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PARLAMENTO EUROPEU

Em meio à crise do Brexit, Reino Unido participa das eleições europeias

O Reino Unido realizou nesta quinta 23-05 as eleições para o parlamento europeu com um forte avanço da extrema direita eurocética e em meio a crise do Brexit.

Alejandra Ríos

Londres | @ale_jericho

sexta-feira 24 de maio| Edição do dia

As eleições para o Parlamento Europeu ocorrem em um momento de avanço das forças populistas de extrema direita e, ao mesmo tempo, os acalorados confrontos políticos podem modificar a dinâmica de baixa participação de voto de 2014 no Reino Unido, que foi de apenas 34%.
Qual é o panorama para as eleições europeias desta quinta-feira no Reino Unido, nos marcos de uma crise ao entorno das negociações dos termos do Brexit?
Atualmente, 72 eurodeputados (mais um posto em vacância) representam o reino Unido no Parlamente Europeu, destes, 43 buscam a reeleição. Há 548 novos candidatos e, em Londres, uma das 12 regiões eleitorais para o Parlamento Europeu, 88 deles representam 11 agrupações políticas. Embora as eleições no Reino Unido tenham acontecido nesta quinta 23 de maio, a apuração se realizará junto com o resto da União europeia no domingo dia 26.

As últimas pesquisas indicavam que o Partido do Brexit (Brexit Party, em inglês) seria a agrupação que ganharia a maior quantidade de votos no reino Unido, enquanto os partidos majoritários do regime sofreriam uma importante derrota. Tal prognóstico não estaria fora de sintonia do resto da União Europeia (UE) onde os partidos da elite dominante afundariam às custas das correntes de extrema direita e de partidos liberais.


[O líder do Partido do Brexit, Nigel Farage, sorri ao chegar ao colégio eleitoral nesta quinta]

Como resultado, o Parlamento Europeu estará mais fragmentado, e em sua nova composição, o Partido Popular Europeu de Centro-direita e o Grupo da Aliança Progressista de Socialistas e democratas perderiam a maioria conjunta que atualmente ostentam.

Três anos depois da consulta sobre a permanência ou não na União Europeia, convocada pelo ex-primeiro-ministro David Cameron, permanecem em jogo múltiplas opções pró-europeias: desde os democratas liberais, os Verdes, Change UK (uma cisão pró-europeia do partido trabalhista), até os partidos independentistas da Escócia e País de Gales e a Aliança Norte-irlandesa. Por outro lado, as opções a favor do Brexit se concentram em apenas duas correntes: o recentemente estabelecido Partido do Brexit, e o UKIP (Partido de Independência do Reino Unido, em inglês United Kingdom Independence Party). Logo após o referendo o então líder do UKIP, Nigel Farage, renunciou para se dedicar, entre outras atividades, a estabelecer contato e reuniões com Donald Trump. Na sequência o UKIP passou por uma sucessão de líderes e o atual dirigente é abertamente anti-islã, de extrema-direita e contratou como seu assessor Tommy Robinson, de perfil claramente fascista. Como consequência desse processo a maioria dos eurodeputados do UKIP abandonaram o partido e essa força política está em decadência. Enquanto isso acontecia, em janeiro de 2019, Farage lançou uma nova corrente política, o Partido do Brexit, que está liderando as pesquisas com uma projeção de 34% dos votos. O Partido do Brexit é gerido como uma empresa na qual há doadores – não membros –, sem estatutos ou organismos de direção. Além disso, esta corrente xenófoba e nacionalista está sendo investigada por alegações de que suas finanças infringiriam a legislação britânica sobre financiamento de partidos políticos.

Por sua vez, 80% dos membros do Partido Trabalhista se declaram europeístas e segundo pesquisas do YouGov, no referendo 65% dos eleitores trabalhistas foram favoráveis a permanência na UE. Por isso é provável que alguns eleitores trabalhistas, sobretudo nas regiões do país menos afetadas pela crise optem por votar no Partido Verde ou nos liberais-democratas nessas eleições europeias já que ambos têm se manifestado mais claramente a favor da permanência na UE e a favor de um segundo referendo. Essa parecia ser a tendência em Londres, um distrito historicamente trabalhista, onde a posição ambígua do trabalhismo tem ajudado a reviver os liberais-democratas que lideram as pesquisas.

Nas regiões excluídas pelas políticas neoliberais, o descontentamento com as políticas econômicas poderia se refletir em votos para as variantes isolacionistas do Partido do Brexit, mas não exclusivamente. Nas eleições locais no início de maio de 2019, algumas circunscrições trabalhistas se inclinaram pelos democratas liberais. Em resumo, o voto trabalhista estará comprimido entre os liberais e o Partido do Brexit.

A política de duas frentes do partido trabalhista, de querer satisfazer tanto sua base europeísta, majoritária, quanto sua base separatista, minoritária, mas de origem trabalhadora, tem gerado críticas ao seu líder Jeremy Corbyn, e inclusive provocou uma cisão encabeçada por deputados europeístas. O mais notável dessa situação é que desde a eleição de Jeremy Corbyn o Partido Trabalhista estava fortalecido e em dinâmica de crescimento, ao levantar um programa de nacionalizações se viu cercado por um novo ativismo organizado do movimento Momentum (organização política associada ao partido trabalhista criada sob inspiração do Syriza grego e do Podemos espanhol). Esta base é a favor da permanência, não por ter ilusões na UE, mas por se posicionar contra a narrativa anti-imigração das correntes eurocéticas. Entretanto, o partido trabalhista não pode tirar vantagem política da crise do partido tory (Conservador). O referendo de 2016 iniciou uma crise política que, ao se aprofundar, foi erodindo a boa saúde que o trabalhismo vinha gozando. Em síntese, a contradição dessa força reformista vem de sua própria base trabalhadora, um problema que nem o Partido Verde nem os liberais-democratas possuem.

Da perspectiva do Partido Conservador, estas eleições se tratam de uma batalha pela direção partidária. No referendo de 2016, segundo o YouGov 61% dos eleitores tories votaram a favor da saída da União Europeia. É provável, então, que o Partido do Brexit cresça em maior medida às custas do Partido Conservador, identificados em sua maioria com uma posição nacionalista de nostalgia pelo velho império.

Para muitos as eleições europeias no Reino Unido se converteram em uma espécie de referendo sobre o Brexit. O Observer (periódico associado ao The Guardian) publicou em sua edição dominical uma pesquisa conduzida pelo instituto de pesquisa YouGov/Datapraxis encomendada pela campanha pró-europeia Best for Britain (O melhor para a Grã-Bretanha) e pela Hope not Hate (Esperança, não ódio) sobre a projeção de votos das eleições europeias no Reino Unido. Esta pesquisa indicou que o Partido do Brexit está na frente em todas as regiões com exceção da Escócia (onde lidera o Partido Nacional da Escócia). O Partido do Brexit estaria a frente com 34% dos votos, seguido pelo Partido Liberal-democrata (17%), Trabalhista (15%), Partido Verde (11%) e o Partido Conservador (9%). Para o partido de Farage isso significaria passar de 24 para 32 eurodeputados, para o Trabalhismo de 20 para 12, para o liberais-democratas de 1 para 10, para o Partido verde de 3 para 8 e para o Partido Conservador de 19 para 4. Agora em relação ao indicativo de um segundo referendo, a porcentagem da população favorável a permanência na UE superaria a favorável à saída da UE. Se olharmos para o panorama geral, parece confirmar a tendência política de crescimento da extrema-direita e o aprofundamento da crise de muitos partidos de governo na Europa. Entretanto, essas expressões populistas de direita, com suas diversas variantes nacionais, enfrentam limitações que são produto de suas próprias contradições frente a emergência de novos fenômenos.

Tradução: Sergio Araujo




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