COTAS JÁ

Em meio a semana da calourada estudantes realizam ato por cotas na USP

Convocado a partir dos Centros Acadêmicos de Letras e Pedagogia da USP, o ato aconteceu nessa quinta-feira 18/02 e visava denunciar o racismo estrutural da universidade reivindicando a aprovação imediata de cotas raciais.

Odete Cristina

Belo Horizonte |@OdtCristina

sexta-feira 19 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Em meio a semana de recepção aos calouros, dezenas de estudantes se reuniram em frente ao prédio da FUVEST para reivindicar a aprovação imediata de cotas raciais na USP. Convocado pelos centros acadêmicos de Letras e Pedagogia, o ato contou com a participação de diversos calouros e veteranos de vários cursos, assim como de trabalhadores da universidade. Durante a ação os estudantes fizeram uma intervenção visual colando cartazes no prédio da FUVEST e no portão de entrada da USP. Em seu conteúdo denunciavam a filtro social do vestibular que todos os anos barra milhões de jovens de entrarem na universidade e exigiam a aprovação das cotas.

Ano passado a reitoria se negou a sequer pautar o tema das cotas raciais, mesmo com a intensa mobilização protagonizada pelos estudantes e funcionários, chegando ao absurdo de que alguns dos estudantes e trabalhadores que se manifestaram em defesa das cotas fossem processados. Como uma tentativa de abafar o tema aprovou-se no conselho universitário a oferta de vagas pelo ENEM, que se mostrou uma falsa tentativa de democratizar o acesso, sendo que as notas de corte de alguns cursos chegavam ao absurdo de 700 pontos e diversas vagas acabaram não sendo preenchidas.

O ato denunciou o racismo estrutural da universidade que possui apenas 8% de negros no total de alunos, enquanto a reitoria reserva para os negros apenas os postos de trabalho mais precários, seja como funcionários terceirizados da limpeza, que recebem menos de um salário mínimo ou como os trabalhadores do bandejão que adoecem por esforços repetitivos e assédio moral das chefias. Denunciou também o genocídio da juventude pobre e negra, assassinada todos os dias pelas mãos da polícia, a mesma que não por acaso, possui um academia de treinamento em frente ao portão 1 da USP.


Se no dia da matrícula da FUVEST, milhares de estudantes, em sua maioria brancos, comemoravam sua entrada na universidade, a contracara disso era escancarada por meio de dezenas de trabalhadoras terceirizadas, em sua maioria negras, reivindicando o pagamento dos seus salários atrasados. Num país onde a teoria da democracia racial é parte fundamental para mascarar o racismo existente, numa universidade onde se permite que um professor defenda teorias racistas de que negros possuem capacidade cognitiva inferior aos brancos e onde o conhecimento produzido serve ao lucro de grandes empresas e nunca para curar as mazelas sociais, como o zika vírus, a dengue ou a falta de moradia, lutar pela aprovação de cotas raciais é parte de lutar contra o racismo existente, colocando os negros na universidade para que se expresse aqui dentro as contradições que a sociedade não consegue esconder lá fora.

Esse ato em plena calourada é parte de uma luta muito maior que está apenas começando esse ano. Se em todo o mundo a juventude negra vem se levantando contra o genocídio e o racismo de sistema capitalista, aqui na USP nós queremos lutar juntamente com os trabalhadores e os companheiros brancos da universidade pela aprovação imediata das cotas raciais. E deixar bem claro que cotas é só o começo, porque a luta contra o racismo é também contra esse filtro social chamado vestibular, que barra milhões de jovens do acesso ao ensino superior, contra a escravidão do século XXI chamada terceirização e a precarização do trabalho. Queremos que o conhecimento produzido na universidade esteja a serviço da população pobre e trabalhadora, que em sua ampla maioria é negra, e não a serviço das grandes empresas que lucram milhões se aproveitando do racismo presente na sociedade capitalista.

Por isso fazemos um chamado a todos os estudantes, aos setores do movimento negro, a todos os centros acadêmicos e ao DCE para que se coloquem nessa luta, construindo desde as bases um forte movimento que imponha para a reitoria aprovação de cotas raciais ainda esse ano, e que lute contra cada caso de racismo que aconteça dentro e fora dessa universidade.




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