Juventude

ELEIÇÕES DCE USP

Em defesa do HU: Uma aliança entre trabalhadores, estudantes e usuários

Rafaella Lafraia

São Paulo

segunda-feira 6 de novembro| Edição do dia

O Hospital Universitário da USP converge toda uma história de luta e um íntimo vínculo entre a comunidade uspiana e os moradores da região. Fundado em 1980, o HU concentra em si um histórico de luta muito forte, com a participação de trabalhadores, estudantes e moradores da zona Oeste. A gestão de Zago, entretanto considera o HU como um grande parasita do orçamento da universidade e vem promovendo diversos ataques contra o hospital e aprofundamento sua política de sucateamento.

A gestão Zago promoveu dois grandes planos de demissão voluntária PDV, acarretando a saída de 43 médicos e 195 funcionários do hospital, reduzindo o contingente de trabalhadores de 1775 a 1580. Assim, com uma redução brutal no número de trabalhadores, os leitos foram reduzidos em 21% nas interações e 25% nos procedimentos cirúrgicos. O atendimento no pronto socorro também foi modificado, passando a atender apenas até as 19 horas e e março de 2016 o PS infantil noturno foi fechado no mesmo horário, e atualmente está sob ameaça de ser fechado por definitivo. Os trabalhadores que ficaram enfrentam uma condição de trabalho complemente precarizada, se vendo obrigados a cumprir mais plantões, tendo maiores dificuldades de ajustar escalas e com uma maior carga de trabalho.

A população dos arredores sofre de maneira direta com o sucateamento do hospital, pois tem no HU sua primeira referência de atendimento. Os planos de Zago para o hospital é desvinculá-lo do SUS e repassá-lo para a iniciativa privada por meio de Organizações Sociais de Saúde (OSS) que gerem os hospitais públicos em São Paulo, lucrando com atendimentos de péssima qualidade e salários baixíssimos para os trabalhadores.

Muitos setores vem se mobilizando e buscando se solidificar em torno de uma luta que barre os desmontes do HU. A chapa Primavera nos Dentes, busca unificar essa luta, de usuários, trabalhadores e estudantes do HU, para impedir o sucateamento do hospital que além de ser um local de referência em atendimento gratuito e da qualidade, também é parte importante da formação dos estudantes enquanto futuros profissionais da saúde.

Para isso, a chapa Primavera nos Dentes defende a contratação de mais trabalhadores, desde os setores administrativos, laboratório e cozinha, até o corpo médico e de enfermagem, por via da universidade através de concursos. Além disso, também exigimos como parte da política de reestruturação do HU a efetivação de todos os funcionários terceirizados, da limpeza e vigilância. O HU, que também cumpre um papel imprescindível na formação dos estudantes da saúde, deve ser ampliado, aumentando suas atividades de extensão que recebam alunos de outras instituições e que os alunos da saúde Pública também façam parte, através de estágios, da construção de um hospital escola. É preciso também ampliar a participação de outros cursos, como enfermagem, nutrição, biomedicina, farmácia, fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

A chapa primavera nos dentes entende que os estudantes precisam se unificar em torno da defesa do HU simboliza uma ferramenta que une todas as comunidades que constroem esse espaço, e que precisa ser duramente defendida em uma mobilização que una a classe trabalhadora, estudantes e usuários.

O sucateamento da Saúde para além dos portões da USP

A luta tanto pela construção de um sistema de saúde gratuito e de qualidade não deixou de ser travada mesmo após a criação e implantação do SUS.Vivemos há décadas um subfinanciamento do SUS, que se aprofundará com a PL 55, que congela os gastos em saúde e educação por 20 anos. Na América latina, o Brasil é o menor investidor em saúde: gasta-se em torno de 1200 reais por pessoa, enquanto na Argentina são gastos em média 1300 reais e no Chile 1900 reais.

O avanço da política de privatização da saúde não é de hoje: desde de sua fundação em 1990, a iniciativa privada que entra como saúde complementar, avança a passos largos sobre os serviços de saúde. Em 2015, sob o governo Dilma, foi aprovada uma lei que permitia o investimento de capital estrangeiro na saúde suplementar, e foi assim, que a maior empresa de planos de saúde, a Amil, chegou até o Brasil. Este ano, Claudio Lottenberg, presidente da Amil, defendeu que as regras e valores dos planos de saúde fossem modificados, e seu discurso foi defendido pelo ministro da saúde do governo temer, Ricardo Barros, que afirma que com o envelhecimento da população é preciso repensar os investimentos e a gestão em saúde.

No município de São Paulo, Doria também não se distingue da política nacional de privatização e aliança com as empresas médicas e hospitalares: em sua gestão, ele promoveu o programa Corujão da Saúde, que sob um discurso de acabar com as filas para a realização de exames e cirurgias, secundariza a atenção primária em benefício dos grandes empresários da saúde de São Paulo, como os hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein. Entretanto, tais hospitais junto a outros tubarões da saúde não realizaram nem 4% dos exames.

O questionamento profundo da lógica de saúde capitalista e o direito ao corpo

A saúde é hoje um grande balcão de negócios: a nível macro, vemos que os governos negociam com os empresários, facilitando seu avanço sob um direito legítimo que é a saúde; a nível micro, a mesma lógica de saúde como mercadoria se reproduz no íntimo da prestação de serviços de saúde, onde os profissionais da saúde são aqueles que vendem uma ilusão de cura e os pacientes compram.

A saúde no capitalismo é vista como mercadoria e os lucros capitalistas vem da venda de produtos como remédios, consultas e exames. Impera na saúde a medicalização dos usuários, que se mantêm alheios ao seu processo de adoecimento e tratamento. Assim como uma linha de produção em massa, os profissionais da saúde são mal remunerados e apenas seguem protocolos de tratamentos para os pacientes, que por sua vez não se veem como sujeitos do seu próprio corpo.

Nós da primavera nos dentes, entendemos que as questões de saúde convergem em um único ponto primordial: o direito ao corpo. É preciso que todos os indivíduos possuam condições para escolher sobre as intervenções que serão feitas, podendo negá-las ou aceitá-las em segurança, de forma gratuita e de qualidade. É preciso reacender o espírito questionador de toda a comunidade. Para isso, é necessário que o controle da gestão em saúde esteja nas mãos dos trabalhadores e estudantes, com participação ativa dos usuários.

O caráter questionador e o foco de saúde preventiva, que ultrapassa o limite das paredes das salas de aula e hospitais, precisa ser recuperado. A saúde está em todos os lugares, desde o saneamento básico e a exposição a doenças da população pobre, do debate de drogas, aborto, até os ataques do governo temer sobre a legislação trabalhista e da previdência.




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