Opinião

AMÉRICA LATINA

Emir Sader e o desespero posneoliberal

O pior tipo de comércio é o das idéias, que eleva o pragmatismo a guia de todas as ações. Mais ainda quando se contrabandeia idéias fora do prazo de validade. A difícil tarefa dos “intelectuais críticos” que defendem os governos ditos “progressistas” na América Latina consiste em esconder seu direitismo por trás do temor à “verdadeira” direita neoliberal.

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy

quinta-feira 12 de novembro de 2015| Edição do dia

Emir Sader, intelectual que junto a figuras como André Singer parece ter como missão defender o “pacto petista” no Brasil, fez recentemente um protesto criticando a “ausência da intelectualidade crítica no momento auge dos enfrentamentos políticos e das grandes lutas de idéias na América Latina”, em que os “progressistas sofrem os mais duros golpes da direita”. Essa ausência enfraqueceria “o campo da esquerda”. Insatisfeito e alarmado por justificar-se, investe contra a “extrema-esquerda derrotada, cujo triste consolo é imaginar um suposto esgotamento do ciclo progressista”. A solução contra o dualismo de “um passado desastroso e um discurso sem prática” seria o resgate do pensamento crítico de superação do neoliberalismo... para terminar protegendo bem acriticamente o PT.

Sader chega a utilizar o “insólito” argumento de que governos como o do PT no Brasil “teriam desmentido” a idéia vulgar da direita de que qualquer governo sério “deveria centrar-se nos ajustes fiscais”. Desculpamos a infelicidade de escolher uma hora inoportuna para o argumento. O PT desmentiu esta idéia assim como um médico desmente o caráter não-letal de um medicamento despejando-o goela abaixo do paciente.

O pensamento se prova “crítico” quanto maior sua capacidade de buscar com uma lupa os vestígios “progressistas” destes governos e instrumentalizar a denúncia da direita para justificar o apoio ao ajuste progressista e disciplinar os infiéis da extrema esquerda, incapazes de valorizar tudo aquilo de que nos fizeram escapar estes governos.

Este desespero de Sader é compreensível: tem a complicada missão de esconder que a direita emerge hoje das entranhas do “progressismo” e não apesar deste, que durante a última década conteve a luta de classes aproveitando o ciclo de crescimento, mantendo de pé os principais pilares do neoliberalismo dos 90, aprofundando o viés primário-exportador e extrativista, o atraso industrial e a dependência do capital estrangeiro, a precarização do trabalho. A tarefa estabilizadora do ciclo reformista foi preparando o terreno para que a classe dominante pudesse aspirar a uma plena “restauração conservadora”.

Que significa “aprofundar o projeto progressista”?

Nos primeiros anos deste século o equilíbrio se rompeu sob o impacto das crises econômicas e políticas, e os levantes populares em vários países latino-americanos. A classe dominante teve que resignar-se à ascensão ao governo de forças políticas reformistas como “recurso de emergência”.

Os moderados Lula, Kirchner ou Tabaré Vazquez, e os “radicais” Evo Morales e Chavez, foram inevitáveis devido a sua influência popular quando a fórmula neoliberal se tornou insustável. O “momento reformista” foi necessário para evitar uma ruptura maior, de resultados “catastróficos” ou diretamente revolucionários para a ordem. Surgiram duas variantes “pós-neoliberais”: uma mais nacionalista e populista nos países mais conflagrados, como o chavismo na Venezuela (e com traços próprios, Evo Morales, na Bolívia); e outra de centro-esquerda onde a crise havia sido menor, como no Brasil e no Uruguai. A Argentina mostra uma situação particular porque depois da ruptura da conversibilidade e as jornadas de dezembro de 2001, que atingiram o sistema de partidos, teve que recorrer à ala de centro-esquerda do peronismo.

A situação no Brasil, onde o governo Dilma impulsiona duras medidas de ajuste enquanto busca pactuar com a direita em resposta à aguda crise econômica e política é um sinal eloqüente da decadência dos governos “progressistas” da América Latina. Junto ao quadro eleitoral argentino, onde o futuro do projeto “nacional e popular” ficou nas mãos do noventista Daniel Scioli, um dos dois galgos do ajuste que compete com Mauricio Macri pela presidência no segundo turno, a profunda degradação do chavismo na Venezuela e o curso dos governos no Uruguai, Equador, Bolívia, ilustra esse “fim de ciclo progressista” que Sader se esforça por reerguer discursivamente. Para estes governos, chegou o momento de “passar aos ajustes” com uma agenda em nada diferente da direita, depois de uma década cujo papel foi o de passivização e contenção da luta de classes aproveitando uma situação econômica excepcionalmente favorável na década dos 2000.

Portanto, de Buenos Aires a Brasília (mas também em Caracas, La Paz ou Quito), longe de avançar, os “processos de mudanças” estão aprofundando seu giro à direita. Entretanto, Sader deixa nas entrelinhas que “sobram motivações” para ver no apoio a Scioli na Argentina um verdadeiro combate contra Macri, assim como em Dilma um verdadeiro antídoto a Cunha e a direita do PSDB.

Vejamos pela Argentina. Macri é indiscutivelmente um apóstolo da direita neoliberal mais conservadora e ligada à Igreja, que reprimiu greves operárias e favoreceu a entrega dos recursos naturais do país. Por tudo isso, o kirchnerismo quer gerar uma polarização, embelezando Daniel Scioli contra este direitismo. Entretanto, é uma tarefa árdua fazer isso quando Scioli insistentemente homenageia o neoliberal Carlos Menem, resgata entrevistas em plena década de 1990 em que dizia que o ditador Videla “se animou a fazer o que ninguém queria”, e em rede nacional declara que “se for eleito, impulsionará uma política de tolerância zero com os piquetes e cortes de rua”, e que se encarregará ele mesmo “de enviar as forças policiais para garantir a ordem”. Quanta petulância para Sader defender tipos assim!

Na Bolívia, Evo Morales lutou sistematicamente para subordinar os trabalhadores e camponeses ao Estado burguês: repressão de lutas e de mobilizações fabris, de professores, da saúde, e é claro, o combate das forças estatais contra a greve dos mineiros da COB de maio-junho de 2013 que reclamava reformas ao sistema de pensões. Paralelamente, como se isso não bastasse, o MAS de Evo, junto com a burocracia da COB se dedicou por anos a liquidar um dos processos políticos mais avançados que deu à classe trabalhadora boliviana nos últimos tempos: a experiência do Partido de Trabalhadores. Na Venezuela, o derretimento do chavismo evolui a olhos nus, cujos ataques à população através da desvalorização da moeda e a defesa empresarial fortalecem uma direita raivosamente ligada ao imperialismo.

Em terras tupiniquins, para os trabalhadores é cada vez mais simples enxergar o rosto da direita em cada pronunciamento de Lula ou Dilma, ou mesmo da burocracia sindical da CUT, que em seu XII Congresso aprovou o principal ajuste contra os trabalhadores industriais, o PPE. Os ajustes ficais de Joaquim Levy, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, assim como a do PSDB, são a agenda do PT. Longe de qualquer “integração latinoamericana”, Dilma revisitou os salões estrangeiros que o PSDB havia visitado: fez pactos de entrega do país com os Estados Unidos, a Alemanhae a China. Vinte anos atrás, os petroleiros se levantavam contra o fim do monopólio estatal sobre o petróleo e derivados e a tentativa de privatização ao mando do tucano FHC. Agora, uma nova geração de petroleiros se levanta contra a privatização e retirada de direitos feita pelo PT e por Dilma. Até mesmo o bordão da “Pátria educadora” petista é o pior dos sarcasmos: o estado brasileiro que mais fecha escolas públicas é a Bahia, governada pelo PT, que faz um trabalho tão odioso quanto o PSDB de Alckmin em SP, enfrentado pelos secundaristas que cantam contra a direita, e também contra Dilma.

Ao contrário dos argumentos de Sader, no Brasil como na América Latina o “progressismo” não derrotou a direita, abriu caminho a ela e a fortaleceu. A função histórica dos “pós-neoliberais” não é transformar a ordem social do capitalismo latino-americano, mas preservá-lo e “atualizá-lo” mediante reformas parciais.

Posneoliberais e a direita: duas fisionomias do mesmo ajuste

O ambiente intelectual latinoamericano favoreceu nas últimas décadas o predomínio destes personagens “críticos”: a “nova esquerda” disseminou a substituição do socialismo pela “radicalização da democracia”; a substituição da classe trabalhadora como sujeito revolucionário por formas diversas de “sujeitos populares”, transformação do conceito de hegemonia da classe operária em uma conformação de alianças policlassistas com um verniz social-democrata.

Mas o cenário estratégico na América Latina mudou. Segundo os prognósticos do FMI, América Latina e o Caribe concluirão este ano com uma contração de 0,3%. Para o Brasil é esperada uma contração de 3% para este ano e de 1% para 2016. Ainda piores são as previsões da Venezuela: 10% de contração em 2015 e 6% em 2016. No caso argentino, está previsto para esse ano um tímido crescimento de 0,4%, e em 2016 uma queda de 0,7%.

Uma dinâmica de ajustes "progressistas" se difundirá pelo subcontinente. A classe trabalhadora e a esquerda se colocam em posição defensiva frente a este giro à direita da superestrutura política e a orientação de ajustes da burguesia. Os defensores do “pacto petista” no Brasil – como Sader – são os principais guardiões ideológicos da conciliação de classes e da passivização dos trabalhadores, projeto cujo “aperfeiçoamento” grotesco é a austeridade. O eu-lírico parece protestar contra si mesmo quando lamenta a “burocratização do pensamento crítico”.

Este é o reconhecimento que a desconfiança dos trabalhadores e seu repúdio frente a estes governos é cada vez maior. Para ter a fortaleza de enfrentar estes governos é preciso uma estratégia de classe independente claramente delimitada destas experiências, a defesa irrestrita de um programa anticapitalista (e não o antineoliberalismo que mantém de pé a propriedade privada) e a luta incansável por constituir a classe trabalhadora como sujeito político.

Para isso, mecanismos como a Frente Povo sem Medo, dirigidas pelo governismo e integradas por MTST e PSOL, não servem de nada a não ser cobrir pela esquerda a tarefa de Sader, Singer, etc. Na Argentina temos um grande exemplo contrário. Na estratégia do PTS, que combina a luta por desenvolver um sindicalismo classista, de esquerda, junto com o impulso à Frente de Izquierda y de los Trabajadores (FIT) como frente de independência política dos trabalhadores, vemos assentadas as bases de uma alternativa de classe.

As lições das mais importantes experiências políticas latino-americanas e internacionais desempenham um papel não desprezível nessa construção. A intervenção prática – orgânica – na vida do movimento operário e da juventude, a ação política e a luta ideológica e cultural devem estar unidas por uma mesma paixão estratégica, nos âmbitos nacional e internacional: impulsionar a organização independente do movimento operário e de massas para que seja capaz de apresentar uma alternativa revolucionária à crise capitalista.




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