não gostava da brincadeira dos colegas e ficava quieta. Dentro do contexto do que se passava na vida da mesma, houve o momento em que ela "estourou" e disse que queria ser respeitada por eles, que justificaram coisas como "não sabe levar as coisas na esportiva", "a gente é colega de trabalho, não tem porque se alterar assim", " se você não gostava porque não falou antes", "ela ta alterada, deve ser a menopausa"."

"Sugestão por parte do coordenador no treinamento de entrada pra "ficarem espertos com as jovens cidadãs porque agora elas vão querer engravidar" deles pra poder "ganhar pensão de metroviário". Nas palavras do mesmo "elas ficam tentando os funcionários atrás de marido e barriga"."

"No horário de saída o mesmo permanece na porta do escritório esperando as funcionárias e fazendo comentário sobre como ficam sem o uniforme, esperando ser cumprimentado."

"O funcionário em questão se aproximava pra "fechar" os botões da camisa, comentava sobre o decote; pelas costas chegava do nada falando com a boca colada no ouvido; fazia comentários sobre o cabelo; sobre estar "gostosa hoje"; fazia diversas "cantadas" e comentários sobre sexo mesmo quando o assunto era sobre trabalho; passava a mão nos cabelos das colegas; quando as mulheres da estação falavam que não haviam gostado, que gostariam que ele não fizesse mais o mesmo ele debochava e falava que "gosto mesmo é de mulher brava""

"Durante meses a funcionária foi deixada no banheiro público por ser considerada "louca". Posto que oferece riscos físicos e psicológicos a funcionária, considerando que é um local onde são ameaçados eventualmente, pelos usuários e considerando que é local sem ventilação e insalubre? A senhora tem idade e família diz que ela está "esquecida"."

"Menor é agredida com um soco e um chute na cara do namorado que alegou estar "descontrolado de ciúme". Na estação, a estratégia da segurança remanejou todas as duplas para o final de campeonato, deixando apenas uma dupla que estava num encaminhamento de acidente na escada. A menor é liberada porque quis ir embora e o agressor liberado depois de alguns minutos."




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