Educação

GREVE DOS EDUCADORES DO RS

Em Viamao, representantes do Cpers constroem aliança com os Guarani na luta pela educação

Fernando Pardal

@fepardal

sexta-feira 20 de outubro| Edição do dia

As representantes eleitas em no município de Viamao para compor o 22 núcleo do Cpers foram às escolas indígenas para debater as demandas e necessidades dessas instituições que são sistematicamente negligenciadas pelo governo e sofrem com a destruição do ensino.

De início, já havia uma demanda dos professores atribuídos a essas escolas, que tiveram o direito a "difícil acesso" removido, mesmo com escolas que são afastadas do centro urbano. Por meio do contato com uma das professoras das escolas indígenas, elas souberam do problema da falta de enquadramento no "difícil acesso", em que eles recebem apenas 60% do valor desse direito.

Mas as representantes queriam construir uma aliança mais profunda com a comunidade escolar e saber quais eram as suas demandas, construindo uma aliança pela base com escolas que sempre estiveram à margem da construção do Cpers, como as escolas das zonas rurais e as escolas indígenas.

Elas estabeleceram primeiramente contato com a escola Karai Arandu, que fica no Cantagalo, região de Viamao. Foi realizada uma plenária com toda a comunidade, incluindo não apenas as crianças, mas os anciãos e o cacique dos Guaranis. Foi exposto qual o papel do sindicato e da luta, e afirmada a intenção de unificar a luta e ouvir as demandas da comunidade.

No diálogo travado entre as educadores e o povo indígena Guarani dessa comunidade escolar, as coisas adquiriram novos significados. Por exemplo, em relação à reposição da carga horária que tradicionalmente é negociada ao final da greve, os Guarani afirmaram não sentir essa necessidade, pois para eles a educação é um processo que não se inicia nem se encerra na sala de aula, e que o conteúdo escolar não precisa ser trabalhado necessariamente dentro da sala de aula.

Os Guarani afirmaram que estariam na luta junto aos educadores, que era uma luta também deles e que eles eram muito atingidos pela precariedade e o descaso do governo. Não possuem refeitório para os alunos (são obrigados a comer no corredor); o ensino médio deles é uma extensão de outra escola rural de Viamao, sendo certificado por outra instituição; faltam salas de aula, porque o repasse de verbas é totalmente insuficiente.

A legislação que é imposta aos Guarani é a mesma que para as outras escolas, não lhes é dada nenhuma possibilidade de auto-determinação de suas escolas, seus calendários, seus próprios modo de funcionar.

Um dos pontos mais importantes do diálogo foi trazer aos Guarani o método de luta independente da greve: antes, a única forma que procuravam para fazer valer suas reivindicações frente ao Estado que lhes negligencia e oprime era por meio do Ministério Público. Mas as educadoras do 22 núcleo mostraram que a greve é um instrumento fundamental também para lutar pelas demandas dos Guarani e de suas escolas. Fortalecer a greve dos educadores é fortalecer a sua luta por autonomia e respeito, pelo fim da opressão do Estado brasileiro sobre seu povo.

Assim, as educadoras do 22 núcleo deram um passo importantíssimo, colocando a sua luta para além das demandas meramente corporativas dos grevistas, e mostrando um autêntico ímpeto de tomas as bandeiras dos setores oprimidos, como são os povos indígenas, para a sua greve.

Hoje, das três escolas indígenas, duas estão completamente paralisadas: a Karai Katu e Nhamandu Nhemopua. A Karai Arandu está parcialmente paralisada.

Na conversa, os Guarani expressaram seu desejo de participar das mobilizações e atos dos educadores. No dia 29, na assembleia dos educadores, eles chamaram as escolas para estar presentes. Foi a primeira vez que os professores Guarani participaram, e romperam a ideia de que na assembleia apenas os educadores participam. Para eles, a luta é de todos, então todos participam e deliberam, e assim foi a assembleia do Cpers em Viamao, graças à atuação das representantes do 22 núcleo.

Cacique Jaime, comunidade Mybia Guarani

Novamente, na terça-feira do dia das crianças a alianças se consolidou, com apresentação dos Guaranis e uma fala do Cacique sobre a importância de participar na luta. Foi feita depois uma reunião com os três caciques da região e a comunidade. Novas iniciativas estão sendo discutidas, como plenárias unificadas das três aldeias em conjunto com os educadores em greve.




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