Opinião

RESPOSTA AO CORREIO

Em apoio aos cortes da reitoria Correio Popular insinua que aumento do bandejão deveria ser ainda maior

Nessa semana, o Correio Popular, tradicional jornal de Campinas, publicou uma matéria dando ênfase ao argumento de que comer fora da unicamp custa cinco vezes mais caro que o atual valor cobrado nos restaurantes da universidade. Essa posição visa justificar a ação autoritária da reitoria da Unicamp, que nas últimas semanas impôs, sem qualquer debate democrático com a comunidade acadêmica, um conjunto de cortes, entre os quais está o aumento no preço da refeição no bandejão em 100%, o que afetará a permanência estudantil significativamente. Entre os ataques também estão ameaças aos trabalhadores, como o congelamento de contratações docente e de funcionários.

segunda-feira 2 de outubro| Edição do dia

O aumento do preço da refeição no bandejão da Unicamp está em intensa discussão nas últimas semanas, sobretudo por parte de centenas de estudantes e com forte questionamento à medida autoritária da reitoria que em menos de uma semana buscou implementar um conjunto de cortes. Aos estudantes esse aumento significará um ataque à permanência na universidade, já esse valor pesará nas contas ao final do mês.

A matéria se apoia no autoritarismo da reitoria e legitima o aumento quando coloca que qualquer refeição comum fora da universidade custaria 21 reais em um restaurante “de baixa gastronomia”, ou, ainda, que num shopping o preço da refeição poderia chegar a 35 reais. É inaceitável que o Correio diga que o direito dos estudantes à alimentação deva ser pautado pelos preços absurdos dos restaurantes de Campinas, que estão lucrando em cima de um direito básico da maioria da população, que é a alimentação. O argumento do Correio é uma medida desesperada para defender o aumento do bandejão, mas também para defender um projeto de universidade ainda mais elitizado, excludente e privatista.

Com isso, o Correio busca dividir a opinião da população, para que fique contra os estudantes e trabalhadores da Unicamp. Reafirmando os valores absurdos das refeições em restaurantes privados de fora da Unicamp, o jornal parte da ideia de que um direito elementar como a alimentação deve seguir não sendo garantido pelos empresários aos trabalhadores da cidade, ou deve ser ainda mais precarizado pela prefeitura, no caso do serviço prestado à população pobre. É um absurdo que os trabalhadores tenham de arcar com a sua alimentação, que tenham de pagar esses valores altíssimos ou mesmo ter que cozinhar após uma extensa jornada de trabalho, porque não conseguem pagar esses valores e não têm suas refeições garantidas por seus patrões.

Bem curioso é, inclusive, que o Correio convide para falar e analisar os dados, um empresário, dono de restaurantes da cidade. Obviamente para ele, que busca o lucro a cada refeição, faz todo o sentido naturalizar que os trabalhadores e a população deva pagar esses valores altíssimos. Não há qualquer questionamento sobre o porquê as empresas não garantem a alimentação de seus trabalhadores. Passa longe do seu interesse esse fato, porque serve para aumentar o lucro dos restaurantes, com seus preços abusivos. Os trabalhadores e a população pobre deveriam ter a sua alimentação garantida pelos empresários e pelo governo. Longe dessa preocupação, o Correio ainda insinua que os estudantes deveriam pagar mais caro.

A matéria faz todo um jogo para inverter os papéis e tornar como um privilégio dos estudantes o acesso com baixo custo ao restaurante universitário, mas, ao contrário, o absurdo é que as empresas não garantem a refeição dos trabalhadores, que é um direito básico. Deveriam existir na cidade mais restaurantes populares como o Bom Prato, de caráter municipal e sem trabalho terceirizado, garantido pelos recursos da prefeitura, para ter assegurada sua qualidade. Toda a argumentação da reportagem é para justificar o aumento e o Correio parece ainda sugerir que deveria ser não 4, mas 21 o valor do bandejão.

Além do aumento do bandejão, o conjunto de medidas que a reitoria quer impor significam grandes ataques, incluindo congelamento da contratação de professores, e a retirada da negociação salarial dos trabalhadores do CRUESP (impedindo assim a unificação com trabalhadores da USP e UNESP). São mostras de um projeto de universidade que abre espaço para a privatização, com ameaça à existência de cursos em institutos como o IFCH e IA, que sofrem historicamente com a falta de professores em alguns departamentos.

O projeto da reitoria propõe também serve a uma universidade mais excludente, com seu ataque à permanência estudantil. Ao contrário do que afirma a reitoria, não é assegurado a todos que precisam as bolsas e um aumento de 100% aumentará ainda mais a dificuldade de pagar a um setor amplo de estudantes. E, a despeito das demagogias do reitor Knobel, sabemos que dobrar o preço depois de mais de 15 anos sem aumento, abre um precedente para que também as bolsas sejam cortadas, intensificando a ideologia de que a universidade deve ser restrita e mesmo deixar de ser pública, não à toa novamente ouvimos falar de cobrança de mensalidade. É isso que o Correio em última instância defende com argumentos contestáveis sobre os preços das refeições fora da universidade. E para implementar esse projeto sabem que é preciso condenar o movimento organizado dos estudantes e trabalhadores, por isso a represália da mídia ao legítimo movimento que está se conformando.

Para pensar esse conjunto de medidas que a reitoria quer nos obrigar a aceitar, é preciso que possamos olhar para as contas da universidade, afinal, onde está o dinheiro? Precisamos abrir as contas da universidade, e do Bandejão em primeiro lugar, para sabermos onde está a crise de fato e podermos decidir sobre os rumos do orçamento. Como funciona o restaurante? Vemos trabalhadoras e trabalhadores terceirizados, com salários baixos, condições precárias de trabalho, um ambiente perigoso, com panelas em altas temperaturas, bandejas super pesadas, que afetam sua saúde. Será que o aumento do bandejão servirá para contratação de mais funcionários e a melhoria dos seus salários? Será que servirá para a efetivação desses trabalhadores? O dinheiro vai para as licitações e para os fornecedores, sequer sabemos quanto de fato custa uma refeição do bandejão. Queremos saber e decidir. E inclusive, partindo de que têm pontos do bandejão que devem sim ter gastos que saiam do orçamento da universidade, como os direitos dos trabalhadores, que devem ser garantidos. Deve ser garantidas as refeições dos estudantes e um trabalho digno, com salários justos aos trabalhadores.

Todo o projeto de ataques da universidade está voltado para ir diretamente para os estudantes e trabalhadores, e não para, sem que direitos elementares sejam rifados. Queremos atacar os verdadeiros privilégios da Unicamp, como os convênios com multinacionais que usurpam os recursos da universidade para aumentar seus lucros. Por isso as contas devem ser abertas e pensadas em conjunto da comunidade universitária, para podermos decidir sobre seus rumos. Devemos tomar a universidade nas nossas mãos, para lutar contra seu elitismo em relação aos trabalhadores e população pobre e não deixar que a reitoria e seus aliados da mídia mintam para defender o contrário.




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