Gênero e sexualidade

ASSÉDIO SEXUAL

Em menos de 3 meses, 3 casos de assédio ocorrem em terminal de ônibus de Santo André

Semana passada (18), o terminal da Vila Luzita em Santo André foi palco de mais um caso de machismo contra uma mulher trabalhadora. À reportagem do Diário do grande ABC, a jovem Letícia Fina, 22 anos, secretária, afirmou ter sido assediada e quase agredida, em duas oportunidades, por um funcionário que trabalha no equipamento público da empresa Suzantur.

Kelly F. Alonso

Professora da rede pública de São Paulo

segunda-feira 23 de julho| Edição do dia

O primeiro episódio ocorreu em Abril (28) quando, segundo Letícia, um funcionário responsável pelo controle de tráfego do terminal lhe abordou com palavras obscenas: “Na época, ele passou por mim pelo menos duas vezes falando coisas obscenas e me encarando, até que em certo momento ele se posicionou na minha frente com os braços cruzados e com o semblante nojento, começou a me falar palavras depravadas dizendo que era ‘gostosa’, inclusive perguntando se estava esperando para fazer programa”

Letícia, assim como centenas de mulheres, ficou com medo de reagir contra o funcionário na ocasião e deixou o episódio passar. Ele, porém voltou a assediá-la. Segundo Letícia: “Quando dei de cara com ele na quarta-feira, na mesma hora comecei a chorar, as mãos e as pernas tremiam. Só conseguia olhar para o chão. Então liguei para minha mãe aos prantos, porque não sabia o que fazer. Entrei no ônibus o mais rápido que pude e mesmo assim ele não parou. Infelizmente, hoje não tenho paz, perdi o direito de ir e vir, não posso pegar ônibus tranquila porque sei que todos os dias vou dar de cara com ele.”

Na última ocasião, a jovem ainda afirma: “Cheguei a ir em direção a uma outra linha, mas ele me seguiu falando coisas obscenas. Entrei no ônibus e ele continuou me perseguindo”. E ela encerra a entrevista colocando que “Meu desabafo foi um alerta para todas as mulheres que pegam ônibus neste terminal. Tenham cuidado e denunciem”. O episódio vivido por Letícia ocorreu menos de uma semana após um outro episódio de opressão protagonizado também por funcionários da empresa, e que denunciamos aqui.

Esses episódios, infelizmente, são cotidianos para nós mulheres que tentamos sobreviver num país estruturalmente machista, onde somos vistas ainda como objetos sexuais e do desejo masculino ao mesmo tempo em que não podemos tomar nossas decisões sobre nossos corpos; Os homens, sem qualquer pudor, sentem-se no direito de deflagrarem seus desejos obscenos verbal e até fisicamente sem o menor respeito ou consentimento da mulher, como se fossemos sua propriedade. Sem contar a violência doméstica que acometem centenas de mulheres todos os dias. O feminicídio tem sido prática constante em nossa sociedade.

E é em nome dessas mulheres, de todas, que precisamos nos organizar e arrancar nossos direitos desse estado que também é machista em sua estrutura, pois não é somente no cotidiano e nem só no viés sexual que sofremos; Vivemos em uma sociedade de classes e como tal, o estado capitalista necessita e se vale invariavelmente dessa opressão.

Além dos assédios cotidianos, as mulheres hoje tem que enfrentar o machismo institucional que na prática se mostra quando recebemos cerca de 20% a menos que um homem exercendo a mesma função de trabalho e esse dado é mais alarmante quando se analisa a mulher negra, que chega a receber 60% a menos do que o homem branco. Essa desigualdade é promovida deliberadamente em nome de aumentar ainda mais os lucros da burguesia que conta com o aparato estatal para legitimar suas práticas perniciosas contra as trabalhadoras.

Portanto, não há como realizar uma luta das mulheres que seja separada da luta contra a exploração capitalista que segue enriquecendo os patrões e o governo as custas da classe trabalhadora, onde em vários setores, as mulheres já são maioria.
Como vimos, a mulher vem sendo cerceada em vários aspectos: Desde seu direito mínimo de ir e vir com segurança até o direito de decidir sobre seu próprio corpo, quando lhe é negado o direito de escolher se quer ou não prosseguir com uma gravidez mas também quando lhe é negado o direito à maternidade plena, de escolher como e onde quer ter seu filho.

Somente o emponderamento não trará a igualdade que queremos e merecemos, se pretendemos de fato acabar com o machismo precisamos travar uma luta junto de todos aqueles que penam todos os dias por conta da exploração que beneficia alguns poucos, tanto homens quanto mulheres.

Precisamos daqueles que produzem tudo o que aí está, a classe trabalhadora, que traz consigo a possibilidade de tomar o poder e tirar das mãos da burguesia os meios de produção. Só assim teremos condições materiais para desatar todos os nós que nos prendem e, enfim, construirmos uma sociedade livre de qualquer forma de opressão e exploração.

Nós, do grupo internacional de Mulheres Pão & Rosas, travamos diariamente uma luta que não é somente contra o machismo mas também contra modo de produção capitalista que usufrui e se alimenta desta opressão; E entendemos que mesmo sofrendo com todo o tipo de opressão somos capazes de enfrentar esse sistema social degradante, para isso estamos organizadas e tomamos como nossa a luta das mulheres argentinas que recentemente arrancaram nas ruas o direito ao aborto legal, seguro e gratuito na câmara dos deputados, mas essa luta continua; no dia 08 de Agosto a lei será votada no Senado Argentino.

Vamos trazer essa “maré verde” para o Brasil no dia 08 de Agosto, e somar nossas forças com as argentinas; convidamos a todas as mulheres e homens a marcharem conosco nesse dia em apoio às mulheres e para que possamos lutar aqui também pela legalização do aborto e pelo fim de todas as opressões! Exigimos nosso direito ao pão, mas também às rosas. Seja parte do grupo de mulheres Pão e Rosas. Entre em contato conosco pelo Facebook Pão e Rosas Brasil.




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