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Em defesa dos lucros dos empresários, Marchezan aumenta a passagem para R$ 4,05

O mistério sobre a quantia do aumento da passagem acabou nesta semana quando o COMTU aprovou o preço exigido pelo empresariado da cidade de Porto Alegre e pela prefeitura. Agora o tucano sancionou a decisão, passando de R$ 3,75 para R$ 4,05, configurando um aumento de 8% no preço da tarifa, quase o dobro da inflação de 4,76% do período entre fevereiro de 2016 e fevereiro de 2017.

quinta-feira 30 de março de 2017| Edição do dia

Foto: Maia Rubim/Sul 21

A justificativa dada pela EPTC durante reunião do COMTU* foi a de que a diminuição do número de passageiros (em 11% no último período) ocasionou a necessidade de se aumentar o preço da tarifa, bem como o aumento do diesel, os gastos com renovação e manutenção da frota, etc. O problema é que um sem número de contradições e dados desmentem essa justificativa da prefeitura, escancarando os reais interesses por trás do aumento da passagem: ampliar os lucros dos empresários.

Mas antes de entrar nos dados, vale ressaltar a configuração do COMTU e como ele serve para conferir um “verniz democrático” a todo o processo de reajuste tarifário. Composto por 21 membros, como pode-se ver aqui,, o Conselho é controlado fundamentalmente por entidades patronais e secretarias ligadas à prefeitura, como as de meio ambiente, transporte, urbanismo, ATP (sindicato patronal), ATL, etc. Qualquer decisão que saia de lá deve ser acordada antes pelo empresariado da cidade e a prefeitura, fazendo com que vozes minoritárias como a da UMESPA e da CUT, que em tese representam a voz dos estudantes e dos trabalhadores, sejam totalmente apagadas. Na prática o COMTU serve tão somente para aprovar as medidas dos patrões e da prefeitura, mas com um discurso de que “houve diálogo com a sociedade”. No dia da votação do COMTU, mesmo com centenas de estudantes do lado de fora protestando contra mais um aumento abusivo, o Conselho referendou a vontade dos donos do transporte.

Pois agora vamos aos dados. Segundo a própria reportagem do Zero Hora, o preço do diesel não pode ser contabilizado como um fator relevante para aumentar a passagem, uma vez que há uma economia de 3% em seu uso. Como já foi denunciado por vários rodoviários, boa parte da manutenção e renovação da frota é uma farsa regada à propina dos fiscais e muita cara de pau da chefia. Extintor de incêndio dentro do ônibus continuam sem validade, os pneus saem carecas, os bancos dos motoristas e cobradores nunca são consertados, inúmeros carros apresentam problemas nos elevadores dos cadeirantes (quando existem…), ônibus velhos são pintados para parecerem novos, etc.

Ainda segundo a prefeitura, como houve diminuição do número de passageiros e não queriam “reduzir proporcionalmente o serviço que é oferecido”, o aumento foi necessário. Mas o que eles escondem é que o serviço oferecido já está sendo significativamente reduzido! E estão fazendo isso às custas dos trabalhadores, com demissões cada vez mais volumosas. Apenas em fevereiro na garagem da Trevo, segundo denúncias, mais de 10 trabalhadores foram mandados embora, diminuindo as tabelas. Sobre o corte de linhas, Adailson Rodoviário, motorista da Trevo, diz “o que nenhum jornal fala, é que Marchezan autorizou a redução de até 20% da oferta de horários, gerando centenas de demissões na categoria, longa espera nas paradas, mais sobrecarga de trabalho e superlotação nos ônibus que restam circulando, além de manter e aumentar o lucro das empresas.”.

Ou seja, para justificar o aumento, não apenas eles manipulam os dados como literalmente mentem sobre as ações que fazem por debaixo dos panos. A verdade é que o ódio que a população sente todos os dias ao aguardar o transporte público e ter que gastar o que gasta para ir esmagado como sardinhas possui uma razão muito concreta: o transporte é controlado pelos empresários e pela prefeitura que só buscam o lucro.

Nós do Esquerda Diário, junto da Faísca e de trabalhadores e estudantes, levantamos a necessidade de se abrirem todas as contas das empresas para sabermos para onde vai o dinheiro em nossa campanha contra o lucro dos empresários. Todos os dados devem ser públicos, da menor nota fiscal até a maior, com a quebra do sigilo bancário das empresas e a publicização de absolutamente todos os dados. Uma comissão independente, formada por representantes dos rodoviários e dos usuários, os mais interessados na qualidade do serviço, deve averiguar e controlar esses gastos como parte da luta pela estatização dos transportes sob controle dos trabalhadores e população.

Nesse sentido, é tarefa de todos que lutam em defesa do transporte público desfazer a confusão que prefeitura, empresários e sindicato dos rodoviários (de vez em quando a própria esquerda também…) fazem em colocar os trabalhadores contra a população, como se fosse necessário fazer a população pagar mais caro para reajustar os salários dos rodoviários… o problema está no lucro! É lá que devemos atacar. E é justamente lá onde Marchezan não mexe, a não ser quando for para processar o PSOL e seus parlamentares, como vimos recentemente no caso absurdo onde o tucano quer que o PSOL pague os supostos “prejuízos” de R$ 5 milhões de dois empresários do transporte pela suspensão de um mês no aumento da passagem.

Enfim. A única maneira de avançarmos nessa questão é através de uma forte mobilização entre os próprios rodoviários, a juventude e a população usuária do transporte público. É essa aliança que pode fazer a prefeitura de Marchezan e seus empresários dobrarem, avançarmos nas reivindicações da categoria dos rodoviários, derrotarmos esse aumento da passagem, abrir os livros de contabilidade das empresas, atacar os lucros e estatizar o sistema sob controle dos rodoviários e usuários.

*Conselho Municipal de Transporte Urbano




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