ELEIÇÕES 2018-2º TURNO / EMIR SADER /

Emir Sader contra o trotskismo

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 25 de outubro| Edição do dia

Intempestivamente, o intelectual petista Emir Sader, fez publicar em vários meios da esquerda latino-americana, um artigo seu onde desfecha um ataque contra o trotskismo, cuja virulência e destempero é diretamente proporcional à falta de conteúdo da sua argumentação, começando pelo título ruidoso: “O trotskismo se tornou um cambalacho?” [1]

Na verdade, a sua nota, ainda mais levando em conta a seriedade que se espera de um veterano da sociologia, está mais para um escracho com endereço indeterminado [embora inegavelmente dirigido à esquerda anticapitalista] do que para um artigo que traga alguma análise.

Talvez encorajado pela energia dedicada ao seu colega Atílio Boron para atacar a esquerda anticapitalista tomando a defesa de governos como Lula e Kirchner, o fato é que Emir pareceu – pela brutalidade do ataque – muitíssimo mais preocupado com o que ele entende como trotskismo do que com a gravíssima situação em que se encontra a América Latina por conta das políticas de conciliação de classe que Sader sempre defendeu.

Ou seja, na dificílima situação política atual, nos marcos de uma luta que cobra de cada ativista todas as suas energias para organizar forças contra a ultradireita [onde defendemos o voto crítico em Haddad como meio de construir, desde já, força material organizada para o que vem pela frente], em meio a uma conjuntura que tende a se tornar ainda mais reacionária, é surpreendente que o politólogo e intelectual orgânico do PT, Emir Sader dedique e destile tanto ódio ao que ele entende por trotskismo.

Mas tomemos um pouco da sua fala.

Emir começa por qualificar o trotskismo como “politicamente intranscendente”, pulverizado em várias pequenas correntes, incapaz de superar a crise da esquerda, sem discernimento para “distinguir entre governos progressistas e reacionários” e a qualificação mais suave que dirige ao trotskismo é “cambalacho”.

Segundo suas palavras: o trotskismo perdeu “a capacidade de reconhecer as diferenças na realidade, não sabe distinguir entre governos progressistas e reacionários. Se impôs o cambalacho [a fraude, em livre tradução dessa gíria argentina]: tudo é igual e nada é melhor. Menem e Kirchner, Cardoso e Lula, Frente Amplo ou direita uruguaia, Evo Morales e seus antecessores, Rafael Correa ou Lenin Moreno. Não importa se a vida do povo melhorou substancialmente, se os trabalhadores e suas organizações apoiaram a esses governos, não importa se a soberania nacional foi fortalecida, não importa se a direita se uniu contra esses governos. Não importa se ali onde esses governos foram derrocados, tudo piorou para o povo e para o país”.

Pior, o trotskismo não contaria com nenhuma vitória para chamar de sua: “o trotskismo se tornou especialista em fazer balanços das derrotas da esquerda, sem que possa agregar qualquer vitória sua, que aponte para as perspectivas de superação da crise da esquerda”.

O eixo central da sua nota anti-trotskista é claramente tentar mostrar que o trotskismo é tão sectário que não sabe diferenciar um Lula do FHC; o ideal para Sader: que o trotskismo aderisse à política de defender, sempre, todo governo de conciliação de classe que apareça no nosso continente.

Com que resultado estratégico? Essa poderia ser a primeira pergunta.
Na verdade, a esquerda que Emir defende [petismo, evomoralismo, kirchnerismo, chavismo] tinha grande peso, suficiente para uma forte ação política. Por que então não incidiu sobre a realidade para efetuar alguma reforma estrutural que fosse, alguma mudança estrutural para chamar de sua? Ou que impulsionasse uma dinâmica de transcrescimento, de consolidação pela esquerda?
Nada disso aconteceu. Mas essa é a eterna aposta do Emir.

O petismo – do qual, reiteramos, Emir é porta-voz orgânico – somando todos os seus mandatos no comando do Estado, não foi capaz de realizar uma única reforma estrutural, sequer a agrária [se pensamos no apoio pleno que o PT recebe do MST, isso é ainda mais grave]. Não foi além de pequenas melhoras, fugazes, que o Temer liquidou de uma penada e, assim mesmo, melhorias cujo preço estamos todos começando a pagar.

Esse mesmo petismo fez escolhas todo o tempo, todas elas de adaptação ao regime burguês apodrecido. E de passividade política.

Ou alguém acha que se o PT-CUT quisessem agir, o golpe institucional do Temer não teria sido barrado? Ou a prisão do Lula? E a verdade é que em vez de reformas [urbanas, sociais, na educação ou na saúde e transportes], o PT preferiu seguir sangrando em trilhões de dólares aos cofres públicos através do fiel pagamento da chamada dívida pública. Vassalo do imperialismo norte-americano colocou tropas brasileiras no Haiti. Vassalo da grande burguesia baixou uma lei “antiterrorista” que criminaliza os movimentos sociais gravemente [e que agora vai ser usada contra nós]. Jamais lutou pelo aborto a partir do governo, jamais julgou agentes de Estado que tanto torturaram e ceifaram vidas na nossa geração.

No entanto, o Emir escolhe dedicar suas energias críticas não ao petismo, não ao kirchnerismo ou ao chavismo – que levou a Venezuela à bancarrota – mas sim a correntes anticapitalistas. E por que?

Porque – é o caso do MRT – defendemos uma política de independência de classe, de organização independente do proletariado em relação ao PT, ao PC do B, à falsa esquerda e suas burocracias sindicais. E criticamos fundamentadamente e cobramos que a CUT saia de sua passividade, por exemplo, durantes os ataques do Temer, por exemplo, impedindo a contrarreforma trabalhista.

O Emir, provavelmente precisa atacar o trotskismo para dar cobertura “radical” à sua política-cambalacho de apoiar a esquerda [PT-PC do B] que governou com Maluf, com o agronegócio, com a pior escória da política parlamentar. Uma esquerda que governou com os métodos corruptos da burguesia e, finalmente, ao gerar um amplo descontentamento popular [expresso já no junho de 2013 nas ruas], criou substrato social para a nova direita. Isto é, para uma direita manipuladora, golpista e que, como nunca, levantou sua cabeça nos marcos da extrema passividade do PT-CUT, que vem deixando passar, sem combate, todos os ataques da burguesia.

O destempero do Emir pode ter essa origem: a sua política de conciliação de classe fracassou amplamente na América Latina e deu passagem e espaço para a direita.

Esse é o balanço que pode ser feito – na perspectiva de Trotski – mas que Emir, que sempre pensa desde o horizonte burguês, da miséria do possível, jamais fará.

Ou será que ele vai imaginar que foi o trotskismo que levou o Brasil para a brutal dependência do imperialismo [vide dívida pública] e deu passagem ao golpe? O fator de poder era o PT, era a CUT. Aliás, por que o Emir jamais lutou para que a CUT fosse às ruas, parar o golpe, parar a prisão do Lula e defender um programa de mudanças sociais de fato e de radicalização da democracia [com juízes eleitos, fim do Senado, revogabilidade do mandado de políticos e salário igual ao de um professor]?

Onde andava Emir – e seus pares, como Boron e outros – quando Lula governava com a direita [assim como Haddad se propõe a fazer] e batia no peito, orgulhoso, de que a burguesia nunca ganhou tanto quanto no seu governo [de bancos ao agronegócio, passando pelos global players]?

Por isso Emir não tem – do lado da esquerda que ele representa – nenhuma vitória e “nenhuma experiência positiva” para contrapor ao trotskismo; o que daria tema para outra nota.

E quem é Emir Sader? Qual sua localização política?
Politicamente, ele desponta no campo da esquerda petista e stalinista brasileira, como conselheiro histórico ou intelectual do PT, do PC do B, também na condição obvia de anti-trotskista, adotando profundo desprezo aos fundamentos teóricos desenvolvidos pelo dirigente da Revolução Russa. Não que isso seja propriamente uma novidade na esquerda acadêmica – em particular aquela que gira em torno do PT -, mas não se pode deixar de levar em conta esse primeiro marco.
Emir Sader escreve todos os seus textos – e seu livro recente sobre Lula – absolutamente refém da lógica do PT.

Ele também uma espécie de alma-gêmea de certo tipo de intelectual latino-americano, sempre disponível para apoiar qualquer alternativa de governo populista na nossa região, incapazes, todos esses governos de qualquer reforma estrutural na economia. Todos esses intelectuais estão convencidos de que apoiam, em cada caso, em cada “mal menor”, a única opção possível a caminho do socialismo. São possibilistas. Também coincidem no apoio nada crítico ao Maduro e, na outra ponta, à burocracia cubana.

Um dos núcleos duros do seu ataque ao trotskismo [que ele cuida de formular no genérico, como se somente existisse um trotskismo ao qual dirigir a crítica], pode ser graficamente formulado da maneira que ele mesmo exemplificou: o trotskismo não entende e nem aceita a diferença entre um FHC e o Lula.

Não entende a dialética da diferença. Mistura FHC com Lula.

Logicamente, segundo esta visão, o trotskismo vive nas nuvens das abstrações políticas. Ou esticando seu argumento: por que em um segundo turno eleitoral entre Aécio e Dilma, o trotskismo não vota em nenhum dos dois? A resposta do Sader: porque o trotskismo não tem a mínima noção da diferença entre Dilma e Aécio.
A essa altura não ficamos sabendo – na ótica de Sader - se aquela visão da política [do tipo “todos os gatos são pardos”] procede do próprio Trotski ou se vem a ser criação dos seus seguidores.

De nossa parte, lembramos - e Sader, como cientista político ou politólogo deveria saber disso -, que Trotski soube perfeitamente distinguir o governo provisório [“socialista”] de Kerenski em relação à autocracia do tzar. Sabendo disso, mas também sabedor da natureza de classe de cada um dos dois regimes, ele orientou seus seguidores – orientação aliás, comum a Lênin e Trotski - para não emprestar nenhum apoio, sequer crítico, ao governo democrático de Kerenski, diga-se de passagem, governo apoiado pelas organizações dos trabalhadores.

De passagem isso já aponta para a falta de antecedentes marxistas para a estratégia de Emir e congêneres. Uma estratégia que jamais cria qualquer força material proletária com independência de classe; uma força que, de tanto ficar detrás do PT, da conciliação de classe, termina controlada de cima para baixo por direções burocráticas; de tanto abandonar as armas da crítica, termina abandonando posições sem capacidade de usar a crítica das armas, seu poder de classe.

Vejamos alguns fundamentos da antiestratégia de Emir.

Começando por sua definição de governo “progressista” versus governo “reacionário”, sem qualquer menção à natureza de classe ou ao papel e a funcionalidade, para o capitalismo, de tais governos. Muito menos chega a apontar qual seria a política para o proletariado não ficar submetido a tais governos.
Essa não-menção do problema de classe, por si mesma, já significa um amálgama: Sader introduz como uma espécie de norma político-estratégica do seu marxismo [que, como já se sabe, é declaradamente não-trotskista] um pressuposto estranho ao marxismo clássico em geral. Na sua perspectiva, diante de um dado governo, preciso fundamentalmente ver se ele toma ou não “medidas progressistas”, por exemplo, aumentar a taxa de emprego, diminuir o estoque de miséria, mesmo que nenhuma reforma estrutural seja feita; e também verificar se tem forte apoio popular.

De Marx a Lênin, passando por Gramsci, sem mencionarmos Trotski, não há nenhuma tese sequer parecida com esta à qual Sader possa recorrer para fortalecer suas posições.

Sim, sabemos que essa é a ideologia do chamado populismo, do nacionalismo burguês de maior ou menor apoio de massa: aquele que vem do segundo Vargas a Morales, passando por Peron, todos eles variações de bonapartismo ou de frentepopulismo [se faz necessário examinar cada caso singular], mas nenhum deles, para além de sua retórica revolucionária, se colocando fora do campo burguês.

Não são iguais um ao outro, claro, mas existe um inegável denominador comum: todos eles defendem a grande propriedade privada, para além de qualquer palavreado ou fricção anti-imperialista [o exemplo mais recente é Chávez que fez engordar os mais ricos da Venezuela, a burguesia bolivariana, a mesma que agora precisa ir até o fim, impondo um governo capitalista puro sangue].

Mas, apesar de aparecer como crítico do mau marxismo [o trotskismo], Sader não parece preocupado em adotar um referencial marxista clássico.

Na verdade, sua definição é muito mais empobrecedora da realidade. Para apoiar o governo Lula ou, agora, Haddad, ou antes, Dilma, Maduro, o que Emir Sader faz é lançar mão da seguinte definição: se as organizações dos trabalhadores apoiam determinado governo, se a direita se une contra, teremos um governo “progressista”, um “mal menor” ao qual emprestamos apoio contra os reacionários. Isso basta.

E dessa forma, teremos dispensado Lênin. Aliás, de alguma maneira, também estamos distantes de Karl Marx. Em Sader, os critérios para uma posição política e estratégica diante dos governos da América Latina são suficientemente amplos e indeterminados para que fique clara sua distância do marxismo.

Logicamente, um observador mais esperto irá abrir uma crise ou ao menos uma inquietação do tipo: não será este um critério meramente populista, reduzido à generalidade do puro e simples “progressismo”? Portanto um critério que, no limite, permite que emprestemos apoio a governos capitalistas, com algum apelo de massa, ou sindical, mas que governam com a direita? [no caso de Lula, o partido de Bolsonaro foi base de apoio do seu governo, assim como o partido de Maluf e assim por diante].

Ou ainda como simples inquietação política ou mesmo lógica, outra questão poderia surgir: ué, então tudo que eu preciso para me mover na política é, basicamente, saber qual o quociente eleitoral de um governo, se alguma multidão o apoia, qual o tamanho do seu apoio popular?

Ou então alguém também poderia argumentar que Sader é muito parcial na sua definição, já que a Dilma – apoiada e defendida por Sader - baixou uma lei que criminaliza os movimentos sociais, reprimiu fartamente as manifestações nacionais do junho de 2013 e a primeira coisa que fez, uma vez eleita, e contrariando seu discurso de campanha, foi nomear um ministro ultraliberal e vinculado ao capital financeiro para o ministério da Fazenda.

Esse argumento não iria adiantar muito, já que na ótica particular de Sader, tal governo continua merecendo nosso apoio, uma vez que, por exemplo, a CUT o apoia e, por outro lado, muitos setores da burguesia o detestam. E suas medidas equivocadas são apenas acidentes de percurso na jornada ao socialismo [Ver o desenvolvimento deste argumento no texto sobre Boron].

Mas essa não é nossa linha principal de crítica às posições políticas de Sader.
Pensamos que o grande problema é que o critério de Sader opera com a lógica da conciliação de classe, portanto se apresenta vazio de conteúdo em relação aos interesses históricos da classe operária. E tende, idealmente e superestruturalmente, a reconciliar uma realidade – de classe – organicamente fraturada desde a sua raiz.

Vejamos o critério de Sader, aquele já citado: se o governo é “progressista”, no sentido de que conta com apoio das organizações dos trabalhadores e se a direita se une contra ele, ou se tal governo toma medidas semirreformistas, então isso basta, deve ser apoiado pela esquerda responsável.

Em primeiro lugar esse nunca foi o critério político ou estratégico de Lênin ou do partido bolchevique. Derrubada a monarquia russa, de uma maneira geral, o partido de Lênin jamais deu qualquer apoio àquele governo “progressista” de Kerenski, um governo que se proclamava socialista e, muito mais que isso, que contava com o pleno apoio das organizações operárias [os sovietes].

Apenas em um dado momento, na dinâmica daquele ano revolucionário, quando aquele governo “progressista” e de apoio popular se viu ameaçado por um golpe militar da ultradireita, naquele momento, por alguns dias de agosto de 1917, os bolcheviques apoiaram militarmente Kerenski contra o golpista fascistoide Kornilov. Para, logo depois, derrubarem Kerenski.

Defendiam o espaço democrático conquistado, as organizações proletárias e camponesas, e o faziam de forma principista e de armas na mão. Foi uma tática, portanto subordinada a uma estratégia, de independência de classe na perspectiva de conquista do poder. Tática mais do que flexível, já que o próprio Trotski era, naquele exato momento, um dos presos políticos de Kerenski.

Por este exemplo, parece evidente que o marxismo sabe diferenciar, sim, um Kerenski de um Kornilov, por exemplo.

Em uma situação completamente distinta, meses atrás, quando o Esquerda Diário fez uma campanha contra a prisão de Lula, defendia não a Lula [governo de conciliação de classe] mas sim ao espaço democrático, de soberania popular, que estava sendo cassado, ali, pelo “partido do judiciário” a serviço da grande burguesia golpista.

Defendíamos um espaço de soberania popular conquistado pela classe trabalhadora, as organizações operárias, coisa que partidos declaradamente trotskistas, como o PSTU, não entenderam com seu “fora todos” e seu apoio objetivo ao Lava a Jato [sua candidata a presidente, Maria Lúcia, defendeu, em plena campanha eleitoral, a prisão de Lula, por exemplo].

Aliás, este é outro ponto que fica mistificado no artigo de Sader: nunca ficamos sabendo de quê trotskismo ele fala.

Um exemplo clássico que também pode ser mencionado é o de R Luxemburgo, na Alemanha, diante do governo democrático de Ebert, da social-democracia, que assumiu o poder com a derrocada da monarquia, no final de 1918, marco no qual ela conseguiu conquistar sua liberdade para sair e organizar o PC.

Aquele governo preenche um critério essencial de Sader: contava com apoio das organizações operárias [sovietes]. E era um governo “progressista”, afinal apoiou a derrocada do imperador, emergiu de um amplo movimento de massas, revolucionário, admitiu liberdades democráticas básicas etc. e os monarquistas estavam contra ele.

No entanto, ao contrário do que se dá com Sader, com Borón e tantos outros do mesmo perfil, a nenhum marxista revolucionário ocorreu apoiar aquele governo da social-democracia.

E no caso da América Latina, ao longo do século passado, se sucederam vários casos de governos bonapartistas com apoio popular. Vargas foi um deles, no pós-II Guerra.

João Goulart também: tinha apoio do PCB e de todo o campo progressista. O governo Jango tinha aumentado o salário mínimo e contava com apoio sindical [o PC dirigia o CGT, controlava bases fundamentais da classe trabalhadora]; esse mesmo partido foi “janguista” até o fim. Terminou incapaz de mobilizar qualquer resistência ao golpe, desmoralizado que estava de tanto controlar e conter ao proletariado para manter a “ordem janguista”. No Chile o PC fez a mesma política. Na América Latina, essa política foi sendo escolha secular de parte desse tipo de esquerda com a qual, inegavelmente, Sader se alinha.

Na verdade, Sader, em nome do seu critério pouco delimitado – do ponto de vista de classe – termina apoiando o stalinismo. Jamais fez qualquer reivindicação de revolução política em Cuba, ou de democracia proletária em Cuba, ele simplesmente apoia o castrismo.

Na verdade, a grande dificuldade – ou falta de dialética – de intelectuais do populismo do tipo Sader é que não conseguem conceber que possa haver uma corrente de esquerda que diante de um governo Lula, possa defender a independência da classe trabalhadora.

A lição que nos chega do marxismo clássico, da Revolução Russa, é a de que o proletariado necessita de uma esquerda que, entendendo perfeitamente a diferença entre FHC e Lula, mas que consiga, defendendo o espaço democrático conquistado no governo lulo-petista [conquistado apesar de Lula-Dilma, diga-se de passagem], mas que consiga não ser lulista. Isto é, não empreste qualquer apoio político à burguesia.

Para Sader, é tudo ao contrário: só pode existir a esquerda lulista, chavista,evomoralista, portanto, subordinada ao horizonte burguês.

Voltamos ao início da argumentação: mesmo contando com suficiente apoio de massa para ir adiante [caso do getulismo, do peronismo inicial, do Allende, de Jango, Nasser e um longo etcétera], algum desses governos progressistas foi adiante? As massas, por si só, sem uma direção de esquerda com independência de classe, conseguiram impulsionar tais governos ao socialismo? Por que um dos mais radicais deles, Allende, com franco apoio nos cordões industriais de Santiago, apoio do PC, por que não avançou ao socialismo e sim deu passagem ao golpe genocida a partir de um dos seus generais?

Não sabemos se Sader vai responder na linha de que eles “não souberam ser suficientemente progressistas” ou faltou vontade política ou coisa no estilo. O que sabemos é que sempre será uma resposta sem conteúdo de classe.

E nesse caso, o marxismo, especialmente Trotski, responde satisfatoriamente: todo governo de conciliação de classe [mesmo nos marcos de uma guerra civil, como na Espanha dos anos 1930] só pode conduzir à derrota, sempre dará passagem à direita. É uma norma que parece carecer de exceções.

E mesmo quando uma direção dessas, de origem pequeno burguesa, encabeça uma revolução, como Fidel, se não abraça de saída a estratégia soviética [instalando a democracia operária] também apontará para um outro tipo de derrota, isto é, a deformação da revolução e, ao final da jornada, a restauração capitalista. Isso, naturalmente, se não for barrado, nesse desvio, por uma revolução política bem sucedida.

Essa vem a ser a abordagem de Trotski, tudo isso Sader poderia saber se não fosse blindado contra o ... trotskismo. E se o trotskismo pós-Trotski abandona esse legado ou só o considera parcialmente, de forma centrista, o problema, nos parece, estará muito mais no seu desvio prático do que nos fundamentos teóricos de Trotski.

Portanto, repetindo, o que Sader e intelectuais populistas como ele têm para nos mostrar, a favor de suas doutrinas [que constituem pouco mais que amálgamas de teorias] são derrotas, uma trágica sequência de derrotas, algumas sangrentas, mas sempre desmoralizantes.

Ou, sendo mais direto: que moral possui para falar do marxismo – de um trotskismo que ele mostra conhecer muito pouco - um professor de política que nunca foi além do horizonte do populismo dos Kirchner, de Lula-Dilma ou do chavismo? Teria que ter mais argumentos e, mais que isso, nos oferecer muito mais do que o PT, ou em outras palavras, a experiência de conciliação de classe e governos amalgamados com a direita, funcionais para o capitalismo.

E teria que ser capaz de nos trazer uma convincente explicação – como já foi mencionado - de por que Allende, Jango, Lula ou qualquer governo de conciliação de classe sempre fracassa? Ou a teoria não deve ser critério da prática? Se sua teoria, de apoiar governos populistas, sempre leva a derrotas, à desmoralização, como imaginar que possa ser critério da verdade?

A verdade, no entanto, é que Sader e seus companheiros de viagem tipo Borón [tema de outra nota], só existem e somente sobrevivem enquanto os governos de conciliação de classe de que eles são conselheiros, sobreviverem no tempo. Fora disso, vivem do seu pseudo-marxismo [melhor chamar de “progressismo”] e do prestígio do Lula, dos Kirchner enquanto dure seu prazo de validade.

[1] Cambalacho é uma gíria argentina que, em livre tradução, significa tramoia, fraude, trapaça.




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