Juventude

REINO UNIDO

Em Londres, 15 mil protestam contra os cortes na educação

No dia 19 de novembro, 15 mil estudantes protestaram contra o aumento das mensalidades universitárias e a mercantilização da educação.

Alejandra Ríos

Londres | @ale_jericho

terça-feira 22 de novembro| Edição do dia

Imagem de Socialist Worker

No dia 19 de novembro, 15 mil estudantes protestaram contra o aumento das mensalidades universitárias e a mercantilização da educação. Conjuntamente chamado pela União dos Estudantes de Northumbria (em inglês NSU) e a University and College Union (UCU) sob a bandeira “Unidos pela Educação, para exigir gratuidade, mais qualidade na educação superior e acessibilidade à todos”, essa demonstração nacional trouxe junto pessoas de diferentes lugares do país, incluindo um grupo de estudantes escoceses que viajaram para Londres de ônibus.

As questões abordadas variaram desde os cortes de gastos com educação e o atual clima de austeridade, para a necessidade de levantar-se contra o racismo, a violência policial contra as minorias étnicas e a imigração, bode expiatório dos políticos. Estudantes e professores universitários marcham pelo centro de Londres entoando: “Educação Gratuita! Taxem os ricos!,” “Educação gratuita para todos!”, ”Sem taxas! Sem cortes! Sem dívidas!,” “Educação é um direito, não um privilégio” e “Fora Theresa May! Refugiados dentro!”

As mensalidades educacionais na Inglaterra aumentarão para £9,250, aproximadamente R$38.5147,00 por ano a partir de 2017. As mensalidades irão aumentar proporcionalmente à inflação nos próximos anos. Para as Universidades aumentarem as mensalidades será necessário providenciar evidências que comprovem a qualidade de ensino e limite satisfatório. O que indica que a educação cada vez mais é tratada como um bem de consumo ao invés de um direito universal. O uso da Pesquisa Nacional de Estudantes (em inglês National Student Survey – NSS), lançada em 2005, contribuiu para esse caminho. Isso reflete uma tendência de mensurar a qualidade da formação universitária utilizando a linguagem de “cliente satisfeito”, como se estivesse avaliando um tratamento de depilação a laser. Além disso a NSS é parte de uma ampla estratégia para justificar o aumento das mensalidades. A NSS incluiu dados oficias dos cursos universitários no Reino Unido, como as notas globais de "satisfação dos alunos", bem como os empregos e salários após a conclusão dos cursos. Ostensivamente apresentados como ferramenta de melhorias, as universidades encorajam seus estudantes a preencheram a pesquisa com a expectativa de aumentar a pontuação de satisfação e melhorar o status da universidade nos rankings. Os resultados do NSS são diretamente ligados no aumento das mensalidades educacionais, como a competência das universidades de cobrar taxas maiores de acordo com sua classificação.

A institucionalização de palestrantes com o propósito de controle social e de segurança foi outro ponto de descontentamento. Parte da estratégia de “Prevenção” do Reino Unido, A Lei de Segurança e contra o Terrorismo de 2015 impõe um dever legal aos acadêmicos de relatar os estudantes que mostram sinais de "radicalização". O “radicalismo” é definido como “oposição aos valores britânicos fundamentais”, incluindo democracia, as leis, liberdade individual e respeito mútuo e, tolerância às diferentes crenças e fé”. Há uma inegável ambiguidade no termo “radicalismo” e na noção de “valores britânicos fundamentais”. A formulação dessa disposição dá muita liberdade para decidir o que conta como radicalismo, e pode potencialmente ser aplicada a uma ampla gama de atividades que criticam a ordem política atual ou buscam organizar a sociedade de uma forma alternativa. Enquanto cria um clima de medo e suspeita, como os professores são obrigados a executar tarefas policiais. Isso desnecessariamente cerceia a liberdade de expressão e oportunidades para o pensamento crítico.

As universidades devem também cooperar com as políticas de imigração do Ministério do Interior. Os professores devem manter um registro da presença dos estudantes e relatar Departamento de Vistos e Imigração do Reino Unido. Algumas universidades vão tão longe que exigem exames físicos discriminatórios de estudantes internacionais. Estas disposições eliminam uma relação de confiança entre estudantes e acadêmicos, à medida que as universidades refletem cada vez mais a atual cultura de vigilância. Os discursos no protesto mencionaram a deportação de 45 mil estudantes estrangeiros que foram injustamente acusados pelo Ministério do Interior de cometer fraude no seu teste de língua inglesa, a fim de obter um visto de estudante. A decisão de deportar os estudantes foi realizada com base em rumores e frágeis evidências. A criminalização infundada dos estudantes estrangeiros é parte da estratégia mais ampla do Ministério do Interior para reduzir significativamente a imigração e tenta fornecer uma desculpa para iniciar um programa de deportação em massa.

O protesto seguiu de Park Lane para Westminster, onde uma ampla gama de pessoas discursaram sobre várias questões. Malia Bouattia, presidente da União Nacional de Estudantes, expressou a raiva dos estudantes: "O governo está correndo rumo à um experimento no ensino superior profundamente arriscado e ideologicamente liderado pelo mercado. Estudantes e professores, serão os mais afetados, é nítido que isso não pode ser permitido". Muitos funcionários da universidade se juntaram ao protesto. Sally Hunt, secretária-geral das Universities and College Union (UCU) disse: "A remuneração dos funcionários foi reduzida nos últimos anos, enquanto a diferença salarial entre homens e mulheres aumentou e as universidades introduziram mais contratos que você associaria com a Sports Direct. Enquanto isso, aqueles que estão no topo continuaram a desfrutar de aumentos salariais inflacionários." O líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, enviou um vídeo com uma mensagem em apoio aos estudantes e professores e chamou para combater as medidas de austeridade impostas pelo governo conservador. Um dos discursos mais bem recebidos foi o do jornalista Owen Jones. Ele ressaltou que o aumento na educação isolava ainda mais os jovens da classe trabalhadora e que a falta de políticas sociais daria origem a forças fascistas. Um ativista de Black Lives Matter de Chicago também falou, expressando solidariedade com a ação.

Em seu discurso de encerramento, Bouattia convocou os alunos para se organizarem, ressaltando que o protesto não era um fim em si mesmo, mas um começo.




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